Brigando há muito tempo para destravar gargalos logísticos, o Espírito Santo deve começar a colher, nos próximos anos, alguns desses frutos. O Porto Central, projeto a ser implantado em Presidente Kennedy, na região Sul do Estado, está cada vez mais perto de se concretizar. E, de olho nas potencialidades da área, quatro grandes petroleiras já confirmaram planos de escoar petróleo cru pelo futuro terminal de líquidos do complexo portuário.
A informação é do presidente do Porto Central, José Mária Vieira Novaes, segundo o qual, além das quatro empresas já confirmadas — que já assinaram ou estão em fase de assinatura dos contratos —, outros clientes também estão em negociação.
“Temos negociado com praticamente todas as petroleiras que atuam no país, como Petrobras, Shell, Equinor, empresas chinesas, entre outras. E as conversas avançam bem, temos tido uma boa receptividade das petroleiras. Quatro já confirmaram os planos de realizar operações de transbordo de petróleo cru pelo terminal de líquidos, que será o primeiro a ser implantado.”
Novaes explica que o navio que pega o petróleo na plataforma não é o mesmo navio que viaja para fazer a entrega final, e que é preciso transferir a carga para outra embarcação, isto é, realizar o transbordo. É nessa área que terá foco o terminal de líquidos do Porto Central, previsto para entrar em operação por volta do segundo semestre de 2024.
Além do escoamento de óleo bruto, o espaço deverá ser utilizado na movimentação de derivados de petróleo, como gasolina, diesel e produtos petroquímicos, além d etanol.
O operador do novo terminal ainda não está definido, mas Novaes reforça que esse é um ponto menos crítico. "Começamos a fechar clientes, que era a parte mais complicada, e, se tudo der certo, conseguiremos viabilizar o início das obras no final deste ano, para que esse terminal entre em operação dentro de três anos."
O executivo destaca que as novas operações reforçarão a capacidade portuária do Estado, num momento em que a produção de petróleo tende a crescer no país em função do foco de investimentos da própria Petrobras em áreas de pré-sal e também da entrada de novos agentes no mercado.
OUTROS TERMINAIS EM STAND-BY
Novaes ressalta, entretanto, que ainda não há previsão para os demais espaços, como terminais de grãos, de contêineres, de carga geral e de importação de fertilizantes, por exemplo. Esses, ele observa, só podem sair do papel quando houver uma ferrovia que chegue até o porto.
O entrave logístico em questão é o segundo ramal da futura EF 118, que deverá ligar o Espírito Santo ao Rio de Janeiro. Enquanto a construção do primeiro trecho entre Cariacica e Anchieta é tida como praticamente certa, a segunda parte do ramal ainda não tem previsão para sair do papel.
A nova briga do Espírito Santo é para que o segundo trecho a ser construído seja entre Ubu, em Anchieta, e Presidente Kennedy, favorecendo assim as atividades do Porto Central.
Em palestra realizada na manhã desta quinta-feira (27), o governador Renato Casagrande já havia destacado a dificuldade. O chefe do executivo estadual, entretanto, ponderou que há boas perspectivas de investimentos portuários em território capixaba nos próximos anos.
“Um deles é o do Porto Central, que é um projeto já de bastante tempo que estamos esperando. Ele depende muito de uma ferrovia, e já conseguimos o trecho até Anchieta, mas vão faltar quilômetros até chegar à divisa com o Rio de Janeiro. Mas enquanto não tiver a ferrovia, pode ser que consiga ter movimento de carga do mar, do petróleo cru que precisa ser estocado em algum local. Pode ser uma alternativa, estamos trabalhando, por exemplo, com a Petrobras. Há perspectivas reais em relação ao Porto Central.”
O especialista do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) Romeu Rodrigues pontuou que há uma perspectiva positiva de desenvolvimento da região, de geração de emprego e renda para os capixabas.
“Temos acompanhado a situação do Porto Central e é um projeto no qual a Federação tem bastante interesse porque não apenas permitirá maior movimentação de cargas a partir do Estado, como possibilitará a atração de novas indústrias, que ajudarão a impulsionar o desenvolvimento capixaba, principalmente naquela área.”
A aposta, ele afirma, é na dinamização de negócios, que tem sido um ponto sensível para a indústria capixaba, que perdeu participação na produção nacional ao longo da última década e deixou o ranking dos dez maiores produtores.
"Conseguindo implantar o porto, vamos atrair mais indústrias, e não só empresas da área de petróleo, mas na área de gás, de energias renováveis, indústrias de todos os ramos. Temos boas perspectivas. A ferrovia pode agir como um forte indutor de negócios, mas acho que também é possível viabilizar outros terminais antes que se ela concretize. O Porto de Açu (RJ) é um exemplo disso."