Embora as mulheres representem a maioria da população e tenham, muitas vezes, maior escolaridade, o equilíbrio financeiro ainda é distante no Espírito Santo. Um levantamento sobre o mercado formal de trabalho capixaba revela que, dos 78 municípios do Estado, apenas em dois deles a renda média feminina supera a masculina.
Renda média das mulheres supera a dos homens em duas cidades do ES
As mulheres ganham, em média, mais que os homens apenas em Itapemirim, no Sul do Estado, e em Santa Leopoldina, na Região Serrana. Em Itapemirim, elas recebem 13,3% mais que os homens, com salário médio de R$ 3.076, enquanto eles recebem R$ 2.714.
Já em Santa Leopoldina, elas ganham 2,2% a mais, com salário médio de R$ 2.430. Os homens recebem, em média, R$ 2.377.
No território capixaba, como um todo, a desigualdade persiste: em média, as trabalhadoras do Estado recebem 23,8% menos que os homens. Na Grande Vitória, a distância é ainda maior, com as mulheres recebendo, em geral, 27,7% menos que os homens. Só em Vitória, as trabalhadoras têm salário 33,5% inferior ao deles.
Apenas em outras duas cidades as mulheres também ocupam a maioria dos postos de trabalho entre os 78 municípios capixabas: Itapemirim (53,6%) e Alegre (50,2%).
Os dados são da análise Retrato das Mulheres no Mercado de Trabalho no Espírito Santo: Diagnóstico e caminhos para a equidade, elaborada pelo Connect Fecomércio-ES.
A análise foi elaborada com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua/IBGE), na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS/MTE) e no Painel de Informações do Trabalho Doméstico, também do Ministério do Trabalho e Emprego.
André Spalenza, coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES, lembra que as mulheres também enfrentam maiores taxas de desemprego e menor participação no mercado de trabalho. Em geral, no Espírito Santo, o rendimento médio das mulheres é de R$ 2.878, valor 21,4% menor que a média masculina, que alcança R$ 3.663.
Segundo ele, isso evidencia as desigualdades persistentes tanto nas oportunidades de inserção quanto na valorização do trabalho feminino.
“Nesse cenário, há um considerável contingente de mulheres em idade economicamente ativa com potencial para ingressar no mercado de trabalho. Para ampliar sua participação, é fundamental implementar medidas e incentivos que forneçam suporte adequado, incluindo políticas voltadas à inserção, valorização salarial e oportunidades de ascensão profissional, de modo a reduzir as desigualdades de gênero e fortalecer a presença feminina em setores estratégicos da economia capixaba”, afirma.
Sobre a diferença salarial na Grande Vitória, Spalenza diz que esse resultado indica que, mesmo com maior participação feminina no mercado formal metropolitano, as disparidades salariais são mais expressivas.
"Uma possível explicação está na estrutura ocupacional da região, marcada por maior concentração de cargos de alta remuneração e funções de liderança, tradicionalmente ocupados por homens, enquanto as mulheres se concentram em atividades administrativas, de serviço e de cuidado, caracterizadas por menor valorização salarial", aponta.
Mercado de trabalho para mulheres
No mercado formal, as mulheres ocupam 40,1% dos empregos com carteira assinada no Estado, o equivalente a 365.415 postos. Mesmo com maior escolaridade — 81,7% das trabalhadoras formais têm ao menos o ensino médio completo em comparação a 71,3% dos homens —, elas recebem menos em todos os níveis de instrução. A remuneração média feminina é de R$ 2.773, 23,8% inferior à dos homens (R$ 3.637).
Entre trabalhadores com ensino superior completo, a diferença salarial chega a 41,4%. “A maior qualificação feminina não tem sido acompanhada de valorização proporcional. Isso evidencia padrões estruturais de desigualdade que ainda persistem”, afirma Spalenza.
O estudo também destacou a relevância do empreendedorismo feminino. O Espírito Santo conta com 28.856 mulheres empregadoras e 176.977 que trabalham por conta própria, totalizando 205.833 empreendedoras, o que corresponde a 22,9% das mulheres ocupadas. Apesar disso, elas representam apenas 28,8% dos empregadores e 34,2% dos trabalhadores por conta própria no estado. “O empreendedorismo feminino muitas vezes surge como estratégia de conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares, mas ainda enfrenta barreiras de acesso ao crédito, à formalização e à expansão”, pontuou o coordenador do Observatório do Comércio.
A informalidade, por sua vez, é menor entre as mulheres (34,4%) do que entre os homens (41%), reflexo da maior presença feminina em setores mais formalizados, como educação, saúde e administração pública. Ainda assim, 30,3% das mulheres empregadas atuam sem carteira assinada, situação que compromete a segurança financeira e o acesso a direitos trabalhistas.
De modo geral, enquanto 73,3% dos homens com 14 anos ou mais estão inseridos no mercado de trabalho, entre as mulheres esse percentual é de apenas 52,4%, abaixo da média nacional, que é de 53,1%. Para Spalenza, as mulheres ainda assumem a maior parte do trabalho não remunerado, que inclui o cuidado com os filhos e idosos, bem como a execução das tarefas domésticas, o que limita o tempo disponível para atividades remuneradas.
O levantamento evidencia esse peso da dupla jornada. As mulheres capixabas dedicam, em média, 21,5 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidados com pessoas, o que representa 9,6 horas a mais que os homens. Considerando uma jornada padrão de oito horas diárias, isso equivale a 1,2 dia adicional de trabalho por semana apenas em atividades não remuneradas. “Esse tempo impacta diretamente a participação feminina no mercado, a progressão na carreira e até a saúde física e mental das trabalhadoras”, ressaltou Spalenza.
Mesmo em um cenário de quase pleno emprego, já que a taxa de desocupação no estado recuou para 3,1% no segundo trimestre de 2025, a menor da série histórica, as mulheres ainda enfrentam taxa de desemprego superior à dos homens: 4,2% contra 2,3%. Elas representam 58,5% das pessoas desocupadas no Espírito Santo, ou seja, 38 mil mulheres.