Embora menor do que esperada, a queda de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2020 - a maior desde o início da série histórica, em 1996 - é um sinal de alerta para a economia, que patina em meio ao agravamento da pandemia da Covid-19 em território brasileiro.
Enquanto o primeiro trimestre já é considerado quase perdido, com expectativa de estagnação ou mesmo retração da atividade econômica, é no enfrentamento ao coronavírus que estão todas as apostas para a retomada. Segundo analistas, será o ritmo da vacinação que vai dizer se a economia brasileira vai crescer e conseguir gerar empregos.
Um dos fatores que reduziram o ritmo de crescimento mais recentemente foi justamente o fim do auxílio emergencial, em dezembro passado. Uma nova rodada do benefício deve ser aprovada nos próximos dias pelo Congresso. Em declaração feita na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), afirmou que estão previstas outras quatro parcelas, a partir de março.
Mas enquanto o auxílio movimenta o comércio e a indústria, por exemplo, o setor de serviços, que responde por cerca de 60% das atividades do país, e, também, do Espírito Santo, depende da interação humana, ainda limitada em função do coronavírus.
“Grande parte dos problemas atuais tem a ver com o recrudescimento da pandemia. Ficamos um pouco para trás no ritmo da imunização, e não é porque o Brasil não tem estrutura; uma vez que a vacina está aqui. Conseguimos alcançar muita gente muito rápido, mas, por escolhas políticas, a chegada da vacina tem sido demorada. E a atividade econômica reflete isso”, observou a analista de macroeconomia da XP Investimentos, Rachel de Sá.
Aliada à demora na imunização dos grupos prioritários, a especialista destaca ainda a incerteza política, que aumentou recentemente, diante de intervenções do governo federal na Petrobras e ameaças de mudanças em outras estatais.
As ações acabaram por abalar a confiança de investidores, levando a uma nova elevação da taxa de câmbio, o que contribui para aumento da inflação, visto que muitos produtos consumidos no país são atrelados ao dólar. Já existe a expectativa, inclusive, de que o Banco Central volte a elevar as taxas de juros nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária, a fim de conter a alta dos preços.
"O mercado de trabalho depende muito dessas questões: a vacinação, porque a pandemia precisa estar controlada e as coisas precisam estar abertas para as pessoas trabalharem, sendo que o setor de serviços é o que mais emprega; e a segunda é a melhora do nível de confiança"
Ela continua: “Hoje, o investidor não sabe se abre um negócio, se expande, se compra, se contrata. Pode até ter dinheiro, mas adia qualquer plano porque não sabe como vai ser o cenário da economia ali na frente.”
A opinião também é compartilhada pelo economista Felipe Storch Damasceno, professor da Fucape, que observa que parte dessa incerteza está ligada à agenda de reformas, que precisam ser retomadas para minimizar o risco fiscal e elevar a percepção de confiança, que, efetivamente, contribui para a geração de empregos no país.
“A vacina é a principal questão no momento. Mas o governo já deveria ter andado há muito tempo com as reformas, que também são importantes. Fala-se em votar a reforma tributária até o fim do ano, mas é parcelada, não foi enviada por completo. Em relação à administrativa, parece que há ainda menos pressa.”
O economista observa que também é preciso pressionar por outras reformas menores, que também são extremamente benéficas à economia, como, por exemplo, a lei cambial e os novos marcos regulatórios da cabotagem (BR do Mar) e do gás natural (Lei do Gás).
Damasceno frisa, entretanto, que para que as reformas tenham uma chance de acontecer, precisam ser votadas ainda em 2021, uma vez que 2022 é um ano eleitoral e grandes mudanças são difíceis de ser implementadas.
"Todas essas reformas, sejam grandes ou pequenas, têm um impacto positivo na economia, mas precisam ser votadas logo. Se deixarem para o próximo ano, pode ser muito mais difícil aprovar aquelas que têm um peso maior"
Enquanto ajustes fiscais e a vacinação saem por pouco do papel, o diretor de Integração do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira, observa que também é preciso garantir a sobrevivência da população vulnerável, que lida com a baixa oferta de vagas de emprego, e a dúvida sobre como colocar comida na mesa no dia-a-dia.
“O governo federal acertou quando implementou o auxílio emergencial no ano passado, e pode acertar de novo. Mas o benefício não pode ser um fim em si mesmo. Não se pode cometer o mesmo erro que houve no final do ano passado, quando acabou o auxílio e a população, de repente, ficou sem nada. É preciso estruturar uma política de transição, implementar ações que promovam a criação de emprego e renda.”
Do contrário, Lira explica, a ajuda é incompleta - não somente para os beneficiários, mas para a própria economia, uma vez que o mesmo benefício que ajuda a movimentar o comércio e outras atividades, contribuindo para o aumento da arrecadação do governo, também deixa um rombo nas contas públicas.
Vale destacar, por exemplo, que o relatório da PEC Emergencial, que deveria ser uma proposta de contenção de gastos públicos em épocas de crise, prevê a renovação do auxílio sem que nem mesmo haja uma fonte de receitas para bancá-lo. A princípio, os recursos viriam de crédito extraordinário, fora do teto de gastos.
"O governo, principalmente o presidente, precisa parar de criar conflitos, como têm feito com tantas questões, que vão desde a vacinação até o preço dos combustíveis. São muitas discussões que não levam a lugar nenhum, sempre jogando a responsabilidade para o colo dos outros. Não é o momento de desavenças, é o momento de união nacional em prol do crescimento do país"
"SE ESFORÇO POR VACINA É COLETIVO, POPULAÇÃO DEVE FAZER SUA PARTE"
“A vacina é a única solução que temos para a pandemia. Vai demorar até atingirmos um percentual elevado da população, mas devemos fazer um esforço coletivo para que as doses sejam liberadas o quanto antes, e possamos retomar as atividades. Mas não basta o governo agir, a população também tem que fazer sua parte.”
A afirmação é do empresário e presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES), José Lino Sepulcri, que observa que, em diversos Estados, a pandemia atinge níveis críticos, como falta de leitos, insumos para tratamento de pacientes, o que tem provocado a adoção de lockdown, que é a restrição de toda atividade não essencial.
Sepulcri observa que, comparado a outros lugares, o Espírito Santo vive hoje uma situação confortável, com somente um município em risco alto de contaminação pela Covid-19. Mas destaca que nada impede que a situação observada em outros Estados se repita em território capixaba se não houver colaboração.
Ele frisa que a negligência da população, de não ter os cuidados exigidos pelas autoridades, como uso de máscara, distanciamento e reforço da higiene, tem um peso enorme no avanço ou controle da contaminação.
“Precisamos dessa colaboração e precisamos da vacina o quanto antes. Inclusive, nós louvamos a atitude do governador de querer agilizar as vacinas, em meio a esses problemas políticos do governo federal, apoiamos os esforços que estão sendo feitos e estamos juntos no movimento Unidos Pela Vacina, em conjunto com outros empresários.”