Em meio às várias crises que o país vive e do momento em que a população, mais do que nunca, precisa de um governo preocupado com suas necessidades, o foco muda para a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O pedido e a exoneração do ex-ministro ocorreu nesta sexta-feira (24), junto a discursos com acusações de ambas as partes.
De um lado, o número de infectados e de mortes por coronavírus cresce exponencialmente, assim como o total de pessoas perdendo seus empregos, sem renda e passando fome. Do outro, o presidente da República, Jair Bolsonaro, promove mais crises capazes de aumentar as incertezas, abalando a confiança do investidor, tão necessário para ajudar o país a se reerguer no cenário pós-pandemia.
A saída de Moro acende uma alerta sobre a situação de Paulo Guedes, ministro da Economia. O governo começa a tomar decisões econômicas sem consultar o ministro e mais instabilidades surgem. O economista e comentarista da CBN Vitória José Márcio de Barros aponta que se Guedes sair, assim como o Moro o fez, acaba o governo Jair Bolsonaro.
Esta entrevista com José Márcio de Barros tem como base o cenário atual da economia em crise e dos discursos conflitantes por parte do governo federal. Nela, o economista explica como a instabilidade impacta na decisão de investimentos e destaca a necessidade de que o presidente dialogue com os demais poderes.
Por que a saída de Moro do governo impacta o mercado financeiro e a economia?
A demissão de dois ministros em uma semana faz com que os investidores estrangeiros não queiram vir para o Brasil. Essa situação passa uma ideia negativa para o investidor. Precisamos desses investimentos, para que eles tragam dólares para o país, o que é importante para a nossa economia.
O mercado, quando viu essa perda e o balizamento que ele representava, repercutiu diretamente na bolsa e no preço do dólar. Nesse momento que estamos vivendo, em meio à pandemia do coronavírus, os investidores estrangeiros já tiraram R$ 64 bilhões da B3 [operadora da Bolsa de Valores brasileira], não só por causa do vírus, mas também da incerteza política.
Por mais que o Banco Central intervenha, colocando mais dólar no mercado e fazendo ações de controle do seu preço, o mercado não se acalmou. A moeda americana chegou a bater R$ 5,748 na manhã desta sexta-feira (24) e, à tarde, estava operando com uma alta de 2,60% sobre a cotação do dia anterior.
Nesse momento de incerteza, as pessoas procuram o dólar como porto seguro e essa corrida é que faz com que a moeda se valorize.
No câmbio, o valor alto das moedas, seja o dólar ou o euro, acaba assuntando os investidores, porque eles têm um compromisso para pagar. E, se esperar para depois, pode ser que outro fato ocorra e acabam pensando que é melhor antecipar a compra para pagar menos. No mercado acionário, se tem a certeza que, com a pandemia, os negócios iam vender menos e faturar menos.
As decisões do presidente vêm piorando a situação econômica do país?
Ontem (23), o governo anunciou um pacote de medidas que vai ser lançado após o mercado reabrir. As próprias medidas foram lançadas sem o apoio do ministro da Economia, Paulo Guedes, mas com a presença de um novo assessor militar. Dessa forma, o presidente passa para o mercado uma sensação de instabilidade.
O ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, autorizou o pagamento da segunda parcela do seguro desemprego, e o presidente disse que não. Isso passa uma péssima imagem de insegurança para o investidor.
O presidente já está fragilizado diante do Congresso, o Senado e a Câmara dos Deputados já estão com a cara virada diante das declarações que ele vem fazendo.
A declaração do Moro durante seu anúncio de demissão foi uma “delação premiada”. As próprias autoridades do Poder Judiciário e do Congresso disseram que vão convocar o, agora, ex-ministro para falar sobre o pedido do presidente de abertura dos dados sigilosos que a Polícia Federal trabalha. Isso para poder explicar o que ele quis dizer com a declaração dele.
Essa instabilidade, diante do Judiciário e do Legislativo, faz com que o investidor estrangeiro não venha, e que quem tem um negócio planejado decida postergar ou cancelar o investimento.
Nesse momento de crise, é muito importante a estabilidade politica, porque é um fator decisivo para atrair investimentos para o Brasil. A taxa de desemprego, que estava, em média, em 12,7% no ano passado e acumulada em 12 meses em 11,6%, agora já se fala em uma taxa de 17,8%. Ou seja, cerca de 30 milhões de desempregados.
Quais são os sinais que Bolsonaro está passando para o mercado? Eles estão de acordo com o discurso dele de campanha, de fim da velha política e de combate à corrupção?
No início do mandato do presidente, os seus sinais estavam de acordo com a campanha, mas agora não. O Sergio Moro mesmo disse que não está tendo carta-branca e mostrou uma intervenção na área de atuação dos ministros.
No ministro Guedes, ele [Bolsonaro] dá uma autonomia muito grande de agir e atuar, porque não tem militares em condições de atuar lá.
O presidente pega militares que são bons e preparados dentro das áreas de atuação do governo e os coloca como se fossem testa de ferro do presidente nos ministérios, mas na economia não tem como fazer isso.
Ele colocou um militar na Casa Civil para fazer reuniões com o ministério da Economia, para saber o que está sendo feito lá. Ele [Bolsonaro] está tentando intervir com o Paulo Guedes para fazer um trabalho de gestão desses projetos, o que resultou no programa Pró-Brasil. Mas, essa pessoa mostrou que não tem conhecimento e bagagem.
Bolsonaro está infiltrando militares, que é a base dele, nos ministérios. Não estou dizendo que são pessoas menos preparadas e qualificadas. Ele [o presidente] está colocando pessoas para serem uma forma de interventor, para não ser pego de surpresa. Ninguém consegue mandar com esse tipo de ingerência na sua gestão.
Nenhum ministro vai querer ficar sendo fiscalizado a mando do presidente. Queira ou não, os empresários que vão investir, quando essas informações chegam para essas pessoas, elas causam instabilidade e uma insatisfação muito grande. Eles vão pensar duas vezes se vão investir naquilo ou não, baseados na instabilidade política.
O governo tem se mostrado uma decepção ao setor empresarial? Por quê?
O presidente tem mostrado dualidade. Os empresários, muitos querem voltar a produzir e abrir os shoppings com a economia voltando ao normal. O presidente, às vezes, ouve um lado e não o outro. A maior representação da classe empresarial do país é a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que não está sendo levada em consideração.
Ele [o presidente] não procura ficar do lado do empresário e acha que tem que ficar tudo do jeito que ele quer. Ele deveria se aproximar da classe empresarial.
O ministro Guedes tem uma amizade muito grane dentro do setor produtivo brasileiro, maior do que a amizade e simpatia que os empresários nutrem pelo presidente.
Os empresários confiam no Guedes e a iniciativa privada está muito próxima do Moro.
O governo vai continuar, mas vamos supor que perda outra perna de sustentação, sendo que tenhamos três: Guedes, Moro e Mandetta, mas, nesse caso, o Guedes seja impactado. Se você tiver uma desestabilização que passe pela saída do Guedes. Isso, praticamente, encerra o governo Bolsonaro.
Bolsonaro representava uma esperança contra os governos anteriores. Qual é a visão atual sobre o governo?
A esperança foi abalada com a saída do Moro, por ser como se fosse um estandarte da moral e da luta contra a corrupção, que era uma bandeira dele. A partir do momento que perde essa referência, parece que o mercado vai tirar uma sustentação. A visão para frente é a pior possível e vai se repetir nos próximos índices.
Qual o papel que o presidente está deixando de cumprir?
O papel de grande estadista. A população esperava que ele falasse menos e atuasse mais. O mercado esperava que ele fosse um estadista. Ninguém conseguia prever que o presidente iria para a porta do palácio onde mora, todo dia, receber turistas e partidários e, em um dia, não atender a imprensa porque está com raiva dela.
Ele não mantém uma linha regular e isso é ruim. Fico surpreso que não tenha ninguém por trás, orientando ele sobre esse comportamento.
O que o presidente precisa fazer agora? Em que ele precisa focar?
Ele tem que, daqui para a frente, acalmar os mercados e passar uma mensagem de tranquilidade. Se ele não conseguir fazer, conversar com sua equipe e mostrar que está disposto a negociar e manter harmonia com os outros poderes, as coisas não vão fluir.
Se os poderes tiverem, daqui em diante, uma má vontade com os projetos que estão dentro do Congresso, Bolsonaro não vai governar.
O presidente precisa de diálogo e aproximação com o Legislativo e com o Judiciário.
Se essa aproximação não acontecer, aí começa o que chamamos de desgaste, o mesmo que ocorreu com a Dilma. O Legislativo vai minando o governo e essa falta de harmonia entre os poderes derruba qualquer governo. O presidente tem que ser visto como um estadista.