Empresas do setor de petróleo e gás devem investir cerca de R$ 13,78 bilhões no Espírito Santo nos próximos anos. A expectativa é de que as grandes petroleiras, a exemplo da Petrobras e da Shell, mantenham grandes investimentos em algumas áreas prioritárias no Estado e, ao mesmo tempo, a entrada de novos agentes no mercado também estimule novos projetos.
O levantamento consta na 4ª edição do Anuário da Indústria do Petróleo e Gás, elaborado pela Federação das Indústrias do Estado(Findes), por meio do Instituto de Desenvolvimento Industrial do Espírito Santo (Ideies).
A publicação aponta que a quebra do monopólio da Petrobras e o novo mercado de gás, sancionado nesta semana pelo governo federal, darão frutos positivos para o Estado. Estão no radar, por exemplo, investimentos de empresas como Imetame, ES Gás, Karavan Oil & Gas e EnP.
Em 2020, o cenário de queda no preço do barril de petróleo, devido à redução da demanda por combustível provocada pela pandemia do coronavírus, deixou os investidores do setor cautelosos.
A Petrobras, por exemplo, anunciou em outubro o terceiro adiamento do início da operação do Integrado Parque das Baleias, novo navio-plataforma que iria ampliar a produção no campo de Novo Jubarte, no Litoral Sul capixaba.
A nova infraestrutura para produção de petróleo e gás, orçada em aproximadamente R$ 5 bilhões (ou ainda US$ 933,5 milhões), é um dos projetos mais aguardados pelo Espírito Santo e foi jogada para 2024.
O ano de 2021, por outro lado, começou com um retorno gradual dos preços da commodity para os níveis pré-pandemia, à medida em que o mercado global se recupera, impulsionado, principalmente, pelo avanço da vacinação contra a Covid-19. O barril de óleo, que chegou a ser cotado a menos de US$ 20 no ano passado, já passa dos US$ 60 atualmente.
Há investimentos que visam a ampliação da produção de petróleo e gás em terra, mas também estão previstos perfurações de poços e pesquisas de exploração por novas empresas que arremataram blocos no Estado; planos de descomissionamento (desmonte) de plataformas da Petrobras; e novos leilões de áreas de exploração e produção.
“O desempenho do mercado global é sempre um ponto de atenção para empresas como a Petrobras – que além do investimento no Parque das Baleias, tem outros dois projetos para infraestruturas voltadas para a produção de petróleo e gás –, que, como já observamos, tende a revisar seus investimentos conforme as condições. O mesmo pode ocorrer com a Shell. Mas são investimentos potenciais, com certeza”, apontou a gerente do Observatório do Ambiente de Negócios do Ideies, Gabriela Vichi.
Outros investimentos, ela observa, estão mais consolidados, como é o caso da ES Gás, que, nos próximos 10 anos, deverá investir até R$ 300 milhões para expandir a rede de distribuição de gás no território capixaba. A meta é construir mais de 292 mil metros de gasodutos de distribuição e ligar mais de 96 mil novos consumidores à rede do gás, que hoje atende a cerca de 60 mil consumidores em 13 municípios capixabas.
A primeira grande ação será no Norte do Estado. A empresa vai construir um gasoduto de distribuição que ligará a Unidade de Tratamento de Gás de Cacimbas (UTGC) da Petrobras, em Linhares, até a região industrial da cidade, levando gás para indústrias. São previstos cerca de 40 quilômetros de dutos, que devem demandar um investimento médio de R$ 40 milhões.
“Outro projeto que tem boas perspectivas é o que será realizado pela Imetame e pela EnP, pois há um investimento obrigatório mínimo, que até pode ser repactuado, mas tem regras mais rígidas para isso”, frisou Vichi. As empresas se uniram para investir na exploração e produção de petróleo no Norte do Estado.
Além disso, a Petrobras oficializou, em agosto, a venda de sua participação em 27 concessões terrestres de exploração e produção de petróleo, localizadas no Espírito Santo, conhecidas como Polo Cricaré, para a Karavan SPE Cricaré S.A., uma Sociedade de Propósito Específico (SPE). São esperados mais de R$ 130 milhões em investimentos na região com o novo operador.
“O Espírito Santo tem um ambiente propício para ter uma diversificação de atores. A gente foca na Petrobras – e ela é importante, claro, tem um nome forte –, mas também temos outros players no mercado. Temos atraído novas empresas, e temos boas oportunidades para os próximos anos, que podem movimentar toda a cadeia de negócios, gerar emprego e renda”, destacou a especialista.
CONCORRÊNCIA REDUZ PREÇOS E ESTIMULA INVESTIMENTOS
O diretor de Defesa de Interesses da Findes, Luis Claudio Montenegro, reforçou que é preciso pensar em ter mais concorrência, com mais empresas operando, até mesmo para que seja possível reduzir preços. Para isso, é necessário que haja no Estado um ambiente que favoreça a atração desses investimentos.
Nesse sentido, ele destaca que, no final de março, foi realizada a chamada “Mesa Reate”, uma reunião entre membros dos governos federal e estadual, órgãos licenciadores, indústria, entre outras frentes, para discutir o cenário e propor soluções que promovam os potenciais do Estado no segmento de produção de petróleo em terra (onshore).
“Além disso, o governo federal criou, no final do ano passado, o Promar (Programa de Revitalização e Incentivo à Produção de Campos Marítimos), que é um projeto que tem como objetivo a revitalização dos campos maduros offshore para prolongar sua vida útil. Também temos potencial para atração de investimentos na área onshore, com as novas rodadas.”
Montenegro destaca ainda o novo marco regulatório do gás, sancionado na quinta-feira (8) pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Entre outros pontos, o texto traz a desconcentração do mercado, ao impedir uma mesma empresa de atuar em todas as fases, da produção até a distribuição, medida que, na prática, quebra o monopólio da Petrobras no setor.
O novo mercado de gás que nasce com a nova legislação poderá elevar em R$ 1 bilhão o Produto Interno Bruto (PIB) do Espírito Santo e criar 16 mil empregos até 2029. A arrecadação em impostos também deve crescer em R$ 64 milhões por ano, segundo estudo do Ideies, conforme revelou a colunista de A Gazeta Beatriz Seixas.
“O novo mercado vai gerar um crescimento importante, tanto na infraestrutura, quanto na produção. Mas, além dessas áreas, também temos que voltar o olhar para investimentos em pesquisa e inovação. Hoje, temos uma participação muito pequena das empresas com esse tipo de recurso. E é algo em que a própria federação quer ampliar sua atuação. Estamos propondo, inclusive, a expansão do Fórum (Capixaba de Petróleo e Gás) para abranger a energia como um todo, mas também queremos dar suporte ao Estado e aos municípios na estruturação de projetos com investimentos de royalties.”