A lista de credores da Viação Grande Vitória, em recuperação judicial autorizada pela Justiça capixaba, contempla 864 credores em vários estados, sendo 836 somente no Espírito Santo. O total devido pela empresa é de R$ 99,2 milhões, mas 83% corresponde a dívidas em terras capixabas, o que equivale ao valor de R$ 82,3 milhões.
A empresa é uma das operadoras do Sistema Transcol e responsável por transportar 11% dos passageiros da Região Metropolitana. Em dezembro do ano passado ela protocolou o pedido de recuperação judicial, que foi aceito no último dia 11 em decisão do juiz Marcos Pereira Sanches, titular da Vara de Recuperação Judicial e Falência do Juízo de Vitória.
O rol de credores a que a reportagem de A Gazeta teve acesso foi anexado ao processo de recuperação judicial da empresa. A lista contempla três grupos de credores. São eles:
Viação Grande Vitória deve R$ 82 milhões a mais de 800 credores no ES
- Credores trabalhistas - Dívidas com 701 pessoas, todas do Espírito Santo. A eles são devidos R$ 4.579.572,64.
- Credores de maior valor - Totalizam 86, sendo 67 do Espírito Santo, um do Distrito Federal, 1 de Goiás, 3 de Minas Gerais, 1 de Pernambuco, 1 do Rio de Janeiro e 12 de São Paulo. A dívida com eles chega a R$ 94.327.506,51, sendo R$ 77.448.026,23 somente com os capixabas.
- Credores microempresa e empresas de pequeno porte - O total devido chega a R$ 363.973,37, a um total de 77 credores (68 do Espírito Santo, 1 de Pernambuco e 8 de São Paulo). A dívida com os credores capixabas é de R$ 328.971,53.
Considerando a lista total de credores, os três débitos de maior valor são de credores do Espírito Santo. A dívida com eles supera os R$ 56 milhões. Confira quais são os maiores credores, com valores superiores a R$ 1 milhão de reais.
- Cooperativa de Crédito Leste Capixaba (Sicoob) - R$ 20.608.969,33
- Viação Joana Darc SA Matriz - R$ 17.914.842,95
- Banestes - R$ 17.581.523,14
- Bandes - R$ 6.709.918,50
- Simone Chieppe Moura - R$ 4.137.472,70
- Bradesco - R$ 2.537.308,91
- Vibra Energia S/A (antiga BR Distribuidora) - R$ 1.844.136,50
- Ipiranga Produtos de Petróleo SA - R$ 1.025.968,61
A maior parte dos credores trabalhistas são do regime CLT, enquanto outros tiveram dívidas originadas em processos trabalhistas. O maior valor devido ultrapassa os R$ 552 mil.
Entre os maiores credores há dívidas com fornecedores, financeiras, por serviços executados e ainda decorrentes de processos judiciais. Destes 67 credores, 35 estão com débitos a vencer, sendo que os demais já estão com parcelas vencidas. A menor dívida é com a Claro SA, no valor de R$ 42,82.
No rol das microempresas e empresas de pequeno porte, são todos fornecedores. A maior dívida entre é com uma empresa de peças e acessórios, no valor de R$ 38.667,22. O menor valor é de R$ 140,00, com uma empresa de freios.
O que diz a empresa
De acordo com o diretor-financeiro da empresa, Rodrigo Torres, entre os fatores que levaram a empresa a entrar com o pedido está a pandemia de Covid-19.
"A gente teve a pandemia, que acabou afetando especialmente o setor de transportes, a gente vê uma queda de passageiros. Por ser um serviço essencial, a gente não pode cortar as linhas, temos um mínimo a continuar atendendo e seguir as diretrizes de cada momento, pois é um serviço essencial", declarou para A Gazeta.
Rodrigo Torres citou ainda o aumento na taxa de juros no país. "Isso levou a um aumento brutal na despesa financeira em uma empresa já machucada pela pandemia e o impacto do diesel, além da integração do sistema municipal, que era apartado do Transcol", completou. Além desses fatores, os advogados da empresa citam o aumento no preço no diesel e a Guerra na Ucrânia.
No comunicado enviado ao mercado, a empresa se compromete a apresentar o plano de recuperação no prazo dentro da lei e, "desta forma ultrapassar a etapa crítica no menor prazo possível", diz. "Sua história de sucesso dá suporte ao trabalho de reestruturação de suas dívidas, e a empresa certamente sairá ainda mais forte de todo o processo de recuperação", finaliza a nota.
Em sua decisão, o juiz Marcos Pereira Sanches determinou que o plano de recuperação judicial seja apresentado em até 60 dias, sob pena de converter o pedido em falência.
"A gente vai seguir as etapas padrão de um plano de recuperação judicial, seguir os 60 dias e fazer a renegociação das dívidas com os credores. A empresa é operacionalmente super saudável, a gente tem uma operação que fecha a conta, o objetivo é fazer caber dentro do nosso fluxo o endividamento", pontuou Rodrigo Torres.
Justificativas da empresa
- Pandemia de Covid-19: o documento destaca que, com as medidas restritivas de movimentação de pessoas, visando a evitar a contaminação pela doença, a demanda pela utilização do ônibus reduziu drasticamente. Alega ainda uma queda de 40% na demanda de usuários pagantes no período e afirma que, até o momento, a quantidade de passageiros não voltou ao patamar de 2019;
- Atraso na integração do Sistema Transcol: a empresa afirma que a integração do sistema municipal de Vitória com o estadual, prevista para 2018, se concretizou apenas em 2021. Na avaliação dos advogados, esses três anos de atraso fizeram os usuários optarem pelos coletivos do sistema metropolitano, pois pagavam apenas uma passagem e conseguiam circular pela Capital e por outros municípios;
- Aumento no preço do combustível: a defesa da empresa evidencia que, entre 2021 e 2022, houve um incremento de mais de 50% no preço do petróleo no mercado internacional. Pontua ainda a descoberta da variante Ômicron, em novembro de 2021, impulsionando a alta de valores até o fim daquele ano;
- Guerra da Ucrânia: outro fator que a empresa destaca é a guerra entre a Rússia e Ucrânia, a partir de fevereiro de 2022. A defesa destaca que países como os Estados Unidos e o Reino Unido anunciaram cortes na importação de óleo e gás fornecidos pelos russos. Isso impulsionou no preço do barril, também puxando o preço do combustível no Brasil, devido à política de paridade de preços da Petrobras;
- Evolução da taxa de juros: por fim, a Grande Vitória salienta que a alta na taxa de juros prejudicaram a tomada de crédito por parte das empresas. Sem poder aumentar o valor das passagens para os usuários, os advogados afirmam um encurralamento diante de dívidas no sistema bancário.
Viação foi comprada em 2019 e unificou empresas
No mercado há mais de 50 anos, o grupo tinha duas empresas até 2019: a Viação Grande Vitória, que atuava no sistema municipal de transporte, operando linhas apenas na Capital; e a Viação Granvitur, que atuava como concessionária do Sistema Transcol.
O contrato como uma das operadoras do Transcol foi firmado com o governo do Estado em 2014. Atualmente, a viação opera dezenas de linhas do Sistema Transcol, com uma frota de 172 ônibus operantes, que chega a 190 veículos contanto os carros-reservas.
Em 2019, o grupo foi adquirido pela Canarinho Investimentos S/A e, após a compra, incorporou a Granvitur, tornando-se nesse momento uma única empresa.
Segundo a companhia, esse movimento empresarial teve como objetivo principal a otimização e aprimoramento da operação, com unificação de estoque, frota, treinamento dos profissionais e outras medidas para aumentarem a eficiência da companhia.
A companhia destaca que, a partir da compra pela Canarinho S/A, foram alocados novos investimentos que contribuíram para a melhoria de setores internos, como a restruturação do quadro gerencial e implementação do departamento de recursos humanos. A nova direção adquiriu novos veículos, visando a modernizar a frota e seguir as diretrizes do contrato de concessão do Transcol.
Hoje, a empresa gera mais de 800 empregos e transporta cerca de 1,5 milhão de passageiros por mês.
Operações serão afetadas?
A empresa nega que o processo afete as operações. No pedido de recuperação, a viação sustentou que o caminho "mais eficiente para a superação da crise vivenciada, inclusive oferecendo a segurança jurídica necessária para a busca de soluções de mercado que sejam favoráveis à empresa, sempre visando a preservação das atividades e o pagamento da coletividade dos credores".
A reportagem de A Gazeta também questionou o governo do Estado se a recuperação judicial da Viação Grande Vitória pode afetar os usuários do transporte público e sobre o atraso na integração alegado pela empresa.
Em nota, a Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi) informou que a decisão empresarial não afeta as operações do Sistema Transcol, que está em regularidade com suas obrigações e mantém a prestação do serviço à população.
O Sindicato das Empresas de Transporte Metropolitano da Grande Vitória (GVBus), por sua vez, informou que a operação do Sistema Transcol não deve ser afetada, pois o deferimento da recuperação judicial não suspende as obrigações previstas em contratos de concessão de serviço público.