Na casa em que Luciana Pacheco, 43 anos, vive com os cinco filhos na Ocupação Vila Esperança, em Jabaeté, Vila Velha, o hábito de usar a lenha para cozinhar vem da família e de quando ela morava na roça, em Cariacica. “Faço feijão, arroz, feijoada, o sabor fica melhor cozinhando na lenha”, conta. Ela utilizava o gás no preparo dos alimentos no dia a dia, o que ficou inviável com o aumento do preço do botijão.
Ex-beneficiária do Bolsa Família, programa extinto em novembro de 2021, Luciana comenta que no final do mês a renda ficava “metade no mercado e a outra metade no gás”. O fogão de barro, construído por ela e pelos filhos, do lado de fora do barraco de dois cômodos se tornou a única opção da família.
Para acender o fogo, são utilizados materiais como plástico e gravetos, além de papelão, recolhido no mercado na compra mensal, e da lenha seca, aproveitada de quando uma árvore cai ou é comida pelos cupins perto da casa.
O preço do gás é um dos fatores que explica o aumento de pessoas que passaram a cozinhar com carvão ou lenha no estado. No mês de outubro, o preço do botijão variava de R$ 96 a R$ 110 em Vitória, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O valor médio compromete cerca de 8% da renda de uma família que recebe um salário mínimo, de R$ 1.100, por exemplo.
“O impacto do aumento do preço do gás é maior para as famílias de baixa renda porque o peso que essas despesas têm assume uma proporção maior e pode comprometer uma parcela bem mais significativa [da renda]'', explica o economista Eduardo Araújo. Para ele, essa mudança sinaliza um "extremo retrocesso social".
Com botijão caro, famílias voltam a usar lenha para cozinhar no Espírito Santo
Na opinião do economista, os impactos financeiros em pessoas de baixa renda deveriam ser resolvidos por meio de políticas públicas.
“O mais importante mesmo são as políticas públicas de criação de emprego e renda. É o que todo mundo que tem uma renda mais baixa está buscando nesse momento. Mas isso não depende dessas famílias, já que as políticas públicas são formuladas por outras pessoas”, sugere Araújo.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 176 mil famílias utilizaram lenha ou carvão para cozinhar no Espírito Santo em 2019.
PREJUÍZOS PARA A SAÚDE
De acordo com o professor Ananias Dias Jr, do Departamento de Ciências Florestais e da Madeira da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a queima de materiais de má qualidade e o uso de estruturas inadequadas como fogão são prejudiciais porque geram muita fuligem, poluente, material atmosférico, material particulado e gases tóxicos para a saúde humana e para o ambiente.
Segundo o professor, a exposição prolongada aos resíduos da queima pode desencadear problemas de saúde ao longo do tempo, como infecções respiratórias agudas, doenças pulmonares obstrutivas crônicas e doenças cardiovasculares.
Doutor em Imunologia e professor do Núcleo de Doenças Infecciosas da UFES, Daniel Gomes reforça que o uso de fogão a lenha pode levar a inalação crônica de fumaça e poluentes que afetam de forma prejudicial o sistema respiratório, deixando as pessoas mais suscetíveis a doenças respiratórias.