No distrito de Alto Santa Maria, em Santa Maria de Jetibá, na Região Serrana, a língua predominante não é o português, o que provoca curiosidade entre os visitantes. Nos momentos de conversa o idioma falado é o pomerano, e faz parte da história preservada de um povo que chegou há 160 anos no Espírito Santo, e aqui mantém sua cultura, religiosidade e identidade.
A reportagem do Gazeta Online viajou até a comunidade de Alto Santa Maria neste mês comemorativo. Para nossa surpresa, fomos recebidos por um grupo de idosos que se preparava para o forró pomerano. Nas conversas, observamos a língua falada. Os comprimentos não são os tradicionais “bom dia” e “boa tarde”, em português, e sim, “gun mogen!” e “gun awend!”, em pomerano.
- Além do português, boa parte da população de Santa Maria de Jetibá fala o pomerano, língua materna dos primeiros pomeranos que vieram para o Espírito Santo. No Estado, o dialeto foi proibido em três ocasiões: durante a Segunda Guerra Mundial, na ditadura militar e no início dos anos 90.
- O casamento pomerano ainda acontece em diversos municípios do Espírito Santo. A preparação do forno para as comidas e área para a festa é feito coletivamente por amigos vizinhos e parentes. O convite é feito de forma oral em dialeto pomerano. A festa dura três dias e é realizada na casa dos pais da noiva. É feito o ritual do “quebra-louça” com muito barulho e algazarra. Antigamente, a noiva se vestia de preto.
- A maioria é protestante, membros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Suas igrejas foram construídas no alto.
- A comunidade faz o preparo do conhecido brote, pão que tem entre os principais ingredientes o aipim, o inhame, a batata doce e o fubá, uma adaptação do que já era feito na Europa.
HISTÓRIA
A história dos pomeranos em terras capixabas tem início em 28 de junho de 1859, data em que desembarcou no Porto de Vitória, um grupo formado de 27 famílias, um total de 117 pessoas vindas de Hamburgo, na Alemanha. Após cerca de dois meses de viagem, eles chegaram no navio Eleonor, no Rio de Janeiro, onde estava sediada a central de colonização, e de lá seguiram no barco São Matheus para o Espírito Santo.
“Somos um povo que não tem pátria mãe, somos a maior colônia pomerana do mundo, e preservamos nossa história há 160 anos no Brasil. Aqui (em Santa Maria) é possível você encontrar uma criança de 2 anos de idade falando pomerano”, disse a professora aposentada Marineuza Plaster, de 56 anos.
A historiadora Regina Hees explica que a imigração se tornou uma opção para os pomeranos no período da industrialização europeia. “Eles vieram porque a Alemanha estava se industrializando e os antigos senhores de terra estavam dispensando a mão de obra. Depois vieram moradores da cidade, que foram enganados com cartas falsas remetidas a parentes que já estavam no Brasil que falavam que aqui cada qual possuía sua terra e podia colocar sua galinha no fogo aos domingos”, relatou Regina.
A história dos pomeranos foi marcada por sofrimento, a começar pelas viagens em que muitos morriam de desidratação. Em terras capixabas, receberam áreas com mata nativa para produzirem. Entretanto, as terras, sementes e ferramentas não eram doados. Foram pagas com os excedentes dos produtos agrícolas.
Os pomeranos não possuem terra natal. Eles viviam na antiga Pomerânia, na costa sul do Mar Báltico. O território se tornou-se posteriormente parte da Prússia, e mais tarde foi dividido entre a Polônia e a Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial.
“Os pomeranos chegaram aqui e suas primeiras casas eram entre as raízes da figueira branca, que foram cobertas com folhas de coqueiro. Eles transformaram as grandes raízes em casas e começaram suas vidas. Hoje, nossos pomeranos são um exemplo de família, de produção e de cultura no Estado”, destaca Marineuza.
SANTA MARIA
Em Santa Maria de Jetibá se concentra boa parte dos imigrantes pomeranos no Estado. E, por meio de um passado de muito trabalho no campo, o município se tornou o principal produtor de hortifrutigranjeiros do Espírito Santo, e o maior produtor de ovos do Brasil. Do distrito de Alto Santa Maria, as plantações orgânicas abastecem diversas feiras da Grande Vitória.
“Nossa comunidade (Alto Santa Maria) é quase totalmente de produção orgânica, onde nós temos a oferecer mais de 380 produtos agrícolas. Santa Maria de Jetibá com seu jeito peculiar do pomerano abastece 70% do Ceasa com produtos agrícolas”, afirmou Marineuza.
Em seu livro “Uma Comunidade Teuto-Capixaba”, Regina Hees descreve que a incrementação da imigração tornou-se necessária para aumentar o número de trabalhadores nas lavouras após a extinção em 1850 do tráfico de escravos. E que Santa Maria de Jetibá se tornou referência na produção de hortifrutigranjeiros muitos anos depois, pois o próprio governo não dava assistência. Sem estradas, a produção era escoada pelo Rio Santa Maria.
No Estado, além de Santa Maria, os pomeranos residem ainda em Santa Leopoldina, Santa Teresa, Domingos Martins e Vila Pavão, Vila Valério e São Gabriel da Palha. “Teve quem chegou depois e já não tinha mais terras nas montanhas, então foram para a Região Norte porque falavam que as terras do norte eram propensas a agricultura familiar”, disse o pomerano e historiador Jorge Kuster Jacob.
COMUNIDADE SE REÚNE AO SOM DA CONCERTINA PARA DANÇAR
Não é só o dialeto pomerano que foi preservado ao longo desses 160 anos. Em Alto Santa Maria, a paixão pela concertina, instrumento parecido com o acordeão, também ganha destaque. Os pomeranos adoram se encontrar para dançar o forró pomerano e confraternizar, e o Gazeta Online acompanhou dois desses encontros: um forró da terceira idade e uma noite de caldos que reuniu boa parte da vizinhança.
“Os pomeranos gostam muito de dançar e se divertir. Apesar da dificuldade que viveram no início, eles se alegravam com a música e a dança, porque isso ajudava a passar a tristeza, a dificuldade. Por isso temos esse costume até hoje”, disse a aposentada Almerinda Kalk, de 62 anos.
Como de costume, no forró da terceira idade realizado no Centro Comunitário não se fala o português. A animação ao som da antiga concertina é garantida e os papos despreocupados, um descanso para quem passou anos trabalhando duro na roça.
“Os idosos adoram um forró. Aqui não tem dia. É na segunda na terça, na quarta...”, explicou Clara Waiandt, de 51 anos, da equipe multidisciplinar da terceira idade da Prefeitura de Santa Maria de Jetibá.
Após o forró, tem programação na casa da pomerana Marineuza Plaster. Professora aposentada, ela conhece todos em Alto Santa Maria e sua casa, que funciona como pousada, também é local de encontro entre os amigos.
No frio de inverno, a reportagem participou de uma noite com caldo ao som da famosa concertina. Entre os tocadores, estava o pequeno Vinicius Soares Abeldt, de 10 anos, que aprendeu a tocar o instrumento recentemente. “Sei poucas músicas até agora, e quero aprender mais”, disse o garoto.
Na cultura preservada ainda está o tradicional casamento pomerano. “O povo pomerano é bastante unido. Sempre fazemos as coisas em mutirão. Nos casamentos, sempre são convidadas muitas famílias que sempre ajudam nos preparativos”, disse Marineuza.
AGRICULTURA GARANTE SUSTENTO
É da agricultura que a maioria dos pomeranos tiram seu sustento até os dias de hoje. Sua produção de hortaliças, frutas, legumes, temperos, frango e ovos abastecem os principais supermercados e feiras na Grande Vitória. Em Alto Santa Maria, o destaque é para o produtos livres de agrotóxicos.
A família de Elvis Plaster, de 47 anos, é uma das produtoras de orgânicos da comunidade. Com a esposa e os dois filhos, ele planta na propriedade mais de 80 variedades. “Colocar a comida na mesa do capixaba é um orgulho muito grande. E são produtos de qualidade. Aqui é uma sociedade. Trabalhamos todos juntos, pagamos as despesas e o que sobra dividimos por quatro. Desde cedo meus filhos já aprenderam como usar a terra”, disse o produtor.
Para o futuro, os filhos de Elvis não pensam em sair da roça. Com o dinheiro da venda dos orgânicos, o filho mais novo está contruindo sua casa e vai se casar no próximo ano.