O Carnaval de Vitória vai muito além de uma mistura de cores, ritmo e alegria. A grande festa popular que existe há mais de cinco décadas na Capital é garantia de samba no pé e também dinheiro no bolso. Além de movimentar recursos milionários, a indústria do carnaval abre espaço para quem quer lucrar nos bastidores do espetáculo, seja nos barracões das escolas, seja nas atividades terceirizadas ligadas ao comércio, serviços e turismo, ou ainda garantir uma oportunidade de emprego para quem está desempregado.
Em 2019, o evento movimentará algo perto de R$ 13 milhões. Além dos milhões, a festa popular gera cerca de 4 mil empregos diretos nas 19 escolas que desfilam durante os três dias de evento no Sambão do Povo. A informação é do Observatório do Turismo da Prefeitura de Vitória.
De acordo com as agremiações, apenas os desfiles devem custar, juntos, mais de R$ 7 milhões. Parte dos recursos utilizados pelas agremiações é proveniente do repasse das prefeituras. Em Vitória, as quatro escolas que desfilarão na sexta-feira, 22, receberão um total de R$ 504.960, ou seja, R$ 126.240 para cada uma. Já as cinco escolas que se apresentarão no sábado, 23, vão receber cada uma o valor de R$ 297.808, totalizando R$ 1.489.040.
A Prefeitura de Vila Velha informou que investirá R$ 255 mil nas escolas de samba do município, sendo R$ 170 mil para a MUG e R$ 85 mil para a Independente de São Torquato. Em Cariacica, um convênio entre a prefeitura e a Boa Vista garante um repasse de R$ 150 mil. Já a Prefeitura da Serra ainda não definiu quanto vai destinar para as quatro escolas do município.
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O diretor-presidente da Companhia de Desenvolvimento, Inovação e Turismo de Vitória (CDV), Leonardo Krohling, avalia os efeitos positivos dos desfiles que são realizados uma semana antes do carnaval oficial.
As escolas geram emprego e outros setores também aproveitam para garantir dinheiro extra, como é o caso de quem trabalha com venda de marmitex, motoristas de táxis e aplicativos, entre outros. A movimentação de turistas também é grande na cidade, aumentando a agitação em bares, comércios e registrando uma média de ocupação hoteleira em torno de 60%
O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços de Turismo do Espírito Santo (Fecomércio), José Lino Sepulcri, destaca que o evento é de vital importância para o comércio. “Todos ganham: hotéis, bares e pontos turísticos. As lojas registram um aumento nas vendas por conta dos turistas que passam pela cidade”, diz.
EMPREGO
O aderecista da Novo Império, Alef Anjos, 24 anos, faz faculdade de Design de Interiores e trabalha pelo segundo ano no barracão. O jovem, que desfila como passista da escola, estava desempregado e garante que o dinheiro vem em boa hora. “O valor que recebo ajuda a pagar a faculdade. Dá muito orgulho ver as fantasias que fiz na avenida”, comenta.
Quem também estava desempregado era José Belarmino, 36 anos, que atua como soldador nos carros da MUG. “Esta é a primeira vez que trabalho no carnaval. Fiquei desempregado e com dificuldades financeiras, não tinha nem para onde ir. Consegui este trabalho temporário e depois vou correr atrás de um emprego com carteira assinada”, conta.
A costureira e modelista Rosângela Rangel, 60 anos, também fecha seu ateliê de costura por um período só para se dedicar à Novo Império. Com o dinheiro extra que vai receber para confeccionar as fantasias, ela quer concluir a faculdade de Moda. “Trabalho com o carnaval há sete anos. A correria é grande, mas o resultado final nos dá muita satisfação. Faltam palavras para descrever o que sinto quando tudo está pronto e a escola entra na avenida”, resume.
VALE ATÉ TIRAR FÉRIAS PARA AJUDAR A ESCOLA
O amor pela escola de samba fala mais alto e faz com que diversos profissionais deixem de lado suas atividades para colocar a mão na massa e ajudar a agremiação a entrar na avenida. Há aqueles que chegam a tirar férias para trabalhar como voluntários, enquanto outros fecham as portas de seus negócios por alguns meses para se dedicar à indústria do carnaval.
É o que faz Chica Chiclete, 50 anos, que deixa de fazer vestidos de noiva e de festa para confeccionar as fantasias que serão usadas pelos foliões da escola Novo Império.
“Aviso minhas clientes que o ateliê fica fechado por alguns meses para trabalhar exclusivamente na escola que conheci aos dez anos. Trago até pessoas que trabalham comigo para ajudar no barracão. Alguns problemas acontecem no meio do caminho, como a falta de material em alguns momentos, e ainda sofremos com a falta de profissionais qualificados. No entanto, a paixão pela agremiação fala mais alto. Quando a agremiação entra na avenida, choro igual a uma criança. É muita emoção ver o resultado de tanto trabalho. O carnaval tem muitos benefícios: para mim, é uma forma de ganhar um dinheiro extra, enquanto que para outras pessoas que estão fora do mercado de trabalho é uma boa época de equilibrar as contas”, afirma Chica Chiclete.
Já a servidora pública Gina Valéria Coelho, 51 anos, tira 20 dias de férias todos os anos para trabalhar como voluntária no barracão pesado da Unidos de Jucutuquara. Ela, que sempre desfilou pela escola, pisou em um barracão há dez anos e se apaixonou.
Abro mão do descanso e fico até as duas da manhã ajudando a confeccionar os carros alegóricos. Sinto muito orgulho de pertencer à história que é contada na avenida
O gerente de Capacitação Profissional, Emprego e Renda da Agência do Trabalhador de Cariacica, Joe Lima, é diretor financeiro da Boa Vista e também abre mão das férias para ajudar a escola. “O carnaval se profissionalizou bastante, gera emprego e renda para famílias, mas ainda existem pessoas que amam a escola e atuam como voluntários, assim como eu”, comenta.