Era início de janeiro e no barracão da escola de samba Boa Vista, em Jardim América, Cariacica, estavam sendo preparadas as bases dos carros alegóricos. Assim como em várias agremiações da Grande Vitória, nessa época, mais de 80% das alegorias ainda estão sem ornamentação. Mas, a uma semana para o desfile no Sambão do Povo, o cenário muda por completo, fruto de um verdadeiro milagre do samba.
O jornal A GAZETA acompanhou essa transformação nas escolas do Grupo Especial do Carnaval de Vitória. Dos dias de muito trabalho de escultores, aderecistas, costureiras e carpinteiros no calor de quase 40 graus, até a correria para que a chuva do final da tarde não estrague o que foi feito com tanto zelo e dedicação. Afinal, a maioria das escolas de samba não possuem barracão para a confecção de suas alegorias e muitas utilizam espaços ao ar livre, sem cobertura.
A Boa Vista começou com atraso a produção do carnaval após o incêndio que atingiu o barracão pesado, onde são produzidos os carros alegóricos, localizado debaixo da Segunda Ponte, em Cariacica, em setembro do ano passado. Foram necessários 25 dias para que os trabalhadores vindos Parintins, no Amazonas, (que atuam no Festival de Parintins por lá) finalizassem a montagem das ferragens. Enquanto isso, nos ateliês, costureiras e aderecistas seguiam na confecção das fantasias dos cerca de 1.800 componentes.
“Os nossos componentes estão trabalhando a todo vapor. Virando a noite para colocar a escola na avenida. Já temos dois carros prontos. Agora é terminar os outros e fazer bonito na avenida”, disse o presidente da escola, Emerson Xumbrega, em entrevista a duas semanas do desfile.
A falta de um barracão foi o desafio enfrentado pela escola de samba de Novo Império, de Caratoíra, Vitória, que para esse carnaval preparou carros alegóricos de grande porte. Só o abre-alas vai ter oito metros e meio de altura e 25 metros de comprimento.
“Os dias estão sendo de bastante trabalho e a aposta da Novo Império são carros grandiosos, cheios de componentes. Está uma correria danada, pois temos que produzir as alegorias ao ar livre. Nossa preocupação em um dia que choveu foi com as peças que poderiam se deteriorar”, disse o carnavalesco Petterson Alves.
Na produção do carnaval, diversas escolas apostaram no uso de esculturas feitas de fibra de vidro e isopor. Em poucas semanas, blocos grandes dos materiais se transformaram em gatos e deuses no barracão da Unidos da Piedade, no Centro de Vitória, outra escola que teve dificuldades por causa do mau tempo. “A pintura de algumas peças teve que ser refeita após a chuva porque estragaram”, lamenta o carnavalesco da escola Paulo Balbino.
Com pouco dinheiro em caixa para realizar o carnaval 2019, diversas escolas de samba investiram no reaproveitamento de materiais. A Unidos da Piedade, que por exemplo, substitui parte da madeira pela utilização de plástico reciclados de bobinas doadas pelo Porto de Vitória.
Na Grande Vitória, diversas escolas realizam a maior parte dos trabalhos a partir de dezembro do ano anterior, época em que as agremiações começam a receber as verbas públicas para a realização do carnaval. “Iniciamos o trabalho no dia 11 de dezembro com o pessoal de Parintins. Primeiro começamos com ferro, depois vem as madeiras e, então, com as esculturas. Esse ano aproveitamos pouca ferragem porque temos um projeto mais audacioso para disputar o carnaval”, relata o presidente da escola, Valdeir Lopes.
O atraso no repasse do dinheiro vindo das prefeituras e do governo do Estado mexe com a programação e planejamento das escolas. “Carecemos da verba. O trabalho poderia ser programado e ser feito por etapas, mas tem verba que nem saiu ainda. Se você compra um material no mês de agosto e setembro ele tem um preço. Se deixar para dezembro, triplicou. Outro problema é a falta desse material aqui no Estado”, reclama Robertinho, presidente da Mocidade Unida da Glória (MUG).
ESTRUTURA
A falta de estrutura é um desafio que acompanha a maioria das escolas de samba da Grande Vitória. Poucas possuem quadra própria e barracões para a confecção das alegorias, o que, segundo os presidentes das agremiações, impede o avanço da profissionalização do Carnaval de Vitória.
Uma promessa de 2016 da antiga diretoria da Liga Espírito Santense das Escolas Samba (Lieses) era a criação da Cidade do Samba – estrutura próximo ao Sambão com barracões de todas as escolas –, mas o projeto não saiu do papel. Caberia ao governo do Estado ceder o terreno próximo ao Sambão para a prefeitura, o que não ocorreu, segundo o próprio município. Já o governo do Estado informou que o pedido ainda está em fase de análise. Enquanto isso, as escolas possuem dificuldade de levar os carros até a lugar das apresentações.
“Vocês acompanham todo ano o nosso sofrimento para percorrer 14 quilômetros com cinco alegorias pesadas com muito transtornos no trânsito e com a fiação nos postes. Todo ano temos acidentes. Carecemos de um espaço próximo ao Sambão do Povo ”, reclama Robertinho, presidente da MUG.