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Desastre ambiental

"O Rio Doce não está morto, mas contaminação é crônica", diz pesquisador

Estudo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) catalogou 123 espécies novas nas águas do rio, todas sob efeito crônico de metais pesados

Publicado em 02 de Dezembro de 2019 às 18:19

Raquel Lopes

Publicado em 

02 dez 2019 às 18:19
Estuário do Rio Doce: a pesquisa é resultado do monitoramento da vida no local onde o rio se encontra com o mar, em Regência, Linhares  Crédito: Ângelo Bernardino
Uma pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) catalogou 123 espécies novas de bentos no Rio Doce - animais invertebrados subaquáticos com no máximo cinco milímetros. O estudo mostra que essa comunidade de micro-organismos está sob efeito crônico de metais pesados. 
“A pesquisa mostra que o Rio Doce não está morto, mas sofre de contaminação crônica devido  aos metais pesados resultantes da lama de rejeitos da barragem da mineradora da Samarco, em Mariana, que rompeu em novembro de 2015 e avançou sobre o Rio Doce”, afirma Ângelo Bernardino, pesquisador e professor do Departamento de Oceanografia da Ufes.
A  pesquisa "Solos e Bentos do Rio Doce"  é resultado do monitoramento da vida no estuário do Rio Doce - que é o local onde o rio se encontra com o mar – na região de Regência, no município de Linhares.  Ela visa estudar os impactos da lama de rejeitos neste ambiente. 

TÉCNICA 

Segundo Ângelo, a descoberta foi possível após a aplicação da técnica denominada “DNA ambiental”. Ela permite a identificação de um enorme número de espécies através do sequenciamento de DNA presente nos sedimentos analisados.
Ele acrescentou que as espécies novas foram mapeadas após essa nova técnica, aplicada pela primeira vez no Espírito Santo. No entanto, o professor explica que não é possível saber se esses bentos apareceram após o desastre. Isso porque não houve nenhuma pesquisa antes da lama de rejeitos que fizesse o mapeamento com precisão como o DNA Ambiental.
“Muitos desses animais não são visíveis a olho nu e são difíceis de serem estudados. Com a técnica tradicional,  conseguimos mapear apenas 20 dessas espécies. Eles são importantes de serem estudados porque são responsáveis por processar matéria orgânica e fazem parte da cadeia alimentar, servindo de alimento para diversas espécies de peixe”, esclarece.

CONTAMINAÇÃO 

O professor explica que não é possível afirmar se esses animais estão contaminados por metais pesados devido ao tamanho, mas foi perceptível que essa contaminação tem um efeito nocivo nessas comunidades e interfere no modo como os organismos estão distribuídos no estuário, que possui metais pesados acima do permitido, como ferro, manganês, alumínio, cobre, arsênio e cobre.
“Vemos claramente que, nos locais onde há maior concentração de metais no fundo,  há comunidades distintas de outras áreas com menor concentração, e isso evidencia o efeito desses rejeitos na ecologia e saúde daquele ecossistema.  Isso é um problema porque não é uma condição natural”, observa.
A pesquisa teve início em 2015, antes da lama de rejeitos chegar ao Rio Doce, e termina somente em 2020. As coletas de amostras são semestrais, o resultado divulgado são dos sedimentos colhidos em 2017.

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