Os efeitos da pandemia provocaram uma corrida em todos os continentes em busca de uma vacina contra a Covid-19. As previsões mais otimistas, entretanto, acreditam que isso só deve ocorrer em 2021. Em discurso, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, apontou que a vacina ainda deve demorar de 12 a 18 meses e que há 54 projetos em teste no mundo.
Uma das candidatas teve resultado positivo em testes com animais nos Estados Unidos. Apelidado de PittCovVacc, o fármaco, aplicado em camundongo, foi capaz de estimular a produção de anticorpos para neutralização do novo coronavírus dentro de duas semanas depois da aplicação. Outra vacina está sendo desenvolvida por um time de cientistas de Israel, que pretendem começar os testes em animais em junho.
Segundo a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mayra Moura, o desenvolvimento de uma vacina é um processo longo e demorado que precisa passar por diferentes fases de estudos com animais e seres humanos para garantir que é segura e eficaz. O tempo de produção não costuma sair antes de 5 a 10 anos, mas no caso do novo coronavírus esse tempo é reduzido devido à grande necessidade.
Ela acrescenta que são três fases para o desenvolvimento de uma vacina. A primeira é a laboratorial, em que são avaliadas dezenas e até centenas de moléculas para se definir a melhor composição. Depois tem a parte pré-clínica, em que são realizados testes em animais. Já na fase clínica, a vacina começa a ser testada em humanos e é dividida em três etapas para avaliar eficácia, tamanho da dose e segurança.
“Numa situação pandêmica essas etapas não podem ser puladas porque pode colocar em risco a população, mas são realizadas em paralelo. Alguns países estão tentando desenvolvê-la. Há duas em fase clínica, uma na China e outra nos Estados Unidos. No desenvolvimento de medicamentos e vacinas, a chance de dar errado é muito grande, por isso é um processo muito caro. Para ter uma vacina rápida também é preciso ter muitas pessoas testando coisas diferentes ao mesmo tempo porque se uma der errado, outra pode dar certo”, esclarece.
CONHECIMENTO
Crispim Cerutti Junior, infectologista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), avalia que o conhecimento sobre o novo coronavírus está se acumulando rapidamente devido a tudo que já foi acumulado de outros vírus do mesmo grupo, como o SARS-CoV, identificado em 2002, e o Mers-CoV, identificado em 2012.
“A gente tem um conhecimento molecular do vírus bastante sólido, o que falta é partir para o modelo experimental. Existem diversos grupos trabalhando com a tentativa de tratamento, que são importantes também e ajudam as pessoas que estão doentes e precisando de assistência, mas para deter o processo de disseminação da pandemia a vacina é fundamental”, afirma.
O infectologista acrescenta que esse é um vírus novo e por isso não há vacina contra ele. Já durante a epidemia de H1N1, por exemplo, em que já existia vacina contra o vírus Influenza, o que ocorreu foi a sua adaptação.
“A vacina de H1N1 faz parte de uma tecnologia sobre um vírus conhecido, então já se produz de forma sistemática”, pontua.