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Luciney Araújo/TV Gazeta
Somos Capixabas

Morador de Afonso Cláudio faz das belezas de sua terra o sustento da família

Itamar Tesch abriu as portas de seu sítio para o turismo e não desanima diante da pandemia do novo coronavírus: “A gente está aberto para se adaptar"

Luanna Esteves

lesteves@redegazeta.com.br

Publicado em 24 de Maio de 2020 às 17:59

Publicado em

24 mai 2020 às 17:59
Pedra dos Três Pontões, em Afonso Cláudio, Região Serrana do Estado
Pedra dos Três Pontões, em Afonso Cláudio, Região Serrana do Estado Crédito: Luciney Araújo/TV Gazeta
Um corredor de flores vermelhas e amarelas de bico- de-papagaio marcou a entrada da reportagem no sítio de Itamar Arno Tesch, 44 anos. Estacionamos ao lado do curral, descemos do carro e a beleza daquelas flores foi a primeira coisa a chamar a atenção.
“É o chamado da natureza”, retrucou ele, num sorriso tímido que, logo depois se revelou ser mansidão. “Tímido eu era quando tudo isso começou, há 13 anos. Eu tinha medo de gente, mas hoje conversar e conhecer pessoas faz parte do meu trabalho”, contou o descendente de pomerano, pioneiro no turismo em Afonso Cláudio, na Região Centro Serrana do Espírito Santo. Atualmente, ele recebe mais de seis mil pessoas em sua casa todo ano.
Itamar, 44 anos, nasceu e cresceu em Afonso Cláudio, na roça que, desde 1954, é da sua família . É onde vive até hoje com sua esposa, Margareti, e sua filha, Tamara, de 7 anos. Seus pais sempre foram agricultores muito simples, viviam do café e do milho, como muitos na região.
Itamar Arno Tesch e a mulher, Margareti, produzem queijo em sua fazenda em Afonso Cláudio
Itamar Arno Tesch e a mulher, Margareti, produzem queijo em sua fazenda em Afonso Cláudio Crédito: Luciney Araújo/TV Gazeta
Depois de se casar e adquirir uma parte da propriedade, Itamar, que nunca tinha ficado uma semana fora do sítio, pensou em ir embora. “Uma parte da terra estava muito abandonada e não tínhamos dinheiro para investir. Pensei em ir trabalhar fora do país com qualquer coisa pra tentar levantar um dinheiro.”
Mas o pensamento não se concretizou porque, em 2007, ele recebeu uma visita do Sebrae, que deu a ideia: “Comecem o turismo com simplicidade”. Sim, turismo, já que na propriedade de Itamar fica o principal ponto turístico da cidade: a Pedra dos Três Pontões, de onde admiramos uma das mais belas cenas de pôr do sol do Estado.
“O turista me ensinou muita coisa. Antes, eu via o sol se esconder, hoje eu vejo o sol se pôr. Eu aprendi a olhar a natureza de um jeito diferente, a valorizar as pequenas coisas, como o vento batendo no rosto, mesmo que esse vento estivesse aqui minha vida inteira. Não é ver, é viver o momento, é diferente”, compartilha Itamar, que fez o exercício de tirar o olho da terra e levantar a cabeça, percebendo a beleza e o potencial ao seu redor.
“Nossos vizinhos, que também trabalhavam só com a terra, no início nos chamaram de loucos e até ficaram com medo por atrairmos pessoas para cá. Sabe por quê? Muitos acham que é mais fácil lidar com a terra do que lidar com gente.”

OS TRÊS PONTÕES

Da casa de Itamar até o mirante são umas 3 a 4 horas de caminhada, uma trilha de 6 km. A pedra fica a 1.110 metros do nível do mar e é muito procurada para esportes de aventuras e admiradores da natureza.
Itamar já perdeu as contas de quantas vezes subiu até lá. Tem dia que precisa subir três vezes com diferentes grupos. Ele atua como condutor de trilha, já chegou a fazer dezenas de cursos de primeiros socorros e de turismo fornecidos pelo Estado. “Eu agradeço muito todo turista que já passou por aqui. Eles me fizeram ver o que eu tinha.”
O olhar ficou realmente mais apurado: para garantir cliques interessantes dos turistas, Itamar olocar um balanço na beira do morro, tornando a vista bastante “instagramável”. A vista é a mesma de 13 anos atrás, mas a vida da família Tesch não.
Pedra dos Três Pontões, em Afonso Cláudio, Região Serrana do Espirito Santo
Pedra dos Três Pontões, em Afonso Cláudio, Região Serrana do Espirito Santo Crédito: Luciney Araújo/TV Gazeta
“No início, a nossa casinha era muito muito simples. Só tinha uma mesa com quatro cadeiras e um fogão à lenha. Só tínhamos o lugar onde a gente morava e muita vontade de trabalhar. E o povo começou a vir. Eu tremia quando as pessoas chegavam”, lembra sorrindo, orgulhoso da trajetória.
Atualmente, o local acomoda 21 pessoas em pequenos chalés. Aumentou a oferta, mas o serviço é o mesmo: simples e caseiro. “Descobrimos que as pessoas gostam do que é simples. Às vezes, recebemos pessoas com boas condições financeiras que querem trocar a vida na cidade pelo que a gente tem na roça.”

VIDA DE ROÇA

Itamar não deixou de ser agricultor, nem de cuidar das vacas. Ele acorda todo dia por volta das 3h40, tira o leite, leva para o pasto, lava o curral, lava a sala de ordenha, tudo isso antes das 7h.
Além do turismo, outra renda da família é a produção de leite e queijo. Como Margareti tem mãos de fada para a cozinha, toda comida servida no cantinho deles vem da propriedade: galinha caipira, pão, biscoito, manteiga, geleia, broa de fubá com o milho deles, o café vem da terra deles. “Cerca de 80% do que oferecemos vem daqui. A gente compra o mínimo na cidade.”
Comida feita com produtos da fazenda de Itamar Arno Tesch, em Afonso Cláudio
Comida feita com produtos da fazenda de Itamar Arno Tesch, em Afonso Cláudio Crédito: Luciney Araújo/TV Gazeta
Visitar Itamar e Margareti e sentar numa mesa para bater papo com eles é um exercício de resgatar o simples em nós. É uma família que inspira por ter encontrado, com tanta sensibilidade, um propósito que os mantêm firmes e de cabeça erguida, apesar das dificuldades.
Agora com a pandemia do novo coronavírus, o setor turístico vai sofrer consequências, mas nem por isso eles desanimam: “Otimismo é o caminho, a gente está aberto para se adaptar, mas sem perder de vista o que somos.” 

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