A análise da cena do apartamento onde o aposentado Jarbas Guedes Batista, de 61 anos, foi encontrado morto, em Coqueiral de Itaparica, Vila Velha, foi determinante para que a polícia descartasse a versão inicial de queda e prendesse o namorado da vítima, João Paulo da Silva Ribeiro, de 35 anos.
O perito Marcelo Cotta, da Seção de Crimes contra a Pessoa da Polícia Científica do Espírito Santo (PCIES), disse que os primeiros indícios surgiram ainda com o atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que identificou hematomas no corpo. A perícia confirmou incosistências: a residência estava aparentemente organizada, mas havia manchas de sangue na parede do quarto e sob o lençol, apesar de a cama aparentar estar limpa.
“Encontramos manchas de sangue na parede. O lençol estava limpo, mas debaixo havia manchas vermelhas semelhantes a sangue. A vítima estava no pé da cama, com uma lesão acima da cabeça. Em uma queda, as lesões geralmente são encontradas na região frontal”, explicou o perito.
Outros elementos reforçaram a suspeita de adulteração da cena. Na cozinha, foram encontradas roupas de cama e materiais com manchas semelhantes a sangue. No banheiro, um balde com água e pano indicava possível tentativa de limpeza.
Além disso, o corpo apresentava sinais de agressão em diferentes partes, como cabeça, pescoço e mãos, e o tempo de morte foi estimado entre 24 e 48 horas. “O cenário indicava mais uma hipótese de homicídio”, reforçou Marcelo.
Suspeito apresentou versões contraditórias
Diante dos indícios, o namorado passou a ser questionado e apresentou versões contraditórias, sem conseguir explicar a quantidade de sangue no imóvel. Levado à delegacia, ele acabou admitindo que os dois tiveram uma briga na noite anterior. Diante das evidências, ele foi encaminhado ao Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP) para prestar esclarecimentos.
A delegada Gabriela Enne, responsável pela prisão e pelo gabinete do DEHPP, disse que o suspeito confessou ter agredido a vítima por ciúmes, aproveitando-se do fato de que o companheiro havia consumido álcool e drogas. Ele relatou ainda que colocou o aposentado na cama após as agressões, mesmo percebendo seu estado debilitado.
“Ele fala que houve agressão da parte dele, que a vítima estava drogada, que fazia o uso de maconha e também ingeria bebida alcoólica. Então ele se aproveitou, inclusive, dessa fragilidade da vítima para agredi-la em diversos momentos durante a noite”, disse a delegada.
O próprio suspeito relatou que, após perceber que havia agredido Jarbas de forma excessiva, o colocou deitado na cama. Ele disse ainda que, em determinado momento, notou que o aposentado chegou a vomitar devido às agressões.
João Paulo afirmou que que perguntou se a vítima precisava de ajuda. Questionado sobre o motivo de não ter acionado atendimento médico, mesmo percebendo a situação do namorado, ele alegou que a própria vítima teria confirmado estar bem.
“O João não demonstrou arrependimento, demonstrou frieza. Ele possui inclusive dois boletins unificados em seu desfavor pelo crime de lesão corporal em face de dois ex-namorados e também já foi preso pelo crime de ameaça na forma da Lei Maria da Penha”, destacou a delegada.
Com base no conjunto de evidências — inconsistências na versão, sinais de violência, possível alteração da cena e a própria confissão — João Paulo foi autuado em flagrante por homicídio qualificado. A investigação segue para apurar se houve fraude processual.