O caminho da bala perdida que faz vítimas inocentes no ES
O caminho da bala perdidaCriado por Inteligência Artificial com Dall-E
Guerra do tráfico
O caminho da bala perdida que faz vítimas inocentes no ES
Mesmo que alguns casos sejam noticiados, não é possível saber o total de ocorrências porque, segundo a Sesp, não existe essa tipificação na legislação
Júlia Afonso
Repórter
jafonso@redegazeta.com.br
Publicado em 21 de Outubro de 2022 às 16:35
Publicado em
21 out 2022 às 16:35
O caminho da bala perdidaCrédito: Criado por Inteligência Artificial com Dall-E
Imagine estar em casa e, de repente, um tiro furar o telhado e te atingir em cima da cama? Ou, ainda, estar na missa e um projétil 'cair do céu' aos pés do padre? Apesar de intrigantes, ocorrências como essas têm sido registradas na Grande Vitória.
Com a crescente disputa de gangues rivais do tráfico de drogas no Espírito Santo, confrontos armados têm se intensificado e, consequentemente, os casos de balas perdidas. E não estamos falando aqui de tiros que acertam inocentes que estão na cena do crime em si, mas tem sido recorrente a queda de projéteis em locais bem distantes de onde os disparos foram efetuados: acertam pessoas ou atingem imóveis ou veículos, e ninguém sabe onde veio o tiro.
Fomos atrás de informações sobre o assunto com o especialista Rodrigo Menezes, operador da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil do Espírito Santo e instrutor de sobrevivência policial e tiro tático.
Por que um projétil pode cair tão longe do local do disparo original?
Qual é o caminho da bala após o disparo, mesmo em situações de "tiro para cima"?
Qual distância é capaz de percorrer?
Rodrigo Menezes explicou que, dos tiros disparados para cima, aquele com ângulo de 35 a 40 graus é o que pode chegar mais longe.
Em projéteis chamados de "baixa velocidade", como os de pistola, revólver e submetralhadora, o tiro disparado no ângulo de 35 a 40 graus pode percorrer uma distância de até dois quilômetros e meio.
Já aqueles considerados de "alta velocidade", como os de fuzil, a distância é maior: se disparado do ângulo de 35 a 40 graus, um fuzil de calibre 556 pode chegar até três quilômetros e meio, enquanto o do fuzil 7,62 pode percorrer até cinco quilômetros.
Os trajetos citados nos infográficos acima servem apenas para orientar o leitor sobre as distâncias capazes de um projétil disparado para cima e mostrar a complexidade de saber de onde vem o tiro.
E QUANDO O PROJÉTIL COMEÇA A DESCER?
"Quando a gente fala de capacidade de penetração, que é a capacidade de perfurar alguma barreira, a gente está falando de uma grandeza física chamada quantidade de movimento, ou movimento linear. É a massa vezes a velocidade. A depender do disparo, ele chega com pouca capacidade de perfuração porque ele já está abaixo da velocidade", detalhou o agente Menezes.
O especialista disse que, quando um atirador aperta o gatilho, o projétil sai do cano da arma com máxima velocidade, prestes a ferir alguém com gravidade que esteja na mira dele. No entanto, quando o tiro é em ângulo para cima, o projétil sobe rapidamente, impulsionado pela pólvora. Mas, em determinado momento, quando aquela "força" da pólvora acaba, ele já começa a descer perdendo aos poucos a capacidade fatal de perfuração.
"Ele [o projétil] começa a ser freado pela gravidade e resistência do ar. Quando é freado completamente, ele começa a cair, e aí o que vai ter a relação de capacidade de penetração é o peso dele, porque ele não passa de uma certa velocidade. Ele não atinge uma velocidade alta na queda, por isso não tem capacidade de penetração relevante para causar um dano mais grave, uma morte por exemplo", garantiu.
"Se todo mundo estiver no mesmo plano e eu coloco minha arma a 35 graus e atiro, ela vai ser impulsionada e sair do cano com máxima velocidade. Em determinado momento ela é freada, mas continua nessa direção de queda. Quando começa a queda, ela já não está mais impulsionada, a única coisa que a acelera é a força da gravidade. A relação então é da força da gravidade e o peso do projétil"
Rodrigo Menezes - Operador da Core da Polícia Civil e instrutor de Sobrevivência Policial e Tiro Tático
Apesar de, em grande parte dos casos não ter capacidade para matar, o tiro dado para cima, quando cai, pode provocar ferimentos. "É pouquíssimo provável que um tiro angulado (para cima), que já está em queda, cause uma lesão grave e possa gerar óbito, mas pode causar uma lesão, hematoma, machucado, não a nível que cause morte", garantiu.
Menina ferida na cabeça após ser atingida por bala perdida que perfurou o telhado da casa em que moraCrédito: Fabrício Christi
À época, a mãe da criança, uma dona de casa de 35 anos, relatou que ouviu um barulho e olhou para cima, em direção ao telhado da casa. Inicialmente, pensou que seria uma pedra arremessada e que havia quebrado a cobertura da casa, de folhas de amianto, mas, ao olhar para a filha, viu a garota ensanguentada e encontrou a bala no chão, ao lado da criança.
"Estava fazendo o cabelo da minha filha e escutei o barulho de uma pedra caindo. Ela estava gritando, falando que estava queimando e veio o sangue. Quando vimos que era tiro, saí e pedi ajuda aos vizinhos"
X, 35 anos - Dona de casa e mãe da criança ferida
A mulher explicou que só percebeu que se tratava de um tiro quando viu a bala no chão. Desesperada, ela procurou por outras marcas na menina, mas viu que se tratava de um único disparo.
A bala furou as folhas de Eternit do telhado da casa e feriu a criançaCrédito: Fabrício Christi
A Polícia Civil informou que "o caso foi registrado como lesão corporal e não houve representação criminal dentro do prazo prescricional de 6 meses. O projétil apreendido foi encaminhado para setor do Departamento de Criminalística - Balística".
À época, a coordenação de comunicação da igreja ressaltou que era "uma situação triste, mas que está se tornando comum e nossa paróquia atende regiões em volta, como o Bairro da Penha e o Morro do Macaco".
A Polícia Civil informou que foi instaurado um Inquérito Policial (IP) no 2º Distrito Policial para apuração do fato. "Já que é uma investigação em andamento, outras informações não poderão ser passadas", completou a corporação, em nota.
Como um tiro dado em um morro tem força para perfurar o teto de zinco de uma igreja, na baixada? O agente Menezes explicou:
"Em uma troca de tiros no morro, por exemplo, é como se você tivesse dando esse tiro angulado: ele tem essa projeção porque está acima da baixada. Do morro, ele não precisa dar esse tiro angulado (para cima). No confronto (quando um tiro é dado para frente) ele já vai ter essa angulação"
Rodrigo Menezes - Operador da Core da Polícia Civil e instrutor de Sobrevivência Policial e Tiro Tático
TIROS DE FUZIL
Já que tem maior velocidade, é comum pensar que um tiro de fuzil disparado para o alto tem maior chance de machucar alguém na hora que cai, certo? Errado! O agente Menezes disse o porquê:
"Por incrível que pareça, as pontas do projétil de fuzil 556 são mais leves do que as de pistola. Causa um dano maior se você der um tiro direto, porque sai com velocidade alta. Mas, se for para cima, depois de freado numa queda livre, o dano é até menor, porque a ponta é mais leve e o projétil mais leve".
Ele ressaltou que o de fuzil 556 é o mais leve, por isso, acaba com menor capacidade de penetração, quando dado para o alto. O de calibre 7,62 é diferente, mais pesado, então é mais perigoso ao 'cair do céu'.
PRESENTES NO COTIDIANO, MAS SEM REGISTRO OFICIAL
Mesmo que alguns dos casos sejam noticiados pela imprensa, não é possível saber o total de ocorrências no Espírito Santo: isso porque não existe essa tipificação — de "bala perdida" — na legislação. Segundo explica a própria Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), essas ocorrências são notificadas no sistema como tentativas de homicídio.
"Balas perdidas, vítimas achadas", diz especialista
"Defendo a tese de que a campanha promovida de forma acelerada pela liberação de armas de fogo é uma das maiores incentivadoras desse descalabro que coloca em risco toda a sociedade. O Estado é cada vez mais incapaz de conter o avanço da circulação de armas de todos os tipos e calibres que estão nas mãos de quadrilhas, milícias e organizações criminosas.
A 'indústria do crime' tem encontrado berço esplêndido nos discursos e nas práticas de quem deveria, ao certo, conter o avanço da circulação de armas e gerar as iniciativas para a segurança pública, mas ao contrário disso, tem criado as condições ideais para reforçar o poder bélico dessas organizações criminosas. E para comprovarmos isso, basta analisarmos o grande crescimento de armamento disponível no mercado paralelo após as insistentes investidas do governo federal para a liberação e facilitação de aquisição e porte de armas de fogo.
É uma matemática propícia para o descalabro: mais armas, menos controle menos capacidade operacional significa aumento da criminalidade e aumento das vítimas consideradas “danos colaterais”, ou seja, vítimas das guerras de quadrilhas, de milícias e do embate entre bandidos e órgãos de segurança pública.
Defendo a tese de que para diminuir o problema, devemos atuar na causa e não nos sintomas. E isso requer uma ação conjunta de toda a sociedade, dos governos, dos poderes e das instituições em torno da construção de uma nova cultura, mais saudável e menos armamentista. Mais canetas, mais educação, mais saúde, maior presença do Estado e mais oportunidades para todos pode representar menos crimes, menos armas e menos presídios.
Diminuir a circulação de armas permite focar mais na investigação e na inteligência para combater a entrada e a circulação do armamento, diminuindo o risco da população, principalmente daquela mais exposta à insegurança pública", ponderou Emir Pinho, consultor especializado em Segurança Pública e Privada e Diretor Sul da Associação Brasileira dos Profissionais de Segurança (ABSEG)."
RELEMBRE OUTROS CASOS NA GRANDE VITÓRIA
Bala cai na cama de menina em Aribiri
A empreendedora Viviane Pereira Valle Luiz, de 34 anos, estava em casa com os filhos quando ouviu um tiroteio, em julho deste ano, no bairro Aribiri, em Vila Velha. Ela chegou a escutar um estouro mais forte, mas, como parecia longe, não se atentou. A família foi viajar e, na volta para a residência, teve uma surpresa.
"Eu estava na cama da minha filha de 5 anos e ela disse que tinha algo no teto. Era um buraco, achei até que um rato tinha feito. Quando olhei para a cama, vários estilhaços do PVC. Aqui em casa é telha, um isopor bem grosso e o PVC. Perguntei para minha filha se ela tinha achado algo na cama, e ela disse viu um 'ferrinho'", contou Viviane.
Projétil perfurou telhado e caiu em cima da cama de criançaCrédito: Viviane Pereira Valle
O projétil ter caído em cima da cama da criança deixou todos assustados. "Na hora meu coração gelou. Os tiros não foram tão perto da minha casa, e eu moro num beco. Em frente à minha casa tem um prédio alto, como que essa bala veio parar aqui?", indagou.
Criança é atingida por bala perdida em escola de Jardim da Penha
A menina, então, falou com o professor que achou um projétil caído no chão da quadra. Todos ficaram surpresos com o que aconteceu. A Polícia Civil informa que "as investigações e as diligências sobre o caso estão sendo realizadas pelo 3º Distrito Policial e não há outras informações que possam ser divulgadas, por enquanto".
Adolescente atingida na Praia da Guarderia
Uma adolescente de 12 anos foi baleada durante uma aula de canoagem na Praia da Guarderia, na Enseada do Suá, em Vitória, em junho deste ano. A menina estava se alongando para entrar no mar quando sentiu uma dor no braço. No momento, ela chegou a pensar que tinha sido atingida por um remo.