Depois de um dia de trabalho, a auxiliar administrativa Franciele Santos, de 30 anos, foi pega de surpresa dentro do ônibus. Ela relatou que o cobrador a abusou, apertando as nádegas dela. Após fazer boletim de ocorrência e acionar a empresa responsável, ela achou que o homem seria afastado, mas, menos de uma semana depois, encontrou com ele novamente, desta vez em outra linha.
O assédio aconteceu no dia 1º de julho deste ano. Franciele contou que, logo depois de recarregar o bilhete único, pegou o ônibus da linha 520 (Terminal de Carapina / Terminal de Vila Velha via Reta da Penha / 3ª Ponte) no bairro Praia da Costa, em Vila Velha.
"Fui pagar a passagem, mas ainda não tinha entrado o crédito no cartão. O cobrador falou que eu podia ficar na parte da frente, até conversou, dizendo que isso costuma acontecer e que às vezes a internet oscila. Umas duas vezes tentei passar novamente o cartão, e ele ainda falou para eu não me preocupar", disse. Em determinado momento, ela sentiu algo passar nas próprias nádegas.
Passageira denuncia cobrador por abuso sexual em ônibus no ES
"Pensei que fosse a cadeira, pelo balanço do ônibus. Segui viagem e senti apertarem minha bunda"
Logo após o abuso, a vítima ficou em "estado de choque". "Olhei seriamente na cara dele. Entrei em negação, sem acreditar. Fiquei nervosa e falei com ele: 'Você tocou em mim!' Ele disse até que queria me pedir desculpa, e comecei a entrar em desespero", afirmou Franciele.
Os ânimos ficaram exaltados dentro do veículo. Uma passageira pagou a passagem da auxiliar, que passou pela roleta. Chegando no Terminal de Carapina, na Serra, ela desceu pedindo para falar com o fiscal da empresa Praia Sol e chamar a polícia.
"Eu falei o que tinha acontecido e que queria chamar a polícia, não queria que o ônibus saísse dali, pois era um flagrante. Ele disse para eu ficar tranquila, pediu meus dados e falou que ia abrir um protocolo para notificar o acontecido. Eu disse que não era assim, que o certo era o ônibus ter ido comigo até a delegacia, mas ele disse que o ônibus já tinha saído", contou.
A auxiliar foi, no mesmo dia, até a Delegacia Regional da Serra, onde registrou a ocorrência. Ainda na unidade policial, ela ligou para a empresa Praia Sol. "Eles disseram que não estavam cientes, mas que iam apurar e me dar um retorno em até 48 horas. Já fez uma semana e não entraram em contato comigo".
Na última segunda-feira (4), ela recorreu novamente à autoridade policial, na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) da Serra. "Fui bem atendida e me deram todo o suporte, mas tive que tirar o dia para resolver isso", comentou.
Já nessa quinta-feira (7), mais um susto: quando pegou o ônibus no Terminal de Jacaraípe, na Serra, ela encontrou o mesmo cobrador, trabalhando em outra linha.
"Embarquei no 501 e dei de cara com o cobrador que me assediou. Fiquei revoltada. Ele chegou a dizer que eu tinha dado mole para ele, porque eu estava perto"
Após o reencontro inesperado, Franciele lembrou que o clima ficou tenso, mais uma vez. "Começamos a discutir, fiquei nervosa e comecei a chorar. Minha raiva toda é a questão do descaso da empresa. Talvez eu vá ter que mudar minha rota para não correr o risco de vê-lo novamente", desabafou.
O QUE DIZ A EMPRESA
Questionado sobre o caso, o Sindicato das Empresas de Transporte Metropolitano da Grande Vitória (GVBus) informou que "a empresa operadora responsável pelo profissional está ciente da denúncia e que, após análise das imagens das câmeras de videomonitoramento e depoimentos de testemunhas, não foi possível comprovar os fatos".
Apesar do posicionamento, o GVBus afirmou que "o cobrador foi afastado da operação nos coletivos até que o caso seja completamente apurado". A reportagem de A Gazeta perguntou quando o cobrador foi afastado, mas ainda não teve resposta. Assim que houver um retorno, este texto será atualizado.
O sindicato ainda completou que "a operadora repudia veementemente e considera inaceitável qualquer forma de desrespeito, seja envolvendo passageiros ou funcionários". "Havendo qualquer ocorrência atípica, os fiscais são orientados a comunicar ao setor de tráfego via relatórios devidamente protocolados. Da mesma forma, motoristas e cobradores devem informar imediatamente ao setor ou, no desembarque de passageiros, aos fiscais, o que foi feito no presente caso".
Procurada, a Polícia Civil informou que o caso segue sob investigação da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) da Serra, "para melhor apuração dos fatos". Até o momento nenhum suspeito foi detido e "detalhes da investigação, como imagens, não serão divulgados, por enquanto".