A Polícia Civil já identificou os quatro atiradores que promoveram uma chacina no bairro Flexal II, em Cariacica, no último sábado (23), resultando na morte de quatro pessoas — três delas da mesma família: um homem, o filho, o genro e um amigo próximo. A informação foi confirmada pelo delegado Luiz Gustavo Ximenes, chefe do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP).
“A princípio, dois indivíduos fizeram levantamento na parte da manhã, para ver se as vítimas realmente estavam no local, e posteriormente quatro indivíduos portando arma de fogo chegaram ao local e efetuaram os disparos”, revelou o delegado.
Até o momento, duas pessoas foram presas durante as operações policiais: Caio Mota, de 28 anos, é apontado como um dos atiradores e foi autuado em flagrante por quatro homicídios duplamente qualificados e uma tentativa de homicídio duplamente qualificada. Já Daniel Inácio Schnidel Bernardo, de 31 anos, foi autuado por tráfico de drogas. Segundo a Polícia Civil, ele não teria participação direta na chacina.
Como aconteceu o crime
De acordo a polícia, as vítimas trabalhavam em um terreno quando foram surpreendidas por homens armados. “Segundo informações, são pessoas (vítimas do ataque) que não tinham envolvimento com o tráfico de drogas. De certa forma, até resistiam à ação criminosa ali. Não concordavam”, afirmou o tenente-coronel Anderson Prado Correia.
Uma das principais linhas de investigação aponta que o grupo pode ter desagradado traficantes ao impedir o uso do terreno por criminosos. Conforme registro policial, havia uma rivalidade antiga entre a família e integrantes da facção Terceiro Comando Puro (TCP).
Quem são as vítimas
Entre os mortos estão três integrantes da mesma família: Hélio da Silva Souza, de 58 anos; o filho dele, Gean de Castro Souza, de 39; e o genro, Ruan Carlos da Silva Ribeiro. A quarta vítima foi Carlos Daniel Rocha dos Santos, amigo deles.
Um quinto homem, de 41 anos e irmão de Gean, também foi baleado no peito. Ele conseguiu fugir pela mata no momento dos disparos, deixando um rastro de sangue. Socorrido com vida, foi levado a um hospital, onde passou por cirurgia.
As cinco vítimas estavam no terreno realizando limpeza e corte de madeira quando foram surpreendidas pelo grupo armado.
Hélio trabalhava com a criação de gado e cavalos. Gean, conhecido como “Gean Leiteiro”, criava vacas desde a infância e ajudava o pai nos cuidados com os animais. Já Ruan era pedreiro e estava no local acompanhado do amigo Carlos Daniel para auxiliar no corte das árvores.
Família "não aceitava reverência a criminosos"
O tenente-coronel Prado também comentou relatos de testemunhas de que traficantes estariam obrigando moradores da região a fazer uma espécie de reverência quando criminosos passassem pelas ruas. Segundo ele, essa prática ainda é apurada pela polícia.
“Essa questão de exigir dos moradores uma reverência é uma novidade que está chegando. Normalmente os traficantes buscam uma boa relação com a comunidade local na tentativa de auxílio, tanto no anonimato como de informações da detenção policial”, afirmou.
Conforme populares, um dos trabalhadores assassinados no sábado não teria baixado a cabeça ao cruzar com um faccionado. Ofendido, o criminoso buscou comparsas e retornou armado para executar o grupo.
O delegado Luiz Gustavo Ximenes destacou que a família era contra a expansão do tráfico de drogas na região.
"A linha de investigação seria uma rixa desde 2021 que a família tem com o tráfico de drogas, para que o tráfico em Flexal II não consiga expandir, em razão de ter muitas crianças no bairro. Em 2021 teve o homicídio de um filho de uma das vítimas de sábado. Quem comandava Flexal II na época era Adair Fernandes, vulgo Dadá, que foi preso em 2024. Atualmente o Gabriel, vulgo Pezão, é que comanda a área. Queremos saber se ele tem envolvimento como mandante do crime."
Filho de uma das vítimas já havia sido morto
Outro ponto investigado é a ligação do caso com um assassinato ocorrido anteriormente na mesma família.
Segundo as informações levantadas, ações de integrantes do tráfico de drogas na região de Flexal II, em Cariacica, já tinham vitimado há cinco anos um outro filho de Hélio da Silva Souza.
De acordo com informações do boletim de ocorrência, familiares contaram à polícia que as desavenças de Hélio com os traficantes se estendem desde 2021, ano em que o filho mais novo dele foi morto pelos traficantes diante da própria família.
Na época, a vítima e seus familiares, moradores antigos da região, impediram traficantes do grupo de iniciarem uma "boca de fumo" na região conhecida como Morro da Boa Vista.
Em represália por terem barrado o ponto de venda de drogas, a facção assassinou o filho mais novo de Hélio, no mesmo ano, na presença de outros parentes. De acordo com o BU, desde esse episódio, toda a família passou a demonstrar uma "aberta repulsa à atividade criminosa na localidade".
O local do crime
O terreno onde o crime aconteceu pertence ao Ministério Internacional Resgatado para Contar (MIRC Brasil), organização que desenvolve projetos sociais e ações comunitárias na região.
Responsável pela iniciativa, o pastor Sidney Pereira de Souza e Silva, conhecido como pastor Sinei, explicou que uma pessoa pediu para cortar a estrutura de uma árvore no local para fazer móveis. Ele gravou um vídeo se posicionando sobre o ocorrido (veja acima).
Policiamento reforçado
A Polícia Militar informou que reforçou o policiamento em Flexal II e segue em busca de outros envolvidos no ataque. Segundo o comandante, um dos suspeitos apontados como liderança do crime está foragido do sistema prisional desde a saída temporária de Natal.
“Nós estamos saturando o local, estamos fazendo policiamento. Já tínhamos policiamento lá, mas agora de forma mais saturada, mais viaturas, uma presença maior ali no local, e vamos continuar nos próximos dias até identificarmos e prendermos os envolvidos”, afirmou.