Empossado nesta segunda-feira (4) como deputado estadual, Marcos Madureira (Patriota) já foi um dos protagonistas da política capixaba nos anos 90. Ao lado do conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCES) Valci Ferreira e do ex-presidente da Assembleia Legislativa José Carlos Gratz, Madureira foi um dos principais personagens de um grupo político influente em todos os Poderes do Estado.
O novo parlamentar entra na cadeira desocupada pelo ex-deputado estadual e atual prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), que era da mesma chapa que ele nas eleições de 2018. "Madura", como era chamado pelos aliados na década de 90, não ocupa cargos públicos desde 2013, quando se aposentou como conselheiro do Tribunal de Contas, após a Justiça anular a nomeação dele, em 2012.
Ele não atendia ao pré-requisito de ter reputação ilibada, já que havia sido exonerado em 1988 do cargo de diretor do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-ES) por ato contra a administração pública. Aos 77 anos, o novo deputado retorna ao poder de maneira discreta.
Ele não discursou nesta segunda e nem atendeu aos pedidos de entrevista feitos por A Gazeta desde o ano passado, logo após a eleição de Pazolini. Nos bastidores da Assembleia, Madureira tem sido visto pelos demais parlamentares como alguém que pouco se manifestou até agora, até no grupo de WhatsApp dos deputados. Postura bem diferente do perfil que tinha no passado, com frases marcantes e atuação incisiva em plenário.
O grupo que ajudou a criar – ele, Valci e Gratz – caiu em desgraça, desgastado politicamente com os escândalos da Era Gratz. Enquanto Madureira e Valci foram afastados de seus cargos no Tribunal de Contas, Gratz chegou até a ser preso em operações que investigavam casos de corrupção na época em que o trio comandava a política capixaba.
Mas, afinal, o que representa o retorno de Madureira à política capixaba?
Para o cientista político Fernando Pignaton é inevitável lembrar que o retorno de Madureira traga de volta à memória os escândalos da Era Gratz na Assembleia, com denúncias sobre compra de votos e desvio de dinheiro público. No entanto, ele ressalta que é preciso respeitar os 13.222 eleitores que o elegeram e entender que o momento em que ele volta ao Legislativo é diferente de anos atrás.
"Madureira surgiu de um momento de enfraquecimento dos governadores, que começou com Albuíno Azevedo, passou por Vitor Buaiz e terminou com José Ignácio Ferreira. Era a época de inflação e dificuldade para se governar. Ele e Valci comandaram um grupo que se tornou hegemônico na Assembleia, que depois contou com Gratz também se destacando. Com a governabilidade ameaçada, eles foram se articulando e tendo cada vez mais influência", lembrou.
Agora, o momento é outro. Esse grupo deles já não tem influência quase nenhuma. Há outro grupo hegemônico na Assembleia aliada ao Republicanos e ao presidente Erick Musso. É muito difícil que ele tenha a mesma influência do passado, mas é preciso aguardar para ver", complementou Pignaton.
O ex-deputado estadual Cláudio Vereza (PT) conviveu com Madureira na Assembleia entre 1995 e 2000, quando ele foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas. Ele lembra que foi um período difícil, em que o grupo de Valci, Gratz e Madureira tinha uma base formada por 28 dos 30 deputados, o que os tornava influentes não só no Legislativo, mas em outros Poderes estaduais.
"Nesse período, eu e Max Filho (na época no PMN, hoje no PSDB) ficávamos totalmente isolados na Assembleia. Depois, na Legislatura seguinte, eu e Lelo Coimbra (MDB) tivemos muita dificuldade. Era um grupo muito poderoso. Mesmo quando eles começaram a ser penalizados, quando ainda estavam no poder, eles criaram dificuldades para adversários, pressionaram até onde puderam", lembrou o ex-deputado.
"Foi um período difícil. A transição para um novo modelo, mais democrático e ético na política capixaba também foi difícil. Não é por acaso que todos lembram da Era Gratz como um momento ruim do Estado ", destacou Vereza.
"Hoje a conjuntura é outra, totalmente diferente. Além disso, Madureira passou por penalizações, foi afastado do Tribunal de Contas, ainda há processos tramitando contra ele. Isso também deve ter mudado o jeito de ele atuar, não dá para comparar a forma como ele atuava naquela época com esse retorno à Assembleia"
O ex-prefeito de Vila Velha Max Filho também recorda as divergências entre ele, Madureira e seu pai, o ex-governador Max Mauro. Max Filho entrou na Assembleia no ano em que Madureira presidia a Casa. Ele comandou uma CPI que investigava um concurso público feito pelo então presidente em que havia, segundo Max, diversas denúncias de fraudes.
"Ele (Madureira) nos pressionou muito durante a CPI, chegou a me chamar para brigar do lado de fora na Assembleia e cuspiu na minha direção. Não conseguimos avançar, por pressão dele. Depois, eu como prefeito de Vila Velha e ele como presidente do Tribunal de Contas, senti que ele ainda me perseguia", contou o ex-prefeito.
"Minhas oito prestações de contas, dos oito anos que governei a cidade, tiveram a recomendação para serem rejeitadas durante esse período. Ainda mais porque foi meu pai que entrou com uma representação, acolhida pelo Ministério Público Federal (MPF), que acabou o afastando do Tribunal. Os tempos são outros. Espero que ele também tenha mudado", afirmou Max Filho.
Cachoeirense e conterrâneo de Madureira, Theodorico Ferraço (DEM), é menos crítico ao deputado. Ele lembra da influência política que o pai de Madureira tinha no Sul do Estado e como o deputado atendia às necessidades de prefeitos da região.
"O João Madureira ou Doutor Madureira, como era mais conhecido, era um ambientalista que lutou muito pela bacia do Itapemirim e a preservação do rio. O Marcos Madureira teve uma atuação importante como diretor do DER e depois como deputado, chegando à presidência da Assembleia. Será mais um parlamentar que poderá atender os interesses de Cachoeiro de Itapemirim na Casa, como sempre fez", defende Theodorico.
A ERA GRATZ, SEGUNDO GRATZ
No final de outubro de 2020, Gratz falou à coluna Vitor Vogas em meio às eleições municipais. Na ocasião, Madureira era apontado por adversários, principalmente o então candidato Fabrício Gandini (Cidadania), como elo entre Pazolini e a "Era Gratz". Devido à suplência na coligação.
"Ele (Gandini) é tão despreparado que fala de 'Era Gratz', e eu tenho dois deputados da minha era que estão lá (na Assembleia), que se chamam Enivaldo dos Anjos e José Esmeraldo. E quem fez a emenda constitucional para a minha eleição à presidência foi Enivaldo, então ele foi o meu maior aliado. Em grande parte do período em que fui presidente, Madureira já não era deputado. Ele já estava no Tribunal de Contas do Estado", afirmou o ex-presidente da Assembleia, no final de outubro. Enivaldo, eleito prefeito de Barra de São Francisco, já não está na Casa. Deu lugar a Luiz Durão (PDT).
"O Madureira sempre foi meu aliado, com os demais deputados. O que mostrei para esse Gandini é que a Era Gratz só fez tudo. Não existe uma lei aprovada depois que saí da Assembleia que fosse importante para o Espírito Santo. Todas foram na Era Gratz. Além disso, caso Pazolini se eleja, acho que Madureira não vai querer assumir o mandato por dois anos na Assembleia. Ele não tem mais nenhum interesse político", complementou Gratz, na época. Madureira teve interesse, sim.
MADUREIRA EM 2021
Apesar de ter assumido a vaga de Pazolini, que hoje é uma das figuras centrais do Republicanos no tabuleiro político, ainda não há uma associação clara entre Madureira e o partido. Gandini dizia que Pazolini estava "trazendo de volta a Era Gratz". O novo prefeito de Vitória sempre negou qualquer relação com o ex-deputado. Os dois foram candidatos em 2018 pelo mesmo partido. A pecha de relação com Gratz não "pegou". Gandini, por sua vez, nem chegou ao segundo turno.
Na sessão de posse dos suplentes na Assembleia, na segunda-feira (04), o presidente da Casa, Erick Musso (Republicanos), fez um aceno elogioso ao político veterano ao dizer que Madureira "tem um legado e uma marca positiva deixada para a Casa".
"É muito difícil prever como um deputado vai atuar. Madureira era um parlamentar falante, polêmico, sempre se posicionava nos discursos, era irônico e debochado com adversários. Ele também tinha um perfil paroquial, sempre atendendo os pedidos pequenos de municípios do interior. Ele estava no PRP, mas não dá para dizer que era dono do partido. É preciso esperar, ver como ele vai se posicionar", afirmou o cientista político João Gualberto Vasconcellos.
INFLUÊNCIA NA SERRA
Natural de Cachoeiro de Itapemirim, Madureira foi o 42º candidato a deputado estadual em número de votos, mas tem um trunfo que poucos dos atuais parlamentares têm: recebeu votos em quase todos os municípios do Estado, com exceção de São Domingos do Norte e Dores do Rio Preto. A Serra foi o município, disparado, onde ele teve mais eleitores, com 3.630 votos.
Coincidentemente ou não, é lá onde Madureira teve uma de suas mais recentes articulações políticas. Em 2017, ele se movimentou para eleger o vereador Rodrigo Caldeira (na época na Rede, hoje no PRTB) como presidente da Câmara da Serra, conforme apuração nos bastidores. Caldeira nega essa movimentação.
Além disso, uma gravação captou um áudio do então vereador da Serra Geraldinho Feu Rosa (sem partido) em que ele aponta que Madureira havia pago para que vereadores fizessem campanha para ele nas eleições de 2018. A quantia não apareceu na prestação de contas do agora deputado.
TRAJETÓRIA POLÍTICA
Madureira foi lançado na política pelo pai, João Madureira de Deus, um médico conhecido em Cachoeiro de Itapemirim, um dos fundadores do PSB no Espírito Santo, ativista ambiental e defensor de projetos para a população mais carente da cidade do Sul.
O primeiro cargo público que ocupou foi como diretor de obras do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), durante o governo de Gerson Camata (PMDB). Em 1987, na gestão de Max Mauro (PMDB), foi nomeado para comandar o órgão. Contudo, ele foi demitido por Max poucos meses depois por ter dado mais de 100% de aumento a alguns funcionários sem o aval do governador.
Em 1990, Madureira foi eleito deputado estadual e em 1991 deu início ao mandato. Foi ele quem presidiu a comissão sobre as obras da nova Assembleia, quando se começou a projetar a mudança da sede do Legislativo do Centro de Vitória (próximo ao Palácio Anchieta) para a Enseada do Suá (onde funciona atualmente).
Ele foi um dos principais articuladores da eleição de Valci à presidência e ficou como 1º secretário da Mesa Diretora, sucedendo o aliado no comando do Legislativo no biênio seguinte. Em 1994 foi o deputado estadual mais bem votado, com 22.404 votos. Foi nesse segundo mandato que indicou Gratz para ser seu sucessor na presidência.
Entre as irregularidades a que o trio respondeu judicialmente mais tarde, durante o período em que foram hegemônicos na Assembleia, estão denúncias de compras de votos para as eleições da Mesa Diretora, fraudes na criação do seguro para o prédio da Casa e desvio de recursos públicos via troca de créditos de ICMS com empresas privadas. Apesar de apontado como suspeito de participar destes esquemas pelo Ministério Público Estadual e Federal, Madureira não foi condenado em nenhum desses casos.
Em 2000, ele foi indicado pela Assembleia para assumir uma cadeira como conselheiro do Tribunal de Contas do Espírito Santo. Onde ficou até 2012, após ser afastado pela Justiça. Um ano depois, ele pediu aposentadoria na Corte de Contas.
LINHA DO TEMPO
2021
Engenheiro Civil, Marcos Madureira assume a diretoria de obras do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) no governo de Gerson Camata, sob a indicação do pai, João Madureira, figura influente no Sul do Estado
Madureira é nomeado pelo então governador Max Mauro como diretor-geral do DER no Estado
Max Mauro demite Madureira por ato contra a administração pública, após o então diretor aumentar em mais de 100% o salário de funcionários do órgão sem o aval do governador
Madureira é eleito deputado estadual
Madureira e Valci Ferreira se elegem para a Mesa Diretora da Assembleia, assumindo, respectivamente, a secretaria e a presidência do Legislativo
Madureira é nomeado presidente da comissão para a construção da nova sede da Assembleia Legislativa
Valci Ferreira indica Madureira como seu sucessor na presidência da Assembleia, sendo o mais votado pelos deputados
Madureira é reeleito como deputado mais bem votado das eleições de 1994, com 22.404 votos
Gratz é eleito presidente da Assembleia, com apoio de Madureira
Gratz é reeleito presidente
Indicado pelos deputados estaduais, Madureira é nomeado conselheiro do Tribunal de Contas
Max Mauro entra com ação popular para impedir nomeação de Madureira, por não ter reputação ilibada, após ter sido demitido por ato contra a administração pública em 1987
Justiça anula nomeação de Madureira como conselheiro do Tribunal de Contas. Ele recorre, mas é afastado
Madureira é aposentado pelo Tribunal de Contas
Madureira se candidata a deputado estadual e recebe 11.272 votos, ficando como suplente
Madureira se candidata novamente alcançando 13.222 votos
Lorenzo Pazolini (Republicanos) é eleito prefeito de Vitória, abrindo uma vaga na Assembleia para Madureira, 1º suplente da coligação
Madureira toma posse como deputado estadual após 20 anos fora da Assembleia