O vereador de Vitória Armandinho Fontoura (Podemos) e o proprietário do site "Folha do ES", Jackson Rangel, presos nesta quinta-feira (15) na megaoperação Polícia Federal, estão compartilhando galerias nos presídios com outros detentos de crimes brutais de grande repercussão no Espírito Santo.
Os mandados de prisão foram expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), assinados pelo ministro Alexandre de Moraes, e cumpridos em megaoperação realizada, ao todo, em oito estados e no Distrito Federal contra atos antidemocráticos.
O vereador Armandinho se apresentou à Polícia Federal e, no início da noite, foi levado para o Centro de Detenção Provisória 2 (CDP2) de Viana. No momento, ele é o único ocupante de uma das celas da galeria do presídio destinada a detentos oriundos de operações realizadas pelas polícias e para detidos por não pagamento de pensão alimentícia.
Como no momento há poucos presos nas condições citadas, ele permanece sozinho na cela. Mas essa ala é vizinha de uma outra onde está um detento de um caso de grande repercussão no Espírito Santo, ambas localizadas na mesma galeria.
Alvos de megaoperação no ES estão em alas de autores de crimes brutais
Trata-se de Georgeval Alves Gonçalves, o ex-pastor de Linhares que foi denunciado pelo assassinato dos irmãos Kauã, 6 anos, e Joaquim, 3, em um incêndio criminoso em Linhares, Norte do Espírito Santo. Ele era pai da criança mais nova.
As crianças foram mortas em 21 de abril de 2018 e, pelo crime, Georgeval vai sentar no banco dos réus em julgamento que ainda não foi marcado.
A galeria onde Armandinho e Georgeval estão detidos têm um espaço comum destinado ao banho de sol, onde eles poderão se encontrar, e também com os demais presos da unidade.
O vereador também usa o mesmo uniforme azul da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), destinado a todos os que estão no sistema prisional.
A alimentação a ele oferecida também é a mesma dos demais detentos, assim como o espaço destinado ao banho, que é coletivo.
Juntos com advogados do tráfico
O proprietário do site "Folha do ES", Jackson Rangel, preso em Cachoeiro, está na Penitenciária de Segurança Média 1, em Viana.
Ele partilha a mesma unidade com outros detentos que também possuem formação em Direito e por isso tem acesso a uma cela especial.
Na mesma unidade está Hilário Frasson, o ex-policial civil que foi condenado em 2021 pelo assassinato de sua ex-mulher, a médica Milena Gottardi.
Ele recebeu 30 anos de prisão em um dos julgamentos mais longos da história, por feminicídio. Um crime que contou com a participação do pai, Esperidião Frasson, e de outras quatro pessoas.
Embora não compartilhem o espaço do banho de sol, podem vir a se encontrar - Jackson e Hilário -, nas movimentações de presos na unidade.
Na mesma galeria estão ainda os advogados que foram presos em operações realizadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Espírito Santo (MPES).
Na última operação, 10 advogados foram detidos e tiveram suas prisões mantidas pelo Tribunal de Justiça. Eles foram acusados de atuarem como "pombos-correios" para lideranças do tráfico de drogas da facção Primeiro Comando de Vitória (PCV).
Eles ocupam uma ala especial na unidade, cujas celas permanecem abertas durante o dia, quando podem compartilhar o espaço interno, e à noite ela é fechada. Mas usam o uniforme azul da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) e a alimentação destinada ao sistema prisional.
Motivos das prisões
Armandinho foi eleito em agosto para presidir a Câmara Vitória a partir de janeiro de 2023. Ele teve a prisão requerida pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) no âmbito da petição 10.590, ligada aos inquéritos 4781 e 4874, que investigam abusos em ataques ao STF e financiamento de milícias digitais.
Segundo a decisão, Armandinho fez várias críticas a ministros do STF em redes sociais, incitando, por exemplo, que fosse colocado "limite nesses bandidos togados" e dizendo que "vai ter enfrentamento sim, constitucional, pra não deixar esses vagabundos que sequer foram eleitos governarem o nosso país".
O MPES também sustentou ao STF que é "facilmente verificada ligação" do vereador de Vitória com o portal "Folha do ES", site sediado em Cachoeiro de Itapemirim e que tem como proprietário Jackson Rangel, preso na megaoperação desta quinta-feira.
Já Rangel, segundo as investigações do MPES, seria a ponta do vértice que conecta toda a milícia digital, da qual Armandinho também faria parte.
O periódico do qual ele é sócio (um site sediado em Cachoeiro de Itapemirim), segundo as investigações do MPES, funciona como veículo propulsor das fake news contrárias à existência dos poderes constituídos e seu pleno funcionamento.
O que dizem as defesas
Nota assinada pelo gabinete do vereador Armandinho Fontoura diz que "causa espanto o envolvimento do vereador na operação relacionada à investigação sobre atos antidemocráticos contra o resultado das eleições. O vereador não frequentou nenhuma manifestação antidemocrática, não incentivou a realização delas, tampouco as patrocinou. A própria imprensa nunca registrou nenhum tipo de ato semelhante".
A nota diz ainda que o "vereador não compreende porque suas opiniões, de cunho conservador e liberal, sejam motivo para uma operação que fere a liberdade de expressão - sobretudo enquanto representante da população no parlamento municipal" e que le está à disposição da Justiça para esclarecer todos os fatos. "Sua defesa técnica vai tomar todas as medidas jurídicas cabíveis", finaliza.
Já o advogado Rodrigo Horta, que faz a defesa de Armandinho, disse que busca acesso aos autos, "mas desde já afirma a inocência" do cliente. Ele ressaltou que o vereador se absteve, por conta própria, de realizar qualquer manifestação dirigida ao público, diretamente ou por redes sociais, após a ciência dos termos da decisão do ministro Alexandre Moraes, quando se dirigiu, imediatamente e de forma espontânea, à sede da Polícia Federal.
A reportagem ainda tenta localizar a defesa de Jackson Rangel. Quando isto acontecer, este texto será atualizado.