Enquanto tenta angariar apoio do próprio partido para disputar a Presidência da República, o governador de São Paulo, João Doria, pretende conquistar a fatia do eleitorado que, hoje, não é simpática nem ao ex-presidente Lula (PT) nem ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Já registramos aqui a frase "nem terror nem horror", que o tucano tem dito à exaustão.
Mas há outro ponto. Se não é nem um nem outro, quem é Doria? A reportagem o questionou, na sexta-feira (20), sobre um tema sensível para boa parte da população brasileira e que aflorou diante da iniciativa do governo Bolsonaro de privatizar os Correios: a desestatização.
O tucano, que se identifica como de centro, não titubeia e reforça que defende a economia liberal: "Privatizar, sim". E é essa a lógica que pretende adotar caso suba a rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2023.
"O meu lado é a favor da economia liberal. Privatizar, sim. A privatização é saudável e boa, ela gera empregos, ela não tolhe empregos. Ela gera riquezas, ela não elimina riquezas. Ela promove o bem-estar e ela não vai contra o direito das pessoas ao trabalho e à oportunidade", afirmou, citando, como exemplo, a privatização do sistema de telefonia, em 1998.
As declarações foram dadas em entrevista para A Gazeta, durante visita do tucano ao Espírito Santo.
Doria é próximo do empresariado. Ele mesmo é integrante dessa classe e avalia que a Faria Lima, em referência à Avenida de São Paulo que concentra gigantes do mercado financeiro, não acredita na política econômica do governo federal.
"A Faria Lima não acredita mais na política econômica desse governo, nem mesmo no ministro Paulo Guedes. É triste, mas essa é a realidade. É um governo que prometeu e não cumpriu. Disse que faria privatizações, desestatizações, celebrou mais Brasil e menos Brasília. E o que vimos nesses dois anos e meio foi apenas Brasília e nada de Brasil", alfinetou o tucano.
Resta saber se o governador de São Paulo vai conseguir convencer outros eleitores sobre sua visão quanto às privatizações, para além do nicho confortável da Faria Lima, e se viabilizar como uma candidatura de terceira via.
Pesquisa realizada em março pelo PoderData mostra que 52% dos brasileiros são contra a privatização dos Correios, enquanto 29% dizem ser a favor. Outros 19% não souberam ou não responderam a pergunta.
Antes de qualquer coisa, Doria precisa vencer as prévias do PSDB. O partido vai decidir, em 21 de novembro, o nome do partido que vai aparecer nas urnas na corrida pela Presidência da República em 2022. Além de Doria, estão no páreo o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, o senador Tasso Jereissati e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio. Por isso, o governador de São Paulo participou de evento com tucanos locais em Vitória, neste sábado (21).
O PSDB NO ES
Em tempo: ainda durante entrevista para a reportagem na sexta (20), o governador de São Paulo lançou mão de uma tática muito utilizada por tucanos no passado: o murismo, ou seja, ficou em cima do muro. Momentos antes o governador de São Paulo havia elogiado o colega Renato Casagrande (PSB), com quem se encontrou, mas não quis opinar sobre a disputa pelo Palácio Anchieta.
Ele chamou o socialista de amigo e avaliou que, sem a ação de governadores, incluindo o do Espírito Santo, em meio à pandemia de Covid-19, a situação, do ponto de vista da saúde pública, seria muito pior no país. Já quando questionado se, na avaliação dele, o PSDB deveria lançar candidato próprio ao Palácio Anchieta, disse que respeita as decisões locais e, logo, os rumos do partido no Estado devem caber aos tucanos daqui.
Bem de perto, quem ouvia Doria era o ex-deputado federal César Colnago. O presidente estadual do PSDB, Vandinho Leite, já foi um aguerrido opositor de Casagrande na Assembleia Legislativa, mas já baixou o tom.