Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Image
Felipe Nunes
"As pessoas acreditam em informações falsas que comprovem o que elas pensam"
Pesquisador coordenou um estudo inédito no Brasil que mostra que pessoas que se identificam com um partido ou grupo político tendem a acreditar mais em informações falsas para justificar suas ideologias

Rafael Silva

Repórter de Política

rfreitas@redegazeta.com.br

Publicado em 16 de Agosto de 2020 às 07:00

Publicado em

16 ago 2020 às 07:00
O que é melhor: uma notícia verdadeira ruim ou um conteúdo falso que o satisfaça? Uma pesquisa feita no Brasil mostra que a busca por algo que "comprove" o que as pessoas já acreditam e querem ouvir, ainda que seja mentira, foi o principal fator para o aumento no volume de desinformação em 2018.
Um dos autores da pesquisa, o PhD em Ciência Política e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Felipe Nunes, aponta que pessoas politicamente mais radicais estão mais propensas a compartilhar desinformação.
O estudo ouviu mais de 5 mil pessoas em todo o Brasil e quebra o mito de que pessoas com baixa escolaridade, mais velhas ou com pouca instrução para utilizar redes sociais – os chamados "tios e tias do zap" – são as que mais propagam conteúdo enganoso.
Para o professor, devido à polarização, o período eleitoral, em que os ânimos entre pessoas de direita e esquerda ficam mais exaltados, é terreno fértil para esse tipo de compartilhamento.
Em 2020, nas eleições municipais, a equipe do pesquisador volta a campo para testar "vacinas" – métodos de combate – que possam imunizar as redes alheias e reduzir o alcance do "vírus" da desinformação.

Como foi a pesquisa e quais os resultados que ela trouxe sobre a desinformação no país?

Nosso objetivo era buscar "vacinas", ou seja, ferramentas que pudessem reduzir o volume de desinformação que as pessoas estavam recebendo antes das eleições de 2018. Separamos três grupos. Para o primeiro, mostramos conteúdos falsos em meio a conteúdos verdadeiros e perguntávamos se eles acreditavam ou não naquilo. Para o segundo grupo, testamos se mostrar uma pessoa citada em um conteúdo falso desmentindo aquele ataque surtia algum efeito para o leitor (autodefesa). Para um terceiro grupo, mostramos uma notícia de jornal, com agências de checagem profissionais, apontando que aquele conteúdo era falso. Fizemos uma rodada em maio de 2018, antes da eleição, e outra em outubro, mais próximo da votação. Descobrimos que, em maio, a estratégia de autodefesa não funcionava, as pessoas não acreditavam. Mas a checagem tinha resultado positivo. De um índice de 30% de pessoas que acreditavam em conteúdo falso, ao terem acesso a checagens, esse percentual caía para 12%. Ao replicar o estudo em outubro, vimos que o efeito da checagem desapareceu. Ou seja, durante a eleição, nem autodefesa, ou seja, ouvir o outro lado, nem a checagem são capazes de mudar a opinião de quem acredita em fake news.
"Durante a eleição, nem autodefesa, ou seja, ouvir o outro lado, nem a checagem são capazes de mudar a opinião de quem acredita em fake news"
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ - ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

A polarização da última eleição pode ter sido um fator que potencializou o efeito da desinformação em outubro de 2018?

O ambiente eleitoral deixa o eleitor mais desconfiado, porque ele entende que tentam mudar a opinião dele de maneira forçada, para conquistar o voto. Quando um jornal tenta desmentir um conteúdo falso, ele não acredita na checagem, ao nosso ver, porque acha que a imprensa está tentando omitir algo que não quer que ele saiba.

A polarização da última eleição pode ter sido um fator que potencializou o efeito da desinformação em outubro de 2018?

O ambiente eleitoral deixa o eleitor mais desconfiado, porque ele entende que tentam mudar a opinião dele de maneira forçada, para conquistar o voto. Quando um jornal tenta desmentir um conteúdo falso, ele não acredita na checagem, ao nosso ver, porque acha que a imprensa está tentando omitir algo que não quer que ele saiba.

O seu palpite é que em 2020 o volume de desinformação aumente ou diminua em relação a 2018?

Faremos mais uma rodada de pesquisa este ano, com um financiamento do Facebook. O sentimento partidário está cada vez mais forte, seja para o bem ou para o mal. Acredito, por isso, que a desinformação terá uma importância significativa este ano. As pessoas que já têm identificação com o prefeito vão acabar sendo influenciadas pelo que querem acreditar. É o que chamamos de viés de confirmação, ou seja, em vez de as pessoas usarem a informação para atualizar suas opiniões, elas usam para justificar e confirmar o que já acreditam.

Esse "viés de confirmação", com as pessoas querendo conteúdos que justifiquem o que elas já pensam, é algo cultural do brasileiro ou é um fenômeno novo?

É um fenômeno mundial. Foi estudado primeiro nos Estados Unidos, onde as identidades partidárias são muito mais fortes do que no Brasil. Lá, ser republicano ou democrata faz parte da cultura dos norte-americanos. Por isso, a desinformação "funcionou" tão bem lá em 2016, as campanhas funcionaram ao alimentar e dar suporte às opiniões que as pessoas já tinham. Não é um fenômeno brasileiro, mas tem crescido no Brasil. O brasileiro está criando uma identidade partidarista: o bolsonarismo versus o lulismo. Isso gera um grau de pertencimento a um grupo e cria este terreno fértil para a desinformação.

A pesquisa mostrou algum perfil socioeconômico ou de faixa etária que mostrasse uma propensão maior a compartilhar conteúdo falso?

Esse é um dos achados mais importantes do nosso estudo. Ao contrário do que dizem por aí, não há qualquer correlação entre grau de escolaridade ou instrução e grau de probabilidade de uma pessoa acreditar ou não em desinformação. Pelo contrário, a variável que é mais determinante é essa questão do pertencimento a um grupo político. Se é favorável ao que a pessoa pensa, ela tende a acreditar, se não é, ela não acredita.
"Ao contrário do que dizem por aí, não há qualquer correlação entre grau de escolaridade ou instrução e grau de probabilidade de uma pessoa acreditar ou não em desinformação. Pelo contrário, a variável que é mais determinante é essa questão do pertencimento a um grupo político. Se é favorável ao que a pessoa pensa, ela tende a acreditar, se não é, ela não acredita"
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ - ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Em 2018, a pesquisa testou dois métodos de combate à desinformação (autodefesa e checagem). Em 2020, há novos métodos para evitar a propagação os conteúdos falsos?

Estamos investigando agora três hipóteses. A primeira diz respeito a quando a correção de uma notícia falsa vem de alguém que é um amigo. Achamos que os amigos, as relações mais próximas, podem ser determinantes nesse convencimento. A segunda hipótese é se checagens montadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), como se fosse algo institucional, funcionam com maior efetividade. E o terceiro ponto é testar quando a checagem vem de uma liderança religiosa. Se um padre ou o pastor de sua igreja falar que o conteúdo que está na rede é falso, se as pessoas mudam o comportamento.

Caso essas hipóteses mostrem bons resultados, o que seria importante como medida para o Estado brasileiro adotar para contornar esse problema?

No caso do TSE, é ele montar essa estrutura, principalmente na reta final das eleições, quando as decisões costumam ser tomadas. No caso das lideranças, é incentivar que elas exerçam esse papel de desmentir notícias que estão circulando por aí, criarmos grupos de trabalho juntos a eles e fomentar, por meio de campanhas, conteúdos para que as pessoas possam abordar, de maneira amigável, com seus conhecidos para esclarecer esses conteúdos falsos.

Qual é a origem deste problema? A desinformação gera a polarização ou é a polarização que gera a desinformação?

A origem é que a maneira como as pessoas formam suas opiniões e como elas se informam mudou. O modo tradicional era de formadores de opinião bem estabelecidos, geralmente pessoas de credibilidade e confiança, que transmitiam informação por meio dessa credibilidade. Hoje, como a mídia está perdendo a confiança das pessoas, e o volume de informação tem crescido, as pessoas estão ficando perdidas e o atalho que elas buscam é fortalecer o que elas já sabem. Se eu já acredito em algo e vejo alguém confirmando isso, eu tendo a acreditar no que eu recebo. Se ela vai de encontro ao que eu acredito, eu desconfio.
"As pessoas estão ficando perdidas e o atalho que elas buscam é fortalecer o que elas já sabem. Se eu já acredito em algo e vejo alguém confirmando isso, eu tendo a acreditar no que eu recebo. Se ela vai de encontro ao que eu acredito, eu desconfio"
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ - ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Temos visto autoridades, como parlamentares, prefeitos e até o presidente compartilhando conteúdos falsos. Ter pessoas no comando de Poderes difundindo esses conteúdos potencializa a desinformação?

Eles são os principais produtores de disseminação de informação. Costumo dizer que Bolsonaro é o primeiro presidente digital do Brasil, ele quebrou o cartel da mediação do debate. Antes você precisava da imprensa para mediar o debate, hoje você pode acompanhar o debate diretamente pelas páginas e perfis dos políticos. Quando Bolsonaro introduz isso na política brasileira e quebra essa mediação, ele permite que as pessoas passem a mediar a informação a partir de seus líderes. Então, eles, os líderes, são os responsáveis por disseminação de informação positiva ou negativa. Parte da responsabilidade deste processo todo é na conscientização da política.

Perfil

Felipe Nunes é PhD em ciência política e mestre em estatística pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).

Em 2012, ele recebeu o prêmio de “best methods poster” da American Political Science Association e, em 2013, o “Swar Prize” como melhor paper no doutorado de ciência política da UCLA.

CEO da Quaest Pesquisa e Estratégica, já trabalhou como estrategista em campanhas eleitorais de PT, DEM, PSDB, PV, PSD e Avante.

Em 2020, sua equipe recebeu um financiamento do Facebook para pesquisar métodos para evitar a propagação de desinformação no Brasil.

Felipe Nunes

A Gazeta integra o

Saiba mais
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

© 1996 - 2020 A Gazeta. Todos os direitos reservados