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Rico e pobre

Assistencialismo fala mais alto que denúncias em Presidente Kennedy

Dinheiro do petróleo vira casa própria, cesta básica e ração. Benesses não são acompanhadas por políticas de desenvolvimento e geração de emprego na cidade

Vinícius Valfré

vpereira@redegazeta.com.br

Publicado em 26 de Maio de 2019 às 00:16

Publicado em

26 mai 2019 às 00:16
O esquema de superfaturamento de contratos e pagamento de propinas em Presidente Kennedy apontado pelo Ministério Público Estadual (MPES) por meio da Operação Rubi era praticado em serviços que, pode-se dizer, estão na essência do rico – e ao mesmo tempo miserável – município do Sul do Espírito Santo.
O transporte gratuito e a limpeza pública são serviços amplamente usados por boa parte dos cerca de 11 mil moradores de Kennedy. A dependência não se dá apenas pelo ir e vir, mas também porque significam chances de trabalho.
Sem poder usar a fortuna dos royalties do petróleo para contratar médicos ou professores, por exemplo, a verba vira casas para os pobres, cestas básicas, aluguel social e até ração para a criação dos produtores rurais.
Nada mal se esses fossem "luxos" de um município milionário. O problema é que as benesses não são acompanhadas por nenhuma política madura e estruturada de desenvolvimento ou por geração de emprego e renda. A prefeitura não contrata o futuro com o dinheiro do petróleo. Resume-se às demandas paroquiais.
E essas "peculiaridades" – facilmente confundidas com política assistencialista – mantêm a população submissa aos políticos. Ainda que eles sejam flagrados com mochilas de dinheiro, como aconteceu há três semanas com Amanda Quinta (PSDB), prefeita afastada e presa.
A entrega da mochila com R$ 33 mil foi feita na casa em que ela vive com o companheiro, o ex-secretário de Desenvolvimento José Augusto de Paiva, também preso. O imóvel fica a duas quadras do Fórum, a representação do Poder Judiciário na cidade.
Apoiadora da prefeita presa, Orlanda caminha com a filha Crédito: Carlos Alberto Silva
É uma injustiça o que estão fazendo com ela. É perseguição política por causa dos royalties
Orlanda Costalonga, apoiadora de Amanda Quinta
OBSERVAÇÃO
A reportagem esteve em Presidente Kennedy na semana passada e pôde constatar como Amanda goza de alto prestígio junto ao povo humilde da cidade. Há, inclusive, aqueles que duvidam do que ouviram dizer sobre a batida policial na casa dela.
Romildo Moreira, 61 anos, diz não estar mais seguro sobre manter seu apoio à prefeita. Contudo, é um dos que só acreditariam nas acusações contra ela se tivesse visto.
"Não vi (o dinheiro). Não posso falar. Só posso falar do que eu vejo", disse o pedreiro. Da cidade, ele reclama só da dificuldade para conseguir trabalho. "Na área da saúde melhorou muito. E tem os ônibus, que vêm para cá (para o centro) duas vezes por dia. O que está ruim é de trabalho", comentou.
De acordo com dados da prefeitura, a administração distribui cerca de 1 mil cestas básicas por mês. Parece pouco, mas se considerarmos que cada casa tem quatro ou cinco pessoas, praticamente metade da população é alcançada pelo benefício.
É por causa do varejo, da cesta básica, que Amanda – e mesmo o tio dela, Reginaldo Quinta, hoje adversário – são lembrados e elogiados.
Para o produtor rural Jessé Gomes Mota, 57, pouco importa o que as autoridades descobriram contra Amanda e José Augusto. Pouco importa se os contratos eram superfaturados ou se era propina. Ele quer que ela volte ao cargo o quanto anos.
Morador é coberto pela poeira na Avenida Orestes Baiense, obra que se arrasta no município e simboliza problemas da gestão e do desenvolvimento Crédito: Carlos Alberto Silva
"Estamos na expectativa para que ela volte. O produtor fica prejudicado. A prefeitura ajuda muito o produtor, entrega a ração uma vez por mês. Isso aí (a propina) a gente ouve falar. Acho que ela é inocente. Que Deus ajude que ela saia da cadeia logo", afirmou.
APARÊNCIA
Tão ruim quanto o retrospecto de Kennedy é o aspecto de Kennedy. As instalações são precárias, o mato é alto, o esgoto jorra a 200 metros da prefeitura. O requinte é ausente, as ruas são de terra batida. Não há uma empresa que faça brilhar os olhos dos jovens em busca do mercado de trabalho. Não há nada que faça lembrar que a cidade tem a maior arrecadação per capita do Estado. Foram R$ 40 mil arrecadados por habitante em 2018. Para efeito comparativo, Cariacica tem R$ 2 mil.
Dos cerca de R$ 440 milhões de receita no ano passado, 72% são relativos às receitas de petróleo e às participações especiais.
A saída para melhorar o retrato de Kennedy é repetida como um mantra por economistas e especialistas em gestão: passa por diversificar a economia, atrair negócios, dar condições para que empresas gerem emprego.
Mas, na realidade, a administração de Kennedy ainda é aquela ultrapassada, em que populares batem à porta da prefeitura em busca de atalhos para resolver problemas individuais.
Na última semana, a reportagem flagrou uma senhora que chegou à antessala do prefeito às 8h30. Buscava emprego. Foi atendida às 13h40. A conversa com o chefe do Executivo durou menos de dois minutos, encerrada com uma promessa de pedir alguém para ajudar.
"A maioria das demandas aqui, rapaz, é emprego. Eu sempre falo que eles têm que ter paciência, porque durante esses 60 dias não posso mexer com esse tipo de coisa, vamos esperar para ver se vai vir empresa para aqui. Tenho sonho muito grande de fazer um polo industrial, para ver se atrai empresa para aqui. Para a maioria do povo, a cabine de emprego é a prefeitura", disse o prefeito interino Dorlei Fontão (PSD).
OS CONTRATOS
Alçado a interino após prisão e afastamento da prefeita Amanda Quinta, o vice Dorlei Fontão avalia estar diante de um problema provocado pela Operação Rubi.
As investigações, argumenta ele, não apontaram "problemas na prestação dos contatos". Também não rendeu nenhuma ordem ou orientação para rescindi-los. Caso haja, Dorlei prevê "caos" em Presidente Kennedy. Ele pretende ir em busca de instruções do Ministério Público e do Tribunal de Contas sobre como lidar com os contratos.
"Vai ser um caos financeiro e para a cidade. As empresas de ônibus são situação muito complexa. Imagina o prejuízo que vai ter a população de Kennedy. Tem os ônibus que vão para as faculdades. Se suspende um contrato desse, olha o prejuízo que a cidade e a população estão tomando", disse, em entrevista à reportagem.
A população acostumou-se a não pagar nada para ir e vir – apesar de os horários serem restritos e os coletivos estarem em más condições. Assim como as cestas básicas e casas, o "Transkennedy" também é gratuito.
Roda 1,9 mil quilômetros por dia, levando e buscando em média 1,9 mil pessoas da sede às comunidades mais afastadas. São 13 veículos. A distância equivale ao percurso de ida e volta de Vitória a São Paulo.
Há, ainda, o transporte coletivo. Autoridades se gabam dizendo que o serviço serve até para os alunos que moram a 1 quilômetro da escola. Ao todo, levando estudantes para a creche e para faculdades de outras cidades, são mais 7,7 mil quilômetros.
Em tese, os dois serviços percorrem quase 10 mil quilômetros em um dia. A distância de Vitória até Caracas, na Venezuela, por estradas, é de 6,6 mil quilômetros.
Como há suspeita de fraude e superfaturamento no contrato, vale frisar que os dados são os oficiais, da própria prefeitura.
De 2013 a 2018, Presidente Kennedy pagou R$ 105 milhões para empresas investigadas na Operação Rubi – incluindo, claro, as empresas de transporte público e limpeza urbana.
TUDO ÓTIMO
Orlanda Costalonga, 31, usa o Transkennedy para se deslocar pelo município. Aprova o serviço, aprova a administração e tem certeza que Amanda Quinta está sendo perseguida e injustiçada.
"Ela fez muito pelo povo. Ajudou muito a população. É uma injustiça o que estão fazendo com ela. Ela asfaltou a cidade, foi ótima para o município, ajudou ele a crescer. O que pôde fazer ela fez. Ela é uma pessoa humilde, tiro meu chapéu para ela. O que estão fazendo com ela é perseguição política por causa dos royalties", disse.
O pedreiro Romildo Moreira elogia o serviço de saúde e o transporte público de Kennedy. Mas reclama da dificuldade para conseguir trabalho. Quando falta, as chances na prefeitura sempre são consideradas Crédito: Carlos Alberto Silva
PORÉNS
Em uma cidade com tanto dinheiro e tanto problema de infraestrutura, os aplausos não são unânimes. Há uma leva de insatisfeitos.
A obra de asfaltamento da Avenida Orestes Baiense, uma das principais da cidade, é um retrato de Kennedy. O dinheiro do petróleo que a tiraria do papel virou poeira. Mas quando chove vira lama. Há três anos a via, de cerca de 2 quilômetros, está parada no tempo. O retrato de hoje, fora um tímido avanço, é o mesmo com o qual nos deparamos na visita à cidade feita em 2016.
A obra enfrentou abandono de empresas, brigas judiciais, chuva, queixas sobre indenização a moradores do entorno e, claro, denúncias de fraudes.
Depois de livrar-se da nuvem de poeira que o encobriu enquanto seguia pela avenida de bicicleta, o coveiro Carlos Eduardo Corrêa, 44, desabafou:
"O problema é a falta de desenvolvimento. Olha as ruas sem calçamento. Não era para ser assim, a cidade é uma das mais ricas do Brasil. Essa operação que teve aí já estava escrita. Espero que a partir de agora melhore", opinou.

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