Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Image
Luiz Maklouf Carvalho
"Bolsonaro não iria longe como militar e viu saída na política"
Livro coloca luz no período anterior à trajetória política do presidente Jair Bolsonaro. Um recorte dos 15 anos em que integrou o exército e viveu uma conturbada carreira militar

Samanta Nogueira

Editora de Política

snogueira@redegazeta.com.br

Publicado em 13 de Outubro de 2019 às 07:00

Publicado em

13 out 2019 às 07:00
Uma história desprendida da realidade, mas contada durante 30 anos, poderia morrer como verdade não fossem o grande acervo documental disponível na Justiça Militar e o minucioso trabalho jornalístico. Em “O cadete e o capitão - A vida de Jair Bolsonaro no quartel”, o jornalista Luiz Maklouf Carvalho coloca luz no período anterior à carreira política do agora presidente da República.
O livro é um recorte dos cerca de 15 anos em que Bolsonaro integrou o Exército, mais especificamente sobre os últimos conturbados anos da carreira militar dele. O jornalista baseou-se em farta documentação e no áudio da sessão secreta de cinco horas do Superior Tribunal Militar (STM) em que o capitão foi absolvido da acusação de planejar bombas em quartéis.
O período turbulento começou em 1986, quando Bolsonaro publicou um artigo na revista Veja, no qual reclamava dos baixos salários dos militares. Pegou 15 dias de prisão disciplinar. Um ano depois, a mesma publicação revelou o plano que tinha até croquis com o planejamento das explosões.
Considerado culpado pelo conselho de Justificação do Exército, foi absolvido no STM. Para Maklouf, Bolsonaro foi favorecido pelo corporativismo em sessão secreta na qual provas de autoria da ameaça foram desconsideradas. O desfecho lhe abriria portas à política.

Logo na introdução, o senhor diz que enxergou na documentação a possibilidade de um livro. Pelo volume de conteúdo ou pela importância histórica?

Pelos dois motivos. Pela importância histórica, óbvio, e pelo conteúdo importante. De certa forma, poucas vezes nesse tipo de caso você tem um material tão extenso, tão oficializado, tão interno, tão sério. O fato de ele ser um candidato, senão ninguém nunca teria achado isso, fez a mídia se interessar e correr atrás do que tinha. É um belo material. Somando só as páginas cheias são 700 e poucas. Está tudo lá guardado no STM, com cuidado. O acesso é facilitado, quem pediu obteve. Na minha avaliação, a história que existia até meu livro sair era equivocada. Imagina que coisa achar um áudio de uma sessão secreta de 30 anos atrás. É um achado. Então, acho que justificava uma coisa mais detalhada, contar a história completa para as pessoas poderem entender. Essa papelada toda ajudou a repor a verdade desses fatos envolvendo o presidente da República no passado.

Esperava que tivesse, sobretudo nas redes sociais, uma reação forte ao livro, de ataque dos apoiadores e do próprio presidente?

Nunca me preocupei com isso. A documentação é muito séria, meu livro tem poucos adjetivos. Ele não entrou nesse Fla x Flu. Está muito baseado nos fatos, nos documentos, no áudio, nas entrevistas que eu fiz. Tem um ditado que diz que contra fatos não há argumentos. Eu modestamente acho que foi isso. Também fiz questão de levar para o livro, nos anexos, documentos integrais sobre a questão fundamental, que é a verdade sobre a história dos laudos. Além de ler o que eu escrevi, o leitor pode ler nos anexos todos os lados da história na íntegra, por conta própria. Tem as matérias da revista Veja, os laudos estão todos reproduzidos de maneira integral. Então, o que vai se dizer quando fica provado por “a” mais “b” que não houve um impasse absolvitório do capitão Bolsonaro naquela época? Dois laudos conclusivos afirmam que a autoria dos croquis era dele.

Hoje, podemos ver a todo momento o presidente fazer críticas ao trabalho da imprensa, do jornalismo profissional. Mas isso, como está no livro, não é algo novo. Inclusive, o artigo publicado na Veja foi motivado pelo que ele considerou mentira de notícias da imprensa sobre o desligamento de dezenas de cadetes da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio). Como avalia isso?

O presidente tem dificuldades com o contraditório, com a crítica, com documentações, fatos e argumentações que mostram que banda não toca como ele quer, pelo menos nem sempre. No caso desse episódio ao qual meu livro se dedica, ele nunca sentou com calma para esclarecer, ele nunca quis colocar isso em discussão. Cito o exemplo do jornalista Rubens Valente, da Folha de S. Paulo, que foi um dos únicos que sentou com Bolsonaro com essa documentação processual que usei no livro. Ele só não apanhou por um milagre. Foi inteiramente desrespeitado. Depois de fazer esse trabalho que eu entendi porque ele tem essa dificuldade de falar sobre isso. A história que ele contou durante 30 e poucos anos, ela não resiste à menor análise, ao menor confronto com os fatos, não era verdadeira de ponta a ponta. Se ele tivesse me dado entrevista, por exemplo, como eu pedi tanto, eu teria levado esses quatro laudos, colocado em cima da mesa e teria dito: o senhor pode me explicar onde tem algum impasse de dois a dois que absolveu o senhor? Certamente ele não poderia explicar porque o que tem nesses papéis é 2 a 0, acusando ele. Não tinha in dubio pro reo, não tinha absolvição. Essa turma do STM cometeu um erro, ignorou as provas do processo. Ele gosta da mídia favorável, aquilo que entende como verdade que a mídia venha a publicar são as coisas que ele acha que são boas. Isso é muito ruim do ponto de vista da democracia.

Onde o senhor viu o erro maior em todo esse processo, levando-se em conta os laudos e o julgamento em sigilo no STM?

O maior problema foi o julgamento no STM porque de qualquer maneira os laudos foram feitos. Cronologicamente, existem quatro laudos grafotécnicos e o resultado deles é óbvio, 2 a 0 afirmando que foi o capitão Bolsonaro que desenhou o croqui com ameaça de bomba. O que eu acho mais grave, de a gente ficar atônito, é a vista grossa que a maioria do tribunal fez que em relação a essa prova dos autos, todos os juízes tinham isso em mãos. Foi feita uma vista grossa, que eu só entendo como ter sido fruto de um combinado para absolver o capitão Bolsonaro, em troca de ele tomar as providências de dar um jeito de sair do Exército. Por que eu digo isso? Porque você ouvindo o áudio da sessão secreta fica muito clara a má vontade de tratar dessa prova concreta. Isso precisa de um motivo. Eram ministros ligados à época da ditadura militar, espírito ao qual Bolsonaro pertencia e pertence até hoje. Esse espírito de corpo foi o que prevaleceu. Você viu no livro que o principal réu não foi o capitão Bolsonaro, foi a revista Veja e a sua repórter (Cassia Maria Rodrigues), a imprensa foi muito atacada durante o julgamento. Para mim o grave foi isso, o tribunal não ter visto a prova contundente de culpa em relação à autoria do croqui.

E o fato de o julgamento ter sido sigiloso também influenciou o resultado, não é?

Sim, nós já estávamos começando uma democracia, a ditadura já tinha caído, já era governo Sarney. Mas essa prática da sessão secreta ainda funcionava. O áudio deixa claro que os ministros se aproveitaram desse segredo, dessa sessão fechada para dizer verdadeiros horrores em relação à mídia, à Veja, à jornalista… Fico imaginando se essa papelada não viesse à luz. Tudo isso teria continuado na obscuridade, sem esclarecimento do que foi realmente aconteceu.

O senhor já citou em entrevistas que foi dada uma saída honrosa para Bolsonaro nesse julgamento. Foi um caminho para ele entrar na política?

Ele tinha uma situação militar bastante complicada, na minha avaliação. Tinha o lado positivo muito elogiado. Foi do Exército durante 15 anos, era bom de educação física, ganhava provas, nadava, corria, fazia montanhismo, saltou de paraquedas. Nesse aspecto, tinha uma admiração objetiva de parte dos colegas. Por outro lado, tinha problemas sérios. Por exemplo, a prisão administrativa-disciplinar de 15 dias. Depois se envolveu nessa denúncia de ameaça de bomba, esse plano terrorista que criou essa celeuma toda. Também não era um aluno brilhante nas escolas militares. Era um aluno razoável. Acredito que não iria longe na carreira militar, não chegaria a general. Diante do impasse, viu esse caminho, pensou nessa saída. Meu livro tem até o momento em que um superior dele sugere isso: “melhor você ir para a política”. Observe que ele só pediu para ir para a reserva depois que foi eleito (vereador no Rio de Janeiro, em 1988). Primeiro ele fez esse teste. Esses episódios deram muita visibilidade para ele. Foi, muitas vezes, para a primeira página dos jornais, das revistas. Foi eleito e saiu para a reserva.

Bolsonaro escolheu a artilharia dentro do Exército. O senhor avalia que isso tem relação, hoje, com as iniciativas do presidente para flexibilização da legislação relativa às armas?

Não sei te responder isso. Estou evitando fazer paralelos. É muito tempo atrás. O que fica claro é que Bolsonaro daquela época não é o Bolsonaro de hoje. Há alguns aspectos semelhantes, claro, mas outros não. Por exemplo, esse discurso mais radicalizado de direita, que ele veio acrescentando ao currículo dele nos últimos anos, a gente não consegue perceber naquele período. Em relação a armas, etc e etc, não há sequer um comentário dele que se ache sobre esse assunto. Não tem registro do que ele achava sobre isso naquele período em que ele era militar. Eu acho que é o caso de uma pessoa que foi construindo parte de sua história com fatos que não aconteceram, foi ficcionalizando uma parte do perfil dele. Por exemplo, quando ele fala que quando jovem ajudou o Exército a combater o (Carlos) Lamarca no Vale do Ribeira. Isso não é verdade. Não há nada historicamente, documentalmente falando que diga que isso possa ser verdade. É uma coisa que ele criou e passou a acreditar nisso.

Quem é?

Luiz Maklouf Carvalho Nasceu em Belém, no Pará, em abril de 1953. É bacharel em direito pela Universidade Federal do Pará. Mora em São Paulo desde dezembro de 1983. É autor de “Mulheres que foram à luta armada” e “Já vi esse filme: reportagens e polêmicas sobre lula e o pt (1985-2005)”, entre outros livros. Desde janeiro de 2016 é repórter de O Estado de S. Paulo.

Perfil

A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

© 1996 - 2020 A Gazeta. Todos os direitos reservados