Falando para apoiadores em Brasília e São Paulo nas manifestações de 7 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou que caminhava ao lado da Constituição. Disse que não aceitaria ameaças à democracia, mas, no mesmo discurso, atentou contra a harmonia dos Poderes, conforme analisam especialistas em Ciência Política.
O presidente voltou a questionar o sistema eleitoral e defender o voto impresso, assunto que diz respeito ao Legislativo e já foi enterrado pelo Congresso. Atacou também membros do Supremo Tribunal Federal (STF), citando o ministro Alexandre de Moraes, de quem disse que "não mais cumprirá decisões".
Durante o discurso, Bolsonaro ainda insistiu que falava pela maioria da população ao dizer "a paciência do nosso povo já se esgotou", ignorando pesquisas de opinião que mostram que ele nunca esteve com popularidade tão baixa desde que assumiu a presidência.
A retórica de Bolsonaro, ambígua e contraditória, é vista como uma estratégia por analistas consultados por A Gazeta. Para eles, o presidente manipula o significado de termos como "democracia" para alimentar apoiadores e justificar atitudes autoritárias.
"Ele usa esse conceito de forma incompleta, sem contrapeso, com um grupo se sobrepondo ao direito do outro. Ele lê por uma ótica de democracia majoritária, que não leva em conta as minorias", ressalta a antropóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Leticia Cesarino, que estuda o bolsonarismo e afirma que a tática é comum em movimentos de extrema-direita.
"A ideia é criar confusão mesmo, para não deixar esses conceitos fixados. Bolsonaro precisa desse ambiente instável, de guerra, de dois lados para mobilizar as bases, é uma pré-condição."
A narrativa de Bolsonaro é comparada pelo cientista político Leandro Consentino à utilizada durante o período do regime militar, quando o conceito de democracia também foi deturpado.
"O nome da revolução que deu origem ao golpe militar de 1964 era revolução democrática, jamais foi dito que era um golpe contra a democracia", aponta. Para ele, não há dúvidas que o objetivo é desacreditar instituições para justificar futuras medidas autoritárias.
"A partir do momento que o presidente inverte o discurso e se coloca como vítima, ele insufla a população contra instituições como o Congresso e o STF e prepara sua base para questionar uma eventual derrota em 2022 e apoiar tentativas de atitudes antidemocráticas."
A análise de Consentino é corroborada pela professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mayra Goulart. Ela chama atenção para a desvirtuação do significado de outro conceito, o da "liberdade de expressão".
"A interpretação que Bolsonaro faz da palavra liberdade destoa do sentido original. Ela se baseiam na inversão desse conceito, de que tudo pode ser dito e feito e que não há limites constitucionais."
"Dessa forma, ele induz as pessoas a acreditarem que elas estão tendo o direito de liberdade violado, e obtém apoio para pautas que vão contra instituições do Estado"
"A defesa pela liberdade" se tornou recorrente nos discursos de Bolsonaro, principalmente após ter aliados políticos presos por promover ataques a ministros do STF.
Na última terça-feira (07), na Avenida Paulista, o chefe do Planalto chegou a citar o artigo 5º da Constituição, que garante liberdade a todo cidadão, para acusar o Judiciário e governadores - que adotaram medidas mais restritivas na pandemia- de suprimir esse direito da população.
"Não podemos admitir que uma pessoa, um homem apenas turve a nossa democracia e ameace a nossa liberdade” referindo-se à decisões feitas por Alexandre de Moraes, que Bolsonaro afirmou que não mais cumprirá. O ministro é o relator de inquéritos em que o presidente é investigado.
Bolsonaro também se colocou, durante o discurso, como um porta-voz do povo, agradecendo os cerca de 60 milhões de votos que obteve nas urnas, em 2018. "Eu sempre estarei onde o povo estiver", afirmou.
A narrativa, segundo Mayra Goulart, também é uma estratégia do presidente para construir uma ideia de manifestação democrática, "como se, por ter sido eleito, fosse soberano para falar em nome de toda uma população". Ela pontua, contudo, que as pautas levantadas por Bolsonaro não representam o descontentamento da maioria, mas de um grupo fiel de apoiadores.
"O presidente cita os votos que o elegeram, mas esquece que muitos que votaram nele, não estão mais com ele. As pesquisas mostram que o cenário hoje é bem diferente de 2018 e essa impopularidade registrada nas pesquisas incomoda Bolsonaro", destaca.
"Ao generalizar o discurso e dizer 'o nosso povo', Bolsonaro tenta criar uma imagem de voz soberana democrática, que ele não ocupa. É mais uma estratégia para garantir e alimentar a base de apoiadores que o sustentam", finaliza.