Parte de uma base fiel do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), lideranças evangélicas saíram às ruas no 7 de setembro para mostrar apoio. Em São Paulo, um grupo de religiosos capitaneados pelo pastor Silas Malafaia e o deputado federal Marcos Feliciano (PSC) subiu no palanque junto ao chefe do Planalto.
No Espírito Santo, os atos também tiveram adesão e convocação de alguns pastores de igrejas evangélicas de diferentes denominações.
Mas, apesar dessas demonstrações públicas, o apelo popular que Bolsonaro encontra no meio evangélico não é unânime e nunca esteve tão baixo desde que ele assumiu a Presidência do país. De acordo com a mais recente pesquisa Datafolha, divulgada no dia 17, apenas 29% dos evangélicos consideram o governo ótimo ou bom. Em janeiro, eles representavam 40%.
Bolsonaro vê evangélicos como aliados, mas apoio está em queda
A queda na aprovação do governo entre os religiosos acompanha outros segmentos da sociedade e está relacionada à conjuntura econômica do país, segundo especialistas consultados por A Gazeta.
Para eles, os números indicam que os evangélicos estão mais preocupados com pautas econômicas do que morais. Ainda assim, o presidente tem a preferência deste segmento para 2022, como mostrou o Datafolha.
A condução da pandemia, o atraso na vacinação no Brasil e a crise econômica causada pela Covid-19 são alguns dos fatores que fazem o Bolsonaro viver um dos piores momentos do governo. Com baixa popularidade, o presidente viu cair o apoio de segmentos mais fiéis, como é o caso dos evangélicos.
Na avaliação da cientista política Marcela Tanaka, que estuda as relações entre política e religião, a desaprovação do governo Bolsonaro no segmento tem um fator conjuntural. Ela está relacionada com uma redução generalizada de popularidade do presidente em outros grupos da sociedade, muito associada à quebra de expectativa em relação ao governo.
"A pauta econômica não decolou, a pauta cultural, que é cara aos evangélicos, também não. Era esperado que a aprovação dele entre esse grupo seguisse o que a gente já vinha observando em outros. Isso tem muito a ver com a conjuntura que a gente vive", afirma, pontuando, contudo, que não vê uma "debandada" dos evangélicos"
"É um segmento que hoje apoia menos do que já apoiou, mas ainda apoia muito. E que continua preferindo Bolsonaro para 2022", frisa. De acordo com o Datafolha, o chefe do Planalto lidera a preferência de 38% dos evangélicos para as eleições do ano que vem. Lula aparece em segundo lugar, com 34%.
Fazer um recorte social entre os evangélicos é necessário para entender porque o apoio a Bolsonaro entre cristãos reformados e neopentecostais está em queda, afirma a cientista social e doutoranda em Antropologia pela USP Simony dos Anjos.
De acordo com ela, há uma grande parte de igrejas evangélicas, principalmente as neopentecostais, localizadas em áreas periféricas. Nessas regiões, a atual situação econômica tem um peso muito forte e precisa ser leva em conta.
"Os evangélicos fazem parte de um grupo bem heterogêneo e traçar um perfil de classe entre eles nos ajuda a entender onde Bolsonaro ainda mantém apoio. Ele tem um apelo expressivo dentro de denominações fundamentalistas, dos evangélicos mais ricos, que têm ganhos expressivos. Mas entre os periféricos, que são os mais impactados pela pandemia, ele se mostra cada vez mais frágil", destaca.
"A questão econômica tem um peso forte no eleitorado evangélico da periferia. Porque entre ter comida no prato e defender pautas morais, essas pessoas querem comida no prato. Mas isso não está acontecendo"
Enquanto lida com a queda de popularidade no segmento, Bolsonaro tem associado sua imagem a pastores evangélicos, como é o caso de Silas Malafaia, que encabeçou o movimento de apoio de religiosos aos atos de 7 de setembro na Avenida Paulista, em São Paulo.
Apesar de serem lideranças que têm grande apelo midiático, isso não é suficiente para garantir o apoio dos evangélicos como um todo, segundo dos Anjos.
"Há uma grande parcela de evangélicos que está sentido na pele o desemprego, a fome, o aumento da inflação. Quem anda com Bolsonaro e quais as pautas ele defende se torna secundário neste momento para muitos evangélicos", pontua.
Manifestação de apoiadores do Governo Bolsonaro
EVANGÉLICOS AINDA VEEM BOLSONARO COMO ALIADO
Apesar da pesquisa Datafolha mostrar o crescimento do número de evangélicos que desaprova a gestão do atual governo, boa parte desse segmento ainda vê o presidente Jair Bolsonaro como grande aliado. A manutenção dessa aliança, na avaliação do professor de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Gerson Leite, está no discurso do presidente, na defesa de pautas conservadoras e morais.
"Quando Bolsonaro criminaliza o que as igrejas falam que é pecado, principalmente as evangélicas, cria-se um local de conforto discursivo”, aponta o professor. Ele também chama atenção para a narrativa de ameaça que o presidente constrói em relação à pauta de costumes.
"Ele não só se coloca como defensor de temas sensíveis aos evangélicos, como constrói a ideia de um inimigo comum, que ameaça a igreja. É um discurso que funciona porque ele gera medo e angaria apoio", destaca.
Marcela Tanaka também aponta para a visibilidade que Bolsonaro deu a evangélicos no governo. "O presidente sempre se colocou como alguém que vai governar pelos evangélicos e com os evangélicos, tanto é que a participação de representantes desse segmento nunca foi tão grande em um governo", ressalta.
O pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil Milton Ribeiro, por exemplo, comanda o Ministério da Educação. A pastora Damares Alves, com raízes na Igreja Quadrangular, está à frente do Ministério da Família. O também pastor e membro da Igreja Presbiteriana Esperança André Mendonça, foi ministro da Justiça e Advogado-Geral da União. Recentemente, ele foi indicado a uma vaga de ministro no Supremo Tribunal Federal (STF) por ser “terrivelmente evangélico”.
A indicação de Mendonça encontra resistência no Senado. Uma derrota de Bolsonaro no Congresso ou a eventual desistência do pastor à vaga de ministro pode gerar um novo mal-estar entre o governo e a base evangélica.
Para o Pastor Enoque de Castro, presidente de honra da Associação de Pastores Evangélicos da Grande Vitória, a maioria dos evangélicos apoia Bolsonaro porque tem críticas comuns às do presidente.
"Os evangélicos hoje estão muito politizados e com um objetivo de mudar o país. A gente viu isso nas manifestações de 7 de setembro, em que houve uma adesão de evangélicos de diferentes denominações. Não acho que Bolsonaro é o salvador da pátria, tenho críticas em relação a ele, mas acredito que é a melhor opção que se apresenta hoje", destacou Enoque.
O diretor-geral da Convenção Batista do Espírito Santo, Diego Bravim, explica que a igreja tem doutrina tradicional e conservadora, mas que é apolítica. Ele pontua que as divergências sempre existiram nos templos e que os pastores têm autonomia e liberdade democrática. Logo, não há unanimidade entre o segmento.
"Sempre houve pensamentos e posicionamentos diferentes entre lideranças religiosas, mas que se tornaram mais acentuados neste momento. A igreja, contudo, é apolítica, não tem lado, não tem preferências. Não há uma orientação da Convenção Batista sobre apoiar ou não um candidato”, destacou.