Da cadeira do Palácio Anchieta, o governador Renato Casagrande (PSB) opera sob pressão. Após o Espírito Santo atingir 91% de ocupação dos leitos de UTI, o socialista decretou uma quarentena de 14 dias, a contar da quinta-feira (18), com medidas impopulares entre comerciantes e empresários, mas que também desagradaram profissionais de saúde, que esperavam mais rigidez para conter a pandemia de Covid-19.
Ao mesmo tempo, enfrenta no campo político a resistência de grupos específicos no Estado. Se antes já lhe faziam oposição, agora contam com parte da população, insuflada a se manifestar contra as medidas do governo. Prova disso foi a manifestação que aconteceu no último domingo (14) e terminou na porta da casa da mãe do governador.
Em pronunciamento na sexta-feira (19), o chefe do Executivo estadual afirmou que as manifestações são legítimas, mas alertou para oportunistas com interesses eleitoreiros. “As pessoas têm legitimidade para se manifestar quando estão sofrendo efetivamente. Agora, dentro dessas manifestações, nós temos os oportunistas. Aqueles que estão aqui tentando tirar proveito de uma crise. Proveito eleitoral, proveito político”, afirmou.
Pessoas próximas ao governador dizem que ele não pretende subir o tom em relação aos ataques que tem recebido e que vê os "oportunistas" como minoria. As atitudes que considera extremas, vai judicializar. Para especialistas da área política, a postura de Casagrande vai ao encontro da imagem que ele construiu, de "conciliador". Eles alertam, contudo, que não se deve subestimar esses grupos, que têm crescido e se tornado cada vez mais agressivos.
“Todos os governantes estão em um momento crítico, com possibilidade de arranhar a imagem”, pontuou o especialista em marketing político Darlan Campos.
Desde o início da pandemia, as decisões tomadas pelos governantes viraram motivo de embate político e no Espírito Santo não foi diferente. Casagrande foi alvo de críticas. Inicialmente, isso ficou mais restrito a um grupo de pessoas que negavam a gravidade da Covid-19 e, por isso, discordava das restrições impostas.
Mas a necessidade de medidas mais rígidas, um ano após os primeiros casos, fizeram com que os ataques aumentassem, assim como o grupo de insatisfeitos. A desinformação também ganhou força. Casagrande foi acusado, por exemplo, de ter “escondido” repasses do governo federal. A verba que chegou aos cofres do governo do Estado, no entanto, não foi de R$ 16 bilhões, como apregoam os bolsonaristas.
Aos negacionistas, agregaram-se categorias diretamente impactadas com a crise econômica, o que, na visão de Darlan Campos, traz um desafio ainda maior para Casagrande.
“Não estamos falando apenas de uma minoria barulhenta de negacionistas. Há também pessoas atingidas diretamente pelas medidas rígidas, principalmente do ponto de vista econômico. São grupos diferentes, mas que, em algum momento, podem ter o mesmo pleito, que é ser contrário às restrições colocadas”, ressaltou.
No último domingo, antes mesmo de o governo estadual anunciar medidas restritivas no Estado, um grupo de manifestantes já protestava. Com palavras de ordem, elogiavam a gestão do presidente Jair Bolsonaro em detrimento da administração de Casagrande.
O protesto reuniu cerca de 200 carros e terminou em frente à casa da mãe do governador. O socialista gravou um vídeo condenando a atitude, mas, em tom brando, disse que os atos de manifestação eram legítimos.
As pressões se arrastaram ao longo da semana. Após anunciar o fechamento do comércio, o governador enfrentou resistência de prefeitos. Alguns chefes dos Executivos municipais se manifestaram contra as determinações e, no dia seguinte ao anúncio, publicaram decretos permitindo a abertura de alguns setores, ignorando o decreto estadual.
Em pronunciamento na sexta-feira (19), Casagrande não criticou os prefeitos que se rebelaram. Ao contrário, pediu que as pessoas conversassem com os que se recusam a seguir as orientações de prevenção e controle da Covid-19.
Pessoas próximas de Casagrande adiantam que o governador não vai subir o tom. E que os excessos vão ser tratados na Justiça, como ele tem feito nos últimos anos.
"Renato não reage à indução, porque ele sabe que é isso que algumas pessoas que fazem parte desse grupo esperam dele. É uma minoria de radicalizados que se opõem às medidas por ideologia"
O secretário de Governo, Gilson Daniel (Podemos), corrobora a opinião: “Ele vai manter essa postura equilibrada e serena. Vai continuar tomando decisões ouvindo os Poderes e a sociedade impactada. O que identifica como excessos vão ser tratados como tal, na Justiça. Algo além disso não é o perfil dele".
De acordo com a advogada que representa Casagrande, Mariane Porto, o governador tem iniciado algumas ações judiciais contra desinformação durante a pandemia. Entre elas está uma relacionada a publicações nas redes sociais e outra referente a um outdoor que foi instalado em Nova Venécia com conteúdo falso.
O episódio em frente à casa da mãe do governador foi considerado um "excesso" pela advogada. A defesa fez uma representação na polícia.
Para o cientista político João Gualberto Vasconcellos, o fato de o governador evitar o embate representa a imagem que ele construiu politicamente, de conciliador. Assim, não caberia uma mudança radical na postura em um momento como esse.
“Casagrande construiu uma imagem de serenidade, de conciliador na política. Tanto que a base aliada dele vai de centro-esquerda a centro-direita. As pessoas não esperam dele o embate”, comentou.
Darlan Campos diz que o comportamento de Casagrande se assemelha ao da grande maioria dos governantes e é o que se espera do cargo que ele ocupa. Qualquer atitude política ou eleitoral precisa ficar em segundo plano neste momento.
"O discurso da oposição é sempre de quem taca pedra. E, nessa situação, não ir para o processo de enfrentamento é a postura mais adequada a se adotar, porque é o que se espera de um governante que está enfrentando uma pandemia"
Sabendo que o momento é delicado e que é preciso se fortalecer politicamente, Casagrande tem buscado apoio de chefes de outros Poderes e instituições, estes, inclusive, com discursos mais duros que o do governador. O presidente do Tribunal de Contas do Estado, Rodrigo Chamoun, por exemplo, afirmou durante uma reunião com prefeitos que não haveria espaço para "prefeitos negacionistas e sabotadores".
Nesta sexta-feira (19), Casagrande fez um pronunciamento, após anunciar um plano econômico para a pandemia. O socialista voltou a apelar pelo apoio da população e disse que estava tomando as medidas que julgava corretas. Nesta hora, não tenho que ficar preocupado se a medida é popular ou impopular, tenho que tomar a medida que é correta”, frisou.