Casagrandista vai comandar entidade estratégica em ano pré-eleitoral
A chapa única a ser eleita para presidir a Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes) pelos próximos dois anos tem as digitais do Palácio Anchieta. A nova diretoria é composta por aliados de primeira hora do governador Renato Casagrande (PSB). A eleição está marcada para o dia 31 deste mês. Embora Casagrande não tenha voz direta nas decisões, a formação foi articulada por Gilson Daniel (Podemos), atual presidente da entidade e ex-prefeito de Viana, que assumiu recentemente a Secretaria de Governo do Estado.
A Amunes foi criada em 1972 e concentra como filiados todos os 78 prefeitos das cidades capixabas. A instituição atua em ações pontuais nos municípios, por meio de lideranças regionais e locais para promover capacitações e integração entre os gestores, por exemplo; na busca dos interesses das cidades junto ao governo do Estado e também em pautas nacionais. Basicamente serve como um "grande sindicato dos prefeitos", uma ponte de comunicação entre os gestores, os outros Poderes, o Executivo estadual e o federal.
Para citar a importância da articulação, aponta Gilson Daniel, houve a mão da Amunes para "conquistar R$ 32 milhões em royalties do petróleo com o Estado, em parceria com Casagrande", mais de R$ 40 milhões pelo Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento Municipal – Cidades e, em âmbito nacional, a conquista do socorro financeiro também aos municípios durante a pandemia.
Por toda essa articulação com os chefes municipais de todo o Estado que é tão importante para o governo ter aliados na entidade. O presidente vai atuar tanto para ouvir todos os municípios e organizar as demandas que serão levadas ao governo, quanto na via contrária, levando aos prefeitos pautas de interesse do Estado. Ter um aliado liderando a instituição, portanto, permite ao governo ter um "braço" de articulação em todos os municípios.
E isso em 2021, ano pré-eleitoral, e 2022, ano da disputa pelo governo do Estado.
"O governador não interfere nas questões da entidade, a única intervenção que ele faz é ajudar. A gente dialoga, conversa com o governo, agora sou secretário dele (Casagrande) então a gente fortaleceu ainda mais o diálogo. A intenção de ter uma chapa que tem trânsito com o governo é ter harmonia no Estado", afirma Gilson Daniel.
Embora diga que o governador não interferiu diretamente na escolha, o papel de cuidar da formação de uma chapa agradável para o palácio foi dada a Gilson Daniel como a primeira tarefa como secretário de Governo, conforme o próprio Casagrande confirmou ao colunista Vitor Vogas.
Victor Coelho é do partido de Casagrande e foi reeleito, em 2020, para comandar Cachoeiro de Itapemirim, maior município sob a liderança de um socialista no Estado. Durante a corrida eleitoral, Victor foi um dos poucos candidatos que receberam apoio expresso do governador.
A maioria dos nomes cotados para a presidência era de aliados do governo. Questionado por que decidiu investir na articulação para emplacar Victor, Gilson Daniel apontou que um prefeito reeleito tem "mais facilidade" paga gerir a cidade e, ao mesmo tempo, se dedicar à Amunes.
"A tradição da entidade é ter um prefeito reeleito à frente da instituição, porque o prefeito reeleito tem maior facilidade de gestão por já estar na prefeitura há quatro anos e tem um pouco mais de facilidade para se dedicar aos 78 municípios. O presidente da Amunes acaba sendo um prefeito que tem que dar atenção aos 78 municípios", pontua.
Gilson Daniel elogia, ainda, a atuação de Victor Coelho enquanto prefeito. "É um prefeito jovem, com muita energia, muito bem avaliado no mandato dele. Além de uma boa relação com o governo do Estado, porque é importante ter essa facilidade de diálogo, ele reuniu as condições para acordar com os demais prefeitos".
O prefeito cachoeirense afirma, por nota, que pretende "prosseguir com as pautas prioritárias da entidade, dando continuidade ao trabalho da atual gestão e conhecendo de perto as novas pautas regionais." Questionado se a dedicação à entidade não poderia tirar de foco a gestão de Cachoeiro, o socialista diz que tem "o suporte necessário e qualificado tanto nas equipes da prefeitura quanto da Amunes" para auxiliá-lo na dupla tarefa.
No início das negociações para a formação da nova diretoria, apenas um nome corria por fora dos candidatos do Palácio Anchieta: Luciano Pingo (Republicanos), prefeito de Ibatiba. Único que dizia abertamente ser candidato, Pingo acabou aceitando integrar a chapa como vice-presidente e, em nota encaminhada para a coluna Vitor Vogas, observa que "qualquer divisão neste momento iria fragilizar ainda mais nossa luta contra os obstáculos na gestão municipal".
O "acordo" entre Republicanos e PSB para comandar a Amunes também foi visto em outras áreas de interesse do governo, como na eleição para a Mesa Diretoria da Assembleia Legislativa, em que Erick Musso (Republicanos) concorreu sozinho à presidência, mas "emparedado" por dois secretários aliados de Casagrande, um deles socialista: Dary Pagung (PSB) e Coronel Alexandre Quintino (PSL).
Fechando a chapa estão Wanderson Bueno (Podemos), aliadíssimo de Gilson Daniel e que se elegeu prefeito de Viana nas últimas eleições com apoio do mentor, e Jailson Quiuqui (Cidadania), prefeito de Águia Branca. Outros 10 diretores regionais foram escolhidos. Na Região Metropolitana, o diretor será Euclério Sampaio (DEM), prefeito de Cariacica que também foi eleito com o apoio, mesmo que indireto, de Casagrande.
FUNCIONAMENTO
Atualmente, a Amunes tem 10 funcionários que atuam nas áreas administrativa e de comunicação. Os membros da diretoria não recebem nenhum valor pelo trabalho desempenhado. Com um orçamento que gira em torno de R$ 1,5 milhão por ano, a entidade promove capacitações, eventos para integrar os prefeitos, além de atender necessidades pontuais de cada município. A entidade também presta serviços como o Diário Oficial Amunes, em que 52 municípios publicam diariamente seus atos oficiais.
Cada município repassa uma quantia para a manutenção dos trabalhos. O valor varia e depende da capacidade contributiva dos municípios, baseado no índice do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
Rio Novo do Sul, por exemplo, repassa R$ 984, enquanto a Serra, maior município em número de habitantes, desembolsa R$ 49 mil. Os pagamentos podem ser feitos de uma única vez ou em parcelas.