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Eleições 2022

Como Casagrande e Lula vão atrás do voto dos evangélicos

Grupo religioso, que representa quase 30% do eleitorado, tem sido foco das campanhas eleitorais, sobretudo pelo destaque dado às pautas de costumes por alguns segmentos

Publicado em 18 de Outubro de 2022 às 20:41

Aline Nunes

Publicado em 

18 out 2022 às 20:41
Bíblia
Para especialistas, os ensinamentos da Bíblia por vezes são distorcidos por lideranças Crédito: Pixabay
O forte apelo religioso que domina as eleições deste ano muitas vezes afasta os candidatos de uma campanha mais propositiva para enveredar por pautas de costumes. Ainda que projetos de governo devessem aparecer como prioridade, é preciso comunicar para este grupo de eleitores — formado principalmente por evangélicos — o que pensam e como pretendem tratar determinados temas considerados sensíveis, a exemplo do aborto.
Lideranças políticas do segmento tentam convencer os fiéis sobre candidatos que, em sua avaliação, estão alinhados com esses valores, e os adversários acabam ficando a reboque das pautas morais. 
Mas não se pode negligenciar o público evangélico que, segundo dados do Datafolha, representa 27% do eleitorado no país.  Conforme consulta do instituto agora no segundo turno, entre os dias 5 e 7 de outubro, 62% deles votam pela reeleição de Jair Bolsonaro (PL) na presidência da República.
A campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que está na disputa para voltar ao comando do país, tem concentrado esforços para desmentir conteúdos falsos e enganosos quanto ao posicionamentos do petista sobre as pautas de costumes e também sobre a relação do candidato com as igrejas.  É no combate às fake news que a equipe de Lula espera convencer eleitores indecisos desse segmento e virar votos. 
Entretanto, mais do que desmentidos recorrentes nos eventos públicos, nas redes sociais e na página do partido na internet, e o reforço no discurso de que Lula é cristão, a campanha discute outros meios de aproximação com os evangélicos, como uma carta aberta a esse grupo religioso. 
Essa carta deve ser apresentada nesta quarta-feira (19), quando Lula vai se reunir com 200 pastores evangélicos, em um hotel de São Paulo. O documento foi elaborado nos moldes da Carta aos Brasileiros, publicada pelo petista em 2002, quando foi eleito pela primeira vez para a Presidência.

PROPAGANDA ELEITORAL

No âmbito local, o governador Renato Casagrande (PSB) transita bem entre os evangélicos, segundo apontou pesquisa Ipec ainda no primeiro turno. Porém, a vantagem na preferência em relação a Carlos Manato (PL) é reduzida em comparação com o público católico.
Mesmo numa escala menor de enfrentamentos que Lula em nível federal, o socialista também precisa reafirmar frequentemente os valores cristãos, como já o fez nas propagandas de rádio e TV. E trabalha continuamente em busca de apoio do segmento evangélico. A cada grupo religioso que se junta à campanha, a equipe faz questão de divulgar, como a recente adesão de lideranças da Assembleia de Deus. 
Isso porque o uso massivo da expressão "Deus e família" por parte de Bolsonaro e de candidaturas alinhadas à sua, como a de Manato no Espírito Santo, sugere que a defesa desses princípios é exclusiva desse grupo. E o discurso de alguns líderes religiosos reforça essa teoria, buscando apoio para os candidatos que defendem e tentando impor suas convicções políticas.  
Doutor em Ciência da Religião e professor titular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Edebrande Cavalieri observa que o movimento bolsonarista soube estabelecer bem o vínculo entre religião e política e, com isso, alimenta uma estrutura de poder. 
O que está em jogo, aponta o professor, não é tanto o elemento eclesial, ser de igreja ou não, mas a pauta pela qual eles conduzem o voto.
"O maior complicador que eu vejo é que, para uma parcela mais conservadora da população, não importa como a pessoa (o candidato) é dentro da igreja. Essas pessoas acreditam que, independentemente do comportamento, é alguém que vai governar em benefício da religião, dos valores da família, e isso atrai muito", pontua. 
É por isso que, na avaliação de Edebrande Cavalieri, muitos fiéis seguem Bolsonaro, a despeito do fato de ele não ser evangélico, de ter discurso preconceituoso em relação a pretosnordestinosmulhereshomossexuais e usar, com alguma frequência, palavrões para se referir a adversários ou manifestar descontentamento. 
Para o professor, o avanço do bolsonarismo junto aos fiéis é decorrente também de um espaço que o campo progressista deixou de ocupar como fazia, por exemplo, na época das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica, em que promovia a consciência crítica e social da população.
"Hoje, estamos produzindo uma sociedade analfabeta do ponto de vista teológico. Essas lideranças pegam da Bíblia aquilo que lhes interessa e jogam para alimentar campanhas políticas. A Bíblia é usada de maneira equivocada. Fugiram completamente dos principais fundamentos do protestantismo histórico", analisa Edebrande Cavalieri.
O professor acrescenta que, atualmente, há dificuldades de grupos de esquerda de se aproximar dos fiéis que se encontram na ponta desse processo porque já houve distorções dos ensinamentos bíblicos. 

DIÁLOGO COM EVANGÉLICOS

Mas os candidatos progressistas que pretendem essa reaproximação não podem recuar. Gerson Leite, historiador, filósofo político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, constata que os evangélicos chegaram para ficar, estão consolidados nacionalmente e toda a atividade política precisa, de alguma maneira, dialogar com esses grupos. 
Em um rápido resgate histórico, Gerson Leite lembra que, até o início dos anos 1980, os evangélicos estavam numa condição de não se envolver em política. A partir daquela década e, especialmente, ao longo dos anos 90, passaram a ocupar espaço, principalmente na Câmara dos Deputados, impulsionados de certo modo pelas fatias de programação conquistadas na mídia.
Esse alcance nos meios de comunicação se deu de maneira articulada: quando as igrejas elegiam seus representantes, logo esses parlamentares ingressavam na comissão de Ciência e Tecnologia que cuidava da área de concessões para rádio e TV. 
"De repente, grupos religiosos que não faziam da política um assunto dentro da igreja, começam a transformá-la em curral eleitoral para impor determinadas visões de mundo", recorda.
Leite observa que, em dado momento, algumas dessas lideranças já estiveram ao lado de Lula, mas migraram para outro lado porque encontraram no bolsonarismo a oportunidade de reverberar suas concepções mais radicais e fundamentalistas. 
Nesse contexto, afirma Gerson Leite, o político não precisa ser republicano, nem respeitar a liturgia do cargo, porque essas lideranças levam suas igrejas evangélicas não a votar a favor de projetos, mas sempre a se posicionar contra algo. 
"O que motiva essas igrejas, seja na eleição municipal seja na federal, é sempre o medo de algo. Nunca é propositivo. É uma pauta conservadora, moralista, apocalíptica, criando medo nos fiéis e fazendo com que eles não votem em propostas, mas para conter projetos que vão dando o nome que querem, como é o caso da ideologia de gênero, ou o comunismo no Brasil", aponta. 
Gerson Leite diz que o temor que os líderes criam não se sustenta, não deveria existir, mas é alimentado para que os fiéis acreditem que há um perigo iminente para destruir suas famílias, sua igreja. "A lógica deles é criar uma teoria da conspiração. Não provam nada, mas vão gerando um pânico nos fiéis que permite a essas lideranças controlar o rebanho e tirar dali uma visão de mundo retrógrada", atesta. 
Ele cita um exemplo recente da ex-ministra e senadora eleita pelo Distrito Federal, Damares Alves (Republicanos), que fez uma pregação alegando que crianças na Ilha do Marajó, no Pará, eram abusadas e, inclusive, tiveram os dentes arrancados para fazer sexo oral. Até o momento, não comprovou nada do que afirmou.
"Pastores, de maneira geral, quando sobem num púlpito têm por finalidade comunicar algo, e de maneira impactante, mas não precisam provar o que dizem. No caso da Damares, como uma agente de Estado, ela tem que prestar contas. Das duas, uma: ou ela mentiu ou pode ser acusada de prevaricação (como ministra, ao saber da situação, deveria ter tomado providências)", sustenta Gerson Leite. 

MOVIMENTO

 Edebrande Cavalieri chama a atenção para outro aspecto. Ele enxerga toda essa movimentação no Brasil não como algo isolado, mas que está interligado a grupos de direita internacional, que também vêm ganhando espaço pelo mundo, e está além do limite institucional de uma igreja ou outra. 
No país, a cada eleição ganham mais espaço, sobretudo no Congresso Nacional, mas há uma tentativa de também se instalar em outros espaços de poder. Por essa razão, segundo o professor da Ufes, Bolsonaro tem a intenção de indicar para o Supremo Tribunal Federal (STF) um ministro "terrivelmente evangélico." Parafraseando o Papa Francisco, Edebrande Cavalieri frisa que o fundamentalismo é uma praga. 
Mas o professor também faz questão de ressaltar que, ao tratar dos evangélicos, o grupo não pode ser visto como um bloco monolítico, uniforme. Ao contrário, é diversificado e heterogêneo. Muitos, inclusive, se opõem a Bolsonaro.
Gerson Leite reforça que o Congresso Nacional também é ocupado por parlamentares evangélicos da frente progressista, como a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) e a recém-eleita Marina Silva (PSB) para a Câmara dos Deputados. Elas já faziam parte da bancada federal quando Lula foi presidente e, segundo o professor, na ocasião ajudavam a contrapor radicais. 
"E ainda existe uma resistência no meio evangélico a Bolsonaro. Então, o caminho da campanha é reunir alguns pastores progressistas para tentar dialogar com aquelas pessoas com quem se julga possível dialogar. Com radicais não adianta porque já foram sequestrados pela ideologia fascista e é mais difícil. Também não se pode pensar só nesta eleição. Na próxima, o mote vai ser o mesmo", analisa. 
Para o professor da Mackenzie, é importante que a campanha do Lula resgate as ações que foram implementadas no governo do petista para os evangélicos, como tem feito, mas critica a correlação feita da Maçonaria com o satanismo para atingir Bolsonaro. 

PÓS-ELEIÇÃO

Como o envolvimento de evangélicos com a política não se encerra em 30 de outubro, dia do segundo turno das eleições, os especialistas avaliam que, se as candidaturas progressistas se elegerem no Espírito Santo e no Brasil, o trabalho de aproximação ainda continua. 
"O que o Lula tem que fazer, vencendo as eleições, é chamar pastores para perto dele e começar um trabalho de base para desmontar as narrativas construídas por muito tempo", opina Gerson Leite, frisando ainda que, com o fim do sigilo de 100 anos que Bolsonaro impôs em diversos atos do governo, Lula deverá revelar condutas do atual presidente, cuja imagem poderá ficar abalada no meio evangélico. 
Edebrande Cavalieri também defende o diálogo no pós-eleição para Casagrande e sua equipe. Em sua opinião, se o governador for reeleito, deve propor junto também dos executivos municipais políticas públicas que alcancem as famílias mais vulneráveis e que, muitas vezes, enxerga na igreja e no seu pastor a única forma de acolhimento e, por essa razão, segue suas orientações sem muitos questionamentos.
A ideia do professor é que, à medida que essa população é assistida por Estado e prefeituras nas demandas da comunidade, menos espaço para ser influenciada por líderes religiosos que misturam fé e política. 

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