Na parte superior, da esquerda para a direita: Renato Casagrande (PSB), Guerino Zanon (MDB), Audifax Barcelos (Rede) e Carlos Manato (sem partido). Na parte inferior: Célia Tavares (PT), Evair de Melo (PP), João Coser (PT), Helder Salomão (PT)Crédito: Arquivo AG
A um ano e sete meses das eleições de 2022, em que os capixabas vão escolher, entre outros cargos, o próximo governador do Espírito Santo, já há alguns possíveis candidatos se movimentando e sendo testados politicamente para a disputa. Empresas de pesquisas de opinião estiveram nas ruas nos últimos meses, em levantamentos internos para os partidos, tentando saber quais nomes podem ter apoio suficiente para ocupar a cadeira do Palácio Anchieta. Nos bastidores, as articulações em torno da construção de alianças também já começaram.
Especialistas atestam que as candidaturas já estão amadurecendo, mas em momento muito antecipado ao que tradicionalmente ocorre. Para eles, um fator que pressiona os políticos a se testarem mais cedo é a precipitação da disputa entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que acaba forçando todo o sistema partidário a já começar a se posicionar.
Entre os estrategistas dos diretórios capixabas dos partidos, há a certeza de que ao menos quatro grupos estarão em disputa. Um deles é o do governador Renato Casagrande (PSB). Embora ele tenha sido indicado pelo presidente nacional do partido, Carlos Siqueira (PSB), como um possível pré-candidato à Presidência da República, a prioridade do PSB capixaba é que o governador dispute a reeleição.
Com Bolsonaro e Lula já se digladiando publicamente para a disputa pela presidência, também é certo, entre os dirigentes, que no Espírito Santo haverá uma candidatura bolsonarista e outra petista, para dar palanque aos presidenciáveis. Entre os mais conservadores, o ex-deputado federal Carlos Manato (sem partido) e o deputado federal Evair de Melo (PP) são as principais apostas.
No PT, o ex-deputado estadual Genivaldo Lievori (PT) e a ex-secretária de Educação de Cariacica Celia Tavares (PT) já foram cotados para uma candidatura quase "simbólica", em que os próprios petistas reconhecem que há poucas chances de levar a eleição. Nomes que contaram com mais votos em eleições passadas, como o do ex-prefeito de Vitória João Coser (PT) e do deputado federal Helder Salomão (PT), também criam expectativa na sigla.
Movimentando-se de maneira mais silenciosa, o MDB quer retomar seu espaço no Estado e avalia que, para isso, é essencial ter um nome forte no pleito. A principal aposta é o prefeito de Linhares, Guerino Zanon (MDB), que conta com a simpatia das entidades empresariais e também de prefeitos do Norte e do Noroeste do Espírito Santo. Um dos principais nomes entre os antigos aliados do ex-governador Paulo Hartung (sem partido), o prefeito linharense é considerado alguém de perfil mais próximo ao do ex-gestor e poderia herdar seu eleitorado.
Nos últimos dias, ganhou força a possibilidade de um outro cotado para a disputa ao Palácio Anchieta formar chapa com o MDB (como cabeça ou vice): o ex-prefeito da Serra Audifax Barcelos (Rede). Ele tem conversado com lideranças do partido e há simpatia dos dois lados para uma união.
Ainda falta um tempo para a eleição, mas não tanto. Em abril de 2022, quem quiser se candidatar já precisa estar filiado a um partido que lhe proporcione essa condição. Até lá, podem acontecer novos eventos, alguns nomes ainda podem surgir e outros devem deixar a lista. Com base no tabuleiro político atual, veja quem são as peças se movimentando neste jogo de xadrez.
QUEM SÃO OS NOMES COTADOS E COMO SE ARTICULAM
Renato Casagrande (PSB) comanda, atualmente, o maior grupo político no EstadoCrédito: Divulgação / Governo do ES
Casagrande comanda, atualmente, o maior grupo político no Estado, o que já seria natural para alguém que ocupa o cargo de governador. Além disso, ele é líder do PSB, partido com maior número de filiados eleitos (em todos os cargos) no Estado. Conta a favor dele, também, a coalizão de siglas em torno de sua base. Cidadania, PV, PCdoB, PDT, PP, Podemos, PSL, PROS e, nos últimos meses, o Republicanos, são alguns dos partidos próximos ao governador.
Se antes, pelo DNA de centro-esquerda, o governador já sofria com a rejeição do eleitorado mais conservador, com a pandemia de Covid-19, os embates com Bolsonaro e o PSB nacional o alçando à pré-candidatura à presidência, Casagrande ganhou o desgaste de um grupo significativo no Estado.
Com o aumento do número de casos e mortes por Covid-19, o governador se viu obrigado a endurecer as medidas restritivas, sobretudo no comércio, algo que gera impacto financeiro e impopularidade por quem se sente prejudicado pela quarentena. Resta saber se esse desconforto entre parte dos empresários e o governador vai durar até a próxima eleição.
Guerino Zanon (MDB) é apontado como herdeiro do capital político do ex-governador Paulo HartungCrédito: Felipe Tozatto
Prefeito por cinco vezes em Linhares, Guerino foi deputado estadual, secretário no governo do Estado e presidente da Assembleia Legislativa. Seu período à frente da Prefeitura de Linhares coincide com um novo ciclo de crescimento econômico na cidade, com a atração de diversas indústrias nos últimos anos.
Ex-secretário de Paulo Hartung, Guerino é apontado como principal herdeiro do capital político do ex-governador, que, apesar de focar suas movimentações no cenário nacional, não deixou de acompanhar a base que construiu no Espírito Santo. Nos últimos meses, o prefeito de Linhares tem sido procurado por diversas lideranças, incluindo outros prefeitos, do Norte e Noroeste do Estado, que tem apoiado uma candidatura dele a governo. Entidades empresariais, da indústria e do agronegócio, também já sentaram com o prefeito para conversar sobre eleição, segundo aliados de Guerino.
Empresários do setor industrial e do agronegócio também já foram recebidos por Guerino, que tem a simpatia destes grupos. Caso seja candidato, ele precisa deixar a prefeitura em abril de 2022, seis meses antes da eleição.
Há, entre os aliados do prefeito, o entendimento de que para vencer Casagrande, que está na "máquina do governo", Guerino precisará de energia. O combustível que pode fazer sua candidatura decolar é o apoio e até uma possível aliança com o ex-prefeito da Serra Audifax Barcelos.
Audifax Barcelos (Rede) vai precisar se testar fora da Serra, onde possui base eleitoralCrédito: A Gazeta
Após dois mandatos como prefeito da Serra, Audifax deve voltar a disputar uma eleição em âmbito estadual e terá que se testar fora de seu município, onde possui grande base eleitoral.
Líder da Rede no Estado, ele tem como desafio a dificuldade estrutural de seu partido, que é uma sigla recente e com poucos recursos, para bancar uma eleição para o governo.
Desde que deixou a prefeitura, as conversas com o MDB e Guerino têm sido positivas e uma aliança entre os dois não parece improvável. Caso aconteça, os dois perfis parecem se completar, já que Guerino tem maior força no Norte do Estado, enquanto Audifax é reconhecido na Grande Vitória.
A possível chapa, assim como o nome dos dois candidatos, está em tubo de ensaio. Não há definição, por exemplo, sobre quem seria o candidato principal e quem seria o vice. Guerino, que tem mandato em Linhares, tem mais a perder do que o serrano, já que seria obrigado a abrir mão da prefeitura. Em uma hipótese em que Audifax saia como vice, poderia disputar a Prefeitura da Serra em 2024, que não deve ter seu principal adversário, Sergio Vidigal (PDT), na disputa. Pelo menos não diretamente, como o próprio Vidigal já anunciou.
Carlos Manato (sem partido) já se declara pré-candidato a governador em 2022Crédito: Fernando Madeira
Segundo colocado nas eleições de 2018, o ex-deputado federal Carlos Manato já se declara pré-candidato a governador em 2022. Sem partido, ele aguarda uma definição do presidente Jair Bolsonaro e deve seguir para a mesma sigla do chefe do Executivo federal. Manato é o principal nome de oposição a Casagrande e, assim como Bolsonaro, "está no palanque" desde o final de 2018, em disputa com o atual governador, a quem faz críticas diariamente nas redes sociais.
Como principal antagonista do socialista, Manato já declarou que "prefere enfrentar Casagrande na eleição". A conta é simples: o ex-parlamentar vende um projeto de governo oposto ao do socialista, focando temas defendidos por grupos mais conservadores.
No entanto, diferentemente de 2018, Manato pode ter que vencer uma disputa interna em seu núcleo político. No front bolsonarista capixaba, uma outra liderança tem se movimentado e pode dividir a base de apoio: o deputado federal Evair de Melo (PP). Apesar de pertencerem a subgrupos diferentes do bolsonarismo, com Manato vinculado a uma ala mais ideológica e Evair mais próximo do grupo político de Bolsonaro em Brasília, os dois declararam, ao colunista Vitor Vogas, que estarão juntos contra Casagrande, podendo os dois se lançarem contra o socialista ou unidos em um só bloco.
Evair de Melo (PP) pode ser uma opção para o eleitorado mais conservadorCrédito: Agência Câmara
Um dos 14 vice-líderes do presidente Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, Evair de Melo ainda não se colocou como pré-candidato a governador, mas engrossou o tom nas críticas a Casagrande, em uma postura que foge do perfil que construía até então. O partido de Evair, vale lembrar, está hoje sob o guarda-chuva da base casagrandista no Estado. Aliás, o próprio deputado já foi aliado do governador.
Membro da bancada ruralista, Evair tem sua base eleitoral na região Serrana do Estado. Ex-diretor-presidente do Incaper, o deputado tem proximidade com produtores rurais mais conservadores e empresários do campo, sobretudo ao Sul do rio Doce. Com proximidade com o presidente Bolsonaro, o parlamentar pode aproveitar o apoio dos grupos ligados a ele para disputar o governo. Oficialmente, ele diz ser candidato à reeleição na Câmara dos Deputados. Mas a mudança no tom de seu discurso é um ponto fora da curva, que pode indicar um movimento diferente por parte do parlamentar.
Lideranças no PT, Célia Tavares, João Coser e Helder Salomão são nomes do partido cogitados para a disputa Crédito: Arquivo AG
No entanto, os próprios dirigentes partidários reconhecem que, embora possam ter participação significativa em 2022, dificilmente chegariam a um eventual segundo turno. Nomes com maior peso, já testados em outros pleitos e com votações expressivas, o deputado federal Helder Salomão (PT) e o ex-prefeito de Vitória também podem surgir no palanque petista na disputa estadual.
Antecipação da eleição prejudica a gestão
Para especialistas, a antecipação da campanha, faltando quase metade de gestão pela frente, é um sinal ruim, que pode prejudicar a gestão de quem ainda está no mandato. O cientista político João Gualberto Vasconcellos considera a movimentação precipitada e entende que esse acirramento local é um reflexo da polarização nacional. Para ele, Bolsonaro começou seu governo “já em campanha”, um movimento que também levou outros atores políticos a queimar a largada eleitoral.
"Isso não é normal, não é comum ver partidos políticos falando em antecipar convenção para já lançar nomes para o eleitorado. Já temos prefeitos, recém-eleitos, que estão construindo alianças para 2022. Ainda há um caminho longo de governo pela frente; o presidente e os governadores ainda precisam governar. É claro que, quem trabalha com política, pensa em eleição o tempo todo, mas essa discussão deveria ficar para o ano que vem", observa.
O cientista político Fernando Pignaton acredita que, em âmbito estadual, a eleição deve ser mais acirrada para Casagrande do que foi em 2018, quando venceu no primeiro turno. Em um governo em que teve que lidar com a pandemia, o que dificulta o crescimento econômico e a entrega de obras por parte do Estado, Casagrande deve começar a disputa mais desgastado do que no pleito anterior.
"A estratégia de Casagrande de tentar abrigar todo mundo no governo não deu muito certo. Não sabemos se os atuais aliados vão se manter com ele até 2022. Não podemos deixar de considerar que, embora ele tenha ficado afastado, o PSB não teve um desempenho tão grande quanto se esperava, o governo perdeu em Vitória, onde tinha um aliado forte, que era Luciano Rezende. Será um teste de fogo para o governador", analisa.