Eleições 2024: São Mateus é recordista de cotados para prefeito no ES
Muitos interessados
Eleições 2024: São Mateus é recordista de cotados para prefeito no ES
Ao menos 14 nomes são mencionados para concorrer à sucessão do atual chefe do Executivo, Daniel Santana (sem partido), que está no segundo mandato seguido
Eleição para prefeito de São Mateus em 2024 deve ter muitos concorrentesCrédito: Arte Geraldo Neto
Com um mandato conturbado, envolvendo prisão e afastamento judicial do atual prefeito, Daniel Santana (sem partido), que está no segundo mandato consecutivo, o município de São Mateus, no Norte do Espírito Santo, reúne, no momento, o maior número de cotados entre os maiores colégios eleitorais do Estado: 14, no total. Grupo de oposição, contudo, quer reduzir número de concorrentes e chegar a uma candidatura única entre eles.
Nono maior colégio eleitoral do Estado, São Mateus atraiu 10 candidatos na disputa para prefeito de 2020, mas essa quantidade de interessados não era comum em eleições anteriores. Em 2016 e 2012, foram três concorrentes em cada pleito; em 2008, apenas dois; e, em 2004, cinco registraram candidaturas.
Para 2024, depois da sequência de três prefeitos reeleitos à frente do Executivo municipal e de quatro empresários no comando do município, um grupo com quase metade dos cotados quer reduzir o número de concorrentes para garantir uma candidatura forte e evitar dispersão de votos entre eles, já que todos são contrários à atual administração municipal. Eles avaliam, inclusive, ter apenas um candidato a prefeito entre eles, a depender das conversas e da viabilidade demonstrada em pesquisas até o início do próximo ano.
Estão nesse grupo: o vice-prefeito do município, Ailton Caffeu (Cidadania), que ficou à frente da prefeitura em 2021, durante o afastamento e prisão de Daniel; o presidente da Câmara, Paulo Fundão, que está de malas prontas para deixar o PP; o diretor-presidente do Departamento de Edificações e Rodovias do Espírito Santo (DER-ES), Eustáquio de Freitas (PSB); os empresários Clebson Bazoni (PSDB) e Marcus Batista, o Marcus da Cozivip, ainda sem filiação partidária; e o ex-secretário municipal de Desenvolvimento, de Governo e de Defesa Social Hassan Rezende (Podemos).
Eles ainda tentam levar para o grupo o ex-deputado federal Jorge Silva (Republicanos), que não descarta concorrer à prefeitura, mas deve migrar para outra sigla, e o presidente do Sindicato dos Servidores Públicos de São Mateus (Sindserv), Herikson Locatelli (PV). A pré-candidatura de Herikson divide espaço com a da professora Zenilza Pauli (PT) na federação PT, PV e PCdoB.
Há ainda três candidatos em 2020 que se movimentam para repetir a candidatura em 2024: o ex-deputado estadual Carlinhos Lyrio (Republicanos), que vai tentar o cargo de prefeito pela quinta vez, sendo a terceira consecutiva; o radialista Ferreira Junior (Rede); e o pastor e advogado Nilis Castberg (PL).
A esses 12 nomes se somam dois integrantes do secretariado municipal: a secretária de Educação de São Mateus, Marília Silveira (MDB), e o secretário municipal de Defesa Social, coronel do Corpo de Bombeiros Wagner Borges (sem partido). Por ser militar da ativa, ele não pode manter filiação partidária.
Série Eleições 2024: cotados
Esta reportagem faz parte da série de A Gazeta sobre cotados para as eleições 2024. Ao longo do mês de agosto, a cada terça e quinta estão sendo publicados os perfis dos interessados na disputa em um dos 10 maiores colégios eleitorais do Espírito Santo. Por ordem de eleitorado, são as seguintes cidades: Serra, Vila Velha, Cariacica, Vitória, Cachoeiro de Itapemirim, Linhares, Guarapari, Colatina, São Mateus e Aracruz. A ordem de publicação dos conteúdos não segue o número de eleitores. Apenas os cotados da Serra ainda não foram publicados.
Eleições 2024 São Mateus é recordista de cotados para prefeito no ES
No grupo de opositores à gestão de Daniel da Açaí, nome que o prefeito usava nas urnas até 2016 e como era mais conhecido no primeiro mandato, o objetivo é conseguir entrar em consenso em torno de um nome, embora nenhum deles abra mão da pré-candidatura até agora. Eles também buscam o apoio do governador Renato Casagrande (PSB) ao nome que definirem.
Eleito em parceria com Daniel, em 2020, Caffeu se afastou completamente dele a partir da prisão, ocorrida em setembro de 2021, e nem retornou à prefeitura desde que deixou o cargo de prefeito interino, em 22 de dezembro de 2021. O prefeito foi alvo da Operação Minucius, da Polícia Federal, suspeito de desvio de dinheiro público. Na casa dele, a PF encontrou R$ 400 mil em espécie. Em uma empresa dele, foram R$ 300 mil.
O vice-prefeito gostou da experiência de ficar à frente da prefeitura e diz que basta "ter um bom secretariado e conversar com todo mundo" que fica fácil ser prefeito.
Além dos que se colocam como pré-candidatos, o grupo dialoga com ex-prefeitos e lideranças políticas do município e candidatos em 2020 que se movimentam para concorrer novamente. "Do grupo vai sair um nome. Estou querendo ser o candidato a prefeito. Para vereador não venho. Se for a vice, eu topo, se for para sair um do grupo para fazer uma administração boa para São Mateus", pontua Caffeu.
"O grupo político está tentando unir forças para vir o mínimo de candidatos possíveis e definir nomes", acrescenta o empresário Bazoni, que também é presidente municipal do PSDB. Ele garante que a legenda vai ter nome próprio na disputa e aponta falta de policiamento na região de Guriri e deficiências graves no saneamento básico e na infraestrutura do município, como alguns dos principais problemas da cidade.
Um dos nomes que o PSDB convidou para se filiar à legenda é o empresário Marcus da Cozivip, que ensaia entrar na política, depois da tentativa frustrada do irmão, Rodrigo da Cozivip, nas eleições 2022. Mesmo que o irmão e sócio da empresa do setor de alimentação não tenha saído vitorioso nas urnas, a candidatura dele serviu de inspiração a Marcus.
Entre as siglas que o empresário avalia se filiar também estão PSD, DC, PL, Podemos, PRTB e União. "Possivelmente devo tomar a decisão mais para o final do ano, porque vou ouvir outros partidos. Converso com todos. Não tenho restrição. É uma experiência nova", afirma o empresário sobre as conversas visando às eleições de 2024.
O presidente da Câmara de São Mateus frisa que sua pré-candidatura também é de muito diálogo e justifica "porque São Mateus vive um caos e está precisando de uma gestão que faça mais" pelo município. "Institucionalmente eu não misturo, tenho respeito pelo Poder Executivo, dialogo com o prefeito dentro da institucionalidade, mas politicamente estamos em campos opostos", ressalta Paulo Fundão.
Ele apoiou Carlinhos Lyrio nas duas últimas eleições municipais, mas agora disse que só deixaria de concorrer à prefeitura em favor de Freitas, "porque o município precisa muito do governador."
Freitas é filiado ao partido do governador e está na gestão estadual, à frente do DER-ES, órgão responsável por obras de infraestrutura rodoviária em todo o Estado, assim como de escolas e de outros prédios públicos, algumas delas em parceria com os municípios. Pelo posição que ocupa hoje e pelos quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Estado, ele é considerado o nome mais forte do grupo.
"É uma honra ter o nome colocado no páreo pela população mateense. Me sinto preparado para liderar a cidade", afirma Freitas, via assessoria. Ele garante que seu foco atual é o DER-ES e só vai tratar sobre eleição no próximo ano e, até lá, vai dialogar com a população.
O ex-secretário municipal Hassan Rezende também está nesse grupo que dialoga em prol de uma única candidatura de oposição. Ele atualmente trabalha no gabinete do deputado federal Gilson Daniel (Podemos) e tenta se cacifar para a disputa a prefeito. Entrou na gestão municipal a convite de Daniel, para comandar a pasta do Desenvolvimento Econômico, em 2021, mas foi o único a ficar no secretariado quando Caffeu assumiu interinamente.
Hassan deixou a gestão assim que o prefeito reassumiu o mandato e hoje é aliado do vice-prefeito. Mais jovem entre os cotados, com 32 anos, seu atual chefe, Gilson Daniel, tenta fazer com que ele siga os passos do prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (Podemos), que saiu da oposição, em 2020, direto para a vitória nas urnas.
O deputado federal aposta no ex-secretário municipal como novidade para o eleitorado e para o meio político de São Mateus, diante de tantos nomes que se repetem a cada pleito.
Em diálogo
Um dos cotados que sempre tem o nome mencionado a cada eleição é o ex-deputado federal Jorge Silva. Vários dos pré-candidatos ouvidos pela reportagem acreditam que ele não vai concorrer. Alguns até afirmam que ele estaria disposto a apoiar algum nome desse grupo de oposição, mas ele mantém um perfil discreto e ninguém arrisca cravar o que ele realmente vai fazer.
Ao ser questionado por A Gazeta se pretende concorrer à prefeitura em 2024, Jorge Silva assegurou que vai "participar do processo eleitoral de 2024 de maneira ativa". Ele diz que tem conversado com outros pré-candidatos, com lideranças comunitárias e empresariais, mas ainda não definiu o que vai fazer e, antes de tomar qualquer decisão, vai procurar o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso.
Diante da insistência da reportagem se vai entrar na disputa, Jorge Silva admite que não descarta a possibilidade e reforça que está dialogando com outras forças políticas.
Outro que também não está totalmente inserido no grupo da oposição, mas também dialoga com alguns deles possíveis candidatos, é Ferreira Junior. "São vários grupos no município. Estamos conseguindo convergir nesse pensamento de, lá na frente, a gente tentar se juntar", pontua.
O radialista enfatiza ter o mesmo pensamento de 2020, quando disputou uma eleição pela primeira vez, "de acreditar em uma administração mais participativa, em que você possa estar ouvindo lideranças locais, estaduais e nacionais." Além de outros pré-candidatos, ele conversa com os presidentes da sua legenda atual, o Rede, e da antiga, o Solidariedade.
Também candidato a prefeito em 2020, o pastor Nilis Castberg teve o nome confirmado para concorrer novamente ao cargo pelo senador Magno Malta (PL), presidente estadual da sigla. Um vídeo com os dois abraçados foi divulgado nas redes sociais depois do encontro estadual do partido, realizado em Vila Velha, no último dia 19.
Já Carlinhos Lyrio vai para a sua terceira tentativa seguida de se eleger prefeito. Nos bastidores, as informações dão conta de uma aproximação dele com o atual prefeito. Os dois estiveram em campos opostos nas duas últimas eleições, mas há quem diga que ele estaria disposto a ter o apoio da máquina pública para voltar a vencer uma eleição. Ele participou de 13 disputas eleitorais e a única bem-sucedida foi em 1994, quando se elegeu deputado estadual.
Em 2020, Carlinhos lamenta que Ferreira Junior não tivesse aceitado seu convite para ser vice, pois, juntos, teriam barrado Daniel Santana. "Tem conversas avançadas com vários partidos, porque queremos fazer um governo de coalizão", ressalta o ex-deputado, que garante contar com o Agir ao seu lado.
Indagado sobre sua relação com o atual prefeito e com os demais pré-candidatos, Carlinhos afirma: "Concorremos contra ele (Daniel) em 2016 e 2020. A minha candidatura nasce e brota do povo, não nasce de quatro paredes. Os que vão disputar comigo começaram a ensaiar como se eu fosse o candidato de um ou de outro. Carlinhos Lyrio é candidato da base, do povo. Não gosto de fechamento em quatro paredes", enfatiza, em referência às conversas entre os oposicionistas.
Dentro da Federação Brasil da Esperança (PV, PT e PCdoB) há dois pré-candidatos: o presidente do Sindserv, Herikson Locatelli, e a professora Zenilza Pauli. Ambos se posicionam pessoalmente de forma contrária à atual administração, mas a única representante da federação na Câmara, a vereadora Ciety Cerqueira (PT), é aliada do prefeito. Na federação, a discussão sobre o assunto ainda não foi feita.
Daniel foi um dos poucos prefeitos no Estado a fazer campanha para o presidente Lula (PT) nas eleições 2022 e, por isso, há especulação em torno do PT estar com o nome que ele apoiar no próximo ano na disputa municipal e até a possibilidade de o partido compor, indicando o vice na chapa. O problema é que, até agora, o prefeito de São Mateus não definiu, ou não revelou, quem ele vai apoiar.
"A gente está dialogando, não vejo problema em estar como cabeça de chapa ou como vice. Não é uma vaidade política, é vontade política. O município de São Mateus vem de uma sequência de empresários no poder, quero ser uma opção nas urnas de uma pessoa comum. Meus sobrinhos estudam em escola pública, eu uso o SUS (Sistema Único de Saúde)", pontua o presidente do sindicato.
Ele ressalta que tem experiência nos mais diversos setores, pois já atuou em diferentes áreas na prefeitura, o que lhe garante uma boa noção do funcionamento do serviço público como um todo, além de conseguir lidar com pontos de vista diferentes a partir da sua experiência no movimento sindical.
A professora de Matemática e atual diretora da Cooperativa de São Mateus enfatiza que atendeu ao apelo do partido e sua pré-candidatura não é um projeto pessoal. Ela faz parte dos movimentos sociais e milita no PT há muitos anos.
"A gente precisa construir um plano para a cidade. Não pode ser apenas colocar o nome no pleito. Não é um proposta que eu construí sozinha. Recebi o convite e, a partir daí, passei a construir o projeto. O que queremos de novo para a cidade? O que podemos fazer de melhor para a cidade? O Partido dos Trabalhadores está em um momento significativo, temos deputados federais e senador do Estado, e ainda o presidente da República. Precisamos refletir sobre esse momento", comenta Zenilza.
Os secretários
Por outro lado, dois nomes são apontados como os possíveis candidatos com o apoio do prefeito. A secretária municipal de Educação foi procurada desde a última quinta-feira (24), mas não atendeu às ligações e nem retornou às mensagens da reportagem.
Já o coronel Wagner, que está à frente da Defesa Civil de São Mateus, rejeitou o rótulo de "candidato do prefeito". Ele garante que não tem se colocado como pré-candidato, que o nome dele surgiu da sociedade mateense, mas, só topará o desafio se tiver o apoio do governador. "Se chegar a disputar, eu vou sair independente. Vou ser candidato só com aval do governador Casagrande", sustenta.
Na última eleição, ele estava filiado ao Republicanos. Em 2020, concorreu a prefeito de Vila Velha pelo PL. Questionado sobre a possibilidade de concorrer em outro município tão distante quatro anos depois, Wagner alega que tem uma relação antiga com São Mateus, pois iniciou sua carreira no Corpo de Bombeiros no município do Norte capixaba.
Ele morou na cidade por cinco anos, até se mudar, em 2001. Retornou mais de 20 anos depois, inicialmente pela corporação que integra para auxiliar nas consequências do desastre na Ladeira do Besouro, e permaneceu a convite do prefeito e está na equipe dele desde janeiro. " O prefeito é um amigo, mas não converso sobre isso com ele. Só no ano que vem vou conversar sobre política. Qualquer decisão que eu tomar vai ser aliada ao grupo do governador", reforça o coronel.
Procurado para comentar a respeito da sua sucessão, o prefeito se pronunciou por nota enviada por sua assessoria. Ele ressalta que está focado em concluir o mandato e que vai deixar a eleição "para a hora da eleição". "Vou entregar o município com as contas em dia e com capacidade de investimento. Diferente do cenário que encontrei em 2017, quando assumi com R$ 70 milhões de dívidas", conclui.