Com pouco mais de 11% da população totalmente imunizada contra a Covid-19, ainda parece distante a perspectiva de um Brasil pós-pandemia. Em 2022, ano de eleições gerais, os candidatos aos cargos de presidente, governador, deputado e senador vão ter que lidar com um cenário eleitoral desafiador, mas os impactos deixados pela crise sanitária – que agravou problemas históricos nas áreas de saúde, economia e educação – vão ultrapassar o pleito e exigir respostas daqueles que forem eleitos.
A pandemia mostrou o caos provocado pela pressão sobre um sistema de saúde com baixo número de Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) disponíveis e com insumos e profissionais em quantidade insuficiente para suprir a demanda de uma crise sanitária.
Na educação, escolas fechadas e o ensino remoto fizeram com que quase 1,5 milhão de alunos entre 6 e 17 anos abandonassem a escola no Brasil, além de outros 3,7 milhões que mesmo matriculados em uma escola regular não receberam atividades escolares. Os dados são de novembro de 2020, apresentados em um levantamento da Unicef, divulgado em abril.
Somado a isso, a pandemia de uma doença cuja prevenção consiste em isolamento social abalou a economia, fez crescer o número de desempregados (14,4 milhões em abril, segundo o IBGE), e colocou milhões de brasileiros de volta na linha da pobreza extrema, com risco, inclusive, na área da segurança alimentar.
Problemas velhos, resultados de falhas na gestão de políticas públicas, que foram agravados pela crise sanitária, aponta o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino. O momento, portanto, será de reconstrução.
“A primeira coisa é o feijão com arroz. O Brasil continua com seus mesmos problemas que, de fato, se agravam do ponto de vista de entrega de políticas públicas. Será um desafio que os políticos terão que responder”, pontua.
O Brasil “pós-vacina”, portanto, vai exigir dos próximos eleitos a capacidade de olhar o quadro adverso como um todo, considerando as demandas urgentes em cada área. Uma "inteligência multifacetada que enxerga a floresta além de uma única árvore”, explica Rodrigo Prando, cientista político e professor da Mackenzie.
"Será preciso que os eleitos sejam capazes desse projeto de reconstrução, com parcerias necessárias para encarar as demandas na tríade saúde, economia e educação. Os três devem ser os norteadores dos projetos políticos. Sempre, mas principalmente no pós-pandemia"
FORTALECIMENTO DO SUS
Na saúde, a pandemia de Covid-19 levou o sistema à beira do colapso na maioria dos Estados brasileiros. Em 2016, o país contava com 41,7 mil leitos de UTI. Em janeiro de 2020, eram 45.848, sendo que mais da metade no sistema de saúde privada, segundo a Associação de Medicina Intensiva Brasileira com dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) do DATASUS, ANS e IBGE.
A estrutura ainda conta com uma distribuição desigual quando se olha para dados regionais. Mais da metade dos leitos de UTI, no início da pandemia, estava concentrada na região Sudeste do país. Soma-se a isso uma insuficiência de profissionais intensivistas e insumos básicos para atendimentos. Os eleitos terão que encarar, também, uma realidade de profissionais exaustos e emocionalmente doentes.
“Em uma pandemia dessa envergadura tivemos problemas com leitos de UTI e profissionais capacitados, mas esse é um problema crônico que acontece historicamente. A crise mostrou que a qualidade dessa estrutura é determinante para o resultado que se observa nos atendimentos de saúde”, salienta o médico Thiago Dias Sarti, doutor em Saúde Pública e professor da Ufes.
"É preciso fazer investimento de qualidade no SUS, na medicina intensivista e nas unidades básicas de saúde"
Não há, no entanto, uma perspectiva de quando a saúde pública poderá viver o “pós-pandemia”. Com a vacinação caminhando a passos lentos, a distribuição de doses ainda vai ser um desafio nos próximos anos, uma vez que, provavelmente, todos os brasileiros vão precisar tomar doses de reforço anuais.
No caso do Plano Nacional de Imunização, a demanda vai além do investimento em compra de vacinas. Com o discurso que coloca em xeque a credibilidade da ciência e das vacinas – reproduzido pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), que não se vacinou contra a Covid-19 – vai ser preciso resgatar a importância da imunização na consciência da população brasileira, destaca a pós-doutora em Saúde Coletiva e professora da UnB, Fátima Sousa.
A professora, que atuou na implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde no Brasil, salienta que há 60 anos o país tem a vacinação como forma de tirar do território brasileiro doenças como o sarampo e a poliomielite.
“Nosso programa de imunização era referência antes mesmo do SUS. O atual governo desmantelou uma inteligência de décadas. Precisamos reestruturar o PNI e restaurar a credibilidade dos laboratórios e instituições que fazem ciência como as universidades, a Anvisa, o Butantan e a Fiocruz”, pontua.
BUSCA ATIVA POR ALUNOS
Se na saúde a pandemia pressionou o sistema ao colapso, na Educação ela foi responsável pelo esvaziamento das escolas e o aprofundamento de uma desigualdade no acesso à educação. Enquanto as escolas tiveram que se adequar ao modelo de educação a distância, para não paralisar o aprendizado por completo, a questão econômica se tornou ainda mais determinante no processo de aprendizagem.
Em 2019, 40 milhões de brasileiros não tinham acesso à internet. Entre os alunos de escolas pública, esse percentual era de 83%, segundo o IBGE. Dados que são o pano de fundo do alto número de alunos que abandonaram os estudos durante a pandemia, ou que não receberam atividades escolares durante o período.
1,5 milhão
Número de crianças e adolescentes que abandonaram a escola até novembro de 2020
A busca ativa desses alunos e o investimento para mantê-los nas escolas deve ser a meta prioritária dos próximos governantes e legisladores, para a pós-doutora em Educação e professora da Ufes Cleonara Schwartz. "A pandemia tornou mais evidente o que todo mundo já sabia que é a desigualdade de acesso e permanência na educação", assinala.
Além disso, houve o enxugamento do conteúdo ensinado, deixando de fora aprendizados importantes que precisam ser resgatados. Para isso, a educadora defende a autonomia das comunidades escolares para elaborar programas de recuperação que levem em consideração as especificidades de cada unidade escolar.
"Se o governante efetivamente quer promover a aprendizagem dos estudantes nas diferentes etapas, em função do que não foi possível desenvolver na pandemia, será necessário apostar em uma gestão democrática das unidades escolares que vai fomentar a elaboração de programas específicos para cada unidade escolar
"
Outro ponto de suma importância para avançar, ressalta a doutora em Educação Gilda Cardoso, é uma união de esforços entre governo federal, estadual e municípios, principalmente porque a educação básica infantil, que é de responsabilidade dos municípios, figura entre as maiores preocupações dos educadores, uma vez que a queda de arrecadação na pandemia e a crise econômica afeta diretamente na capacidade de investimento das prefeituras.
"A preocupação maior é que educação inicial está sob responsabilidade dos municípios que menos arrecadam e não tem tanta capacidade institucional no manejo dos recursos. Vamos precisar de uma articulação com a união para prover esses municípios de assistência técnica, além de assistência financeira. Se continuar essa política de competição vai ficar muito complicado", salienta.
INVESTIMENTO DO ESTADO E REFORMAS
A economia brasileira sofreu um grande baque durante a crise sanitária. Com comércios fechados para evitar a propagação do vírus e uma economia mundial em crise, o país colheu amargos índices de desemprego e um encolhimento de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB), maior recuo desde 1996.
14,4 MILHÕES
Pessoas desempregadas no Brasil em abril de 2021
O tombo só não foi maior devido ao auxílio emergencial, pago pelo governo federal após protagonismo do Congresso, que impediu que o encolhimento do PIB fosse de 8,4% a 14,8%, segundo um estudo desenvolvido pelo USP.
O caminho da recuperação, para a doutora em Economia e professora da UFRGS Gláucia Campregher, passa por mais investimento do Estado. A professora defende que em momento de crise em que o mercado privado evita gastar dinheiro, é preciso que o Estado "puxe os gastos" por meio de investimentos como a construção de hospitais e escolas.
"Precisa que a União gaste para recuperar hospitais, recuperar a quantidade de profissionais de saúde, invista nos Estados para investir em setores estratégicos como energia. Quando o Estado gasta comprando, ele compra de quem? Compra da iniciativa privada, o que gera emprego e leva as empresas a investirem também", assinala.
A economista cita como exemplo países que já estão focados na retomada do crescimento econômico, como Japão e Estados Unidos. O presidente norte-americano, Joe Biden, anunciou um pacote de investimentos federais de U$ 3 trilhões. E o Japão mantém uma divida em relação ao PIB que chega a 200%, devido a sua credibilidade diante dos credores internacionais.
Essa premissa, no entanto, não envolve exageros e sim "gastos" que elevam o desenvolvimento econômico, por exemplo gastar em energia renovável, pondera a professora. "Falam que não tem dinheiro, mas de repente reajustam salários, por exemplo", questiona.
"Quem está interessado que o país cresça vai ter que aceitar que terá que fazer gastos. Dá para sair da crise? Dá. Investindo e injetando dinheiro na economia"
O controle dos gastos do governo poderia ser feito, para o doutor em Economia e professor da FGV Mauro Rochlin, com a aprovação da reforma administrativa e a reforma tributária que tramitam no Congresso. Uma das propostas é a revisão salarial dos cargos públicos, para acabar com super salários e outros benefícios que distanciam o serviço público da realidade do mercado privado.
O professor defende uma reforma tributária que "desonere a produção" e incidisse de forma mais agressiva na renda, "principalmente nas grandes rendas". Rochlin dá o exemplo da taxação de lucros e dividendos.
Segundo uma pesquisa realizada pelo Ipea, em abril de 2019, a instauração dessa tributação poderia acarretar um aumento de até R$ 39 bilhões em arrecadação e diminuir a desigualdade na distribuição de renda.
Além disso, a manutenção de programas de renda básica – como foi o auxílio emergencial – podem ser mantidos. "Programas de transferência de renda que atendem os mais pobres deveriam continuar. Mas isso não é suficiente para gerar emprego e crescer a economia", pontua.
Para governadores e deputados estaduais que serão eleitos, as estratégias para recuperação econômica são mais engessadas, como pontuam os dois economistas. Apesar de poder investir em programas de desburocratização e incentivo aos investimentos, a responsabilidade da retomada do desenvolvimento econômico brasileiro pesa, majoritariamente, sobre governo federal e o Congresso.