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Pequena a representatividade feminina nos legislativos.
Maioria na população, mulheres ocupam poucas cadeiras nas Câmaras municipais Amarildo
Mulheres na política

Em 48 anos, cidades da Grande Vitória só tiveram 29 vereadoras

Levantamento de A Gazeta mostra que apenas 4% das cadeiras em Câmaras municipais foram ocupadas por mulheres em todo este período

Ana Clara Morais

Repórter de Política

amorais@redegazeta.com.br

Publicado em 22 de Agosto de 2020 às 07:00

Publicado em

22 ago 2020 às 07:00
Pequena a representatividade feminina nos legislativos.
Maioria na população, mulheres ocupam poucas cadeiras nas Câmaras municipais Crédito: Amarildo
As mulheres são cerca de 51% da população do Espírito Santo, de acordo com o IBGE, mas basta olhar a representação delas no espaço político para perceber que, historicamente, foram jogadas para escanteio. Nos últimos 48 anos, dos 771 vereadores eleitos nas Câmaras das principais cidades da Grande Vitória (VitóriaVila VelhaSerra e Cariacica), apenas 29 eram mulheres. Isso representa 4% do Legislativo municipal desse período. Ou seja, 96% das cadeiras foram ocupadas por homens.
Os dados fazem parte de um levantamento realizado por A Gazeta com base em informações disponibilizadas pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-ES). Foram consideradas 12 eleições, realizadas de 1972 a 2016. Vereadores suplentes que, eventualmente, vieram a exercer mandatos em substituição aos titulares de 1973 a 2020, não foram contabilizados.
A primeira mulher a assumir um cargo no Legislativo municipal no Brasil foi eleita em 1935, no interior do Espírito Santo. Neném de Paiva, como era conhecida, ocupou, por dois anos, uma cadeira na Câmara de Muqui, abrindo portas para outras mulheres na política.
No entanto, de lá pra cá, a representatividade feminina na política capixaba não avançou de forma significativa. Hoje, um total de 74 vereadores compõem o Legislativo nas principais cidades da Grande Vitória, mas apenas sete são mulheres.
Cariacica é, historicamente, o município com menor número de vereadoras. Em quase 50 anos, quatro mulheres e 189 homens foram eleitos para a Câmara municipal. Todas só assumiram mandatos após os anos 1990.
Entre elas está Ilma Siqueira, vereadora pelo PSDB e atualmente a única mulher na Casa. Juntamente com Noêmia da Costa, a Noêmia de Bandeirantes, elas foram as pioneiras no Legislativo da cidade, em 1992. Naquela época, os preconceitos, que ainda existem, eram maiores. E a presença feminina na política incomodava muita gente.
"Eu era a única mulher candidata pelo meu partido e acho que a Noêmia também era. Tinha muito assédio, preconceito, não tinha incentivo. As pessoas achavam que a gente estava ali para atender aos caprichos dos homens. Era um ambiente muito machista. As próprias mulheres me questionavam se eu ia abandonar minha casa, minha família. Não achavam que a política também era o nosso lugar", lembra.
Vereadora por dois mandatos em Vila Velha, a ex-senadora Ana Rita Esgário (PT) também enfrentou preconceitos na política por ser mulher. Ela foi uma das dez mulheres eleitas para ocupar uma cadeira do Legislativo na cidade nos últimos 48 anos. Muitas vezes foi preciso "bater na mesa" para se fazer ouvida.
"Os vereadores, de modo em geral, tinham um olhar de muito preconceito em relação à participação da mulher, por causa da nossa atuação, que ia contra a muitas práticas deles na Câmara", conta.
"Eles questionavam todos os meus pronunciamentos, retrucavam as minhas falas, me colocavam em uma situação de desconforto. Eu tive, muitas vezes, que ser firme e me impor"
Ana Rita Esgário (PT) - Ex-vereadora de Vila Velha e ex-senadora suplente
A falta representatividade feminina no espaço político pode ser explicada por diversos fatores, de acordo com a cientista política e professora da UnB Danusa Marques. Os motivos vão desde uma estrutura de sociedade que não enxerga a mulher em espaços de poder até uma resistência das próprias mulheres, que precisam enfrentar mais obstáculos para chegar ao mandato.
Para a professora, a sociedade foi fundada por um viés de gênero que "privilegia homens". Essa relação pode ser observada em diferentes espaços de poder, sendo reproduzida, também, nas instituições políticas e partidárias. "O que deixa mais difícil para mulheres a participação política que, inclusive, já foi até proibida", aponta.
Nesse contexto, as mulheres costumam não se enxergar nos locais de tomada de decisão, como é o caso da política. "Acaba que elas não querem assumir lideranças políticas por não se sentirem pertencentes a esse lugar", assinala a cientista política Dayane Santos, que pesquisou a participação feminina no Legislativo.
Fator preponderante, também, é o acúmulo de funções que as mulheres já possuem. Vereadora da Serra entre 1989 e 1992, a ex-deputada estadual Brice Bragato (PSOL) lembra da dificuldade que enfrentou para conciliar a vida política e pessoal durante o mandato. Para ela, a sobrecarga que é imposta às mulheres é um empecilho para quem quer se dedicar à carreira política.
"A mulher tem uma carga muito grande. Eu era mãe, assistente social, vereadora, dona de casa. Eu pude contar com a solidariedade de muita gente, mas nem toda mulher tem uma rede de apoio"
Brice Bragato (PSOL) - Ex-vereadora da Serra
"Isso acaba impedindo que elas se dediquem a outras coisas, como uma carreira política. A política não foi feita pensando nas mulheres e impõe muralhas para que elas ocupem esse espaço", complementa Brice.
Brice é uma das 10 mulheres eleitas vereadoras na Serra em quase 50 anos. No município, 180 homens ocuparam uma cadeira do Legislativo no mesmo período.

DIFICULDADES PARA SE ELEGER E EXERCER O MANDATO

A predominância de homens na política também passa pelo fato de as candidaturas das mulheres serem preteridas pelos partidos e receberem menos recursos. Por acreditarem que não há espaço para elas nesse ambiente, ou que ele deve ser reduzido, as siglas investem pouco ou quase nada nas candidaturas femininas.
O objetivo, muitas vezes, é apenas cumprir a cota de gênero. Com isso, as mulheres acabam ficando com a menor porção que, com frequência, é preenchida por candidaturas laranjas, sem condições reais de serem eleitas.
Sem investimento e incentivo dos partidos, as mulheres acabam concorrendo de forma desigual com os homens. A desigualdade, contudo, não é apenas na campanha eleitoral. No exercício do mandato, elas em raros casos conseguem exercer posições de destaque nas Câmaras.
Por terem uma visão mais ampla e social, muitas vereadoras acabam propondo projetos relativos a saúde, educação, crianças e adolescentes. A pesquisadora Dayane Santos, alerta, no entanto, que não se pode delegar essa responsabilidade apenas a mulheres. Por trás disso, há uma postura dos homens de concentrar, nas mãos deles, a tomada de decisões.
"As mulheres realmente estão nesses debates e isso é muito importante. Mas precisamos nos perguntar se elas estão nesses lugares por vontade delas ou por ser o que sobra. Por que não estão em discussões de orçamento, tributação, espaços de coordenação? É escolha ou foi imposto pelo jogo político?", questiona.
"Não te colocam na direção de uma Comissão de Justiça, de Finanças, por exemplo. Para mulher sempre sobra a Comissão de Educação, a do Idoso"
Neuzinha de Oliveira (PSDB) - Vereadora de Vitória
"Os homens não acham que a mulher tem condições de participar e debater, de tomar decisões importantes", avalia Neuzinha de Oliveira (PSDB). 
A parlamentar é uma das cinco mulheres eleitas vereadoras na Câmara da Capital nos últimos 48 anos.

A DIFERENÇA QUE ELAS FAZEM

A importância de ter mais mulheres – e mais diversidade de mulheres – no Poder Legislativo vai além de representatividade numérica. O fato de que elas são a maioria da população capixaba e a minoria nos espaços políticos mostra que a decisão de pautas importantes, inclusive as que dizem respeito a gênero, são discutidas e votadas sob a perspectiva de uma maioria esmagadora de homens.
Para políticas que exerceram mandatos, as próprias razões que as levaram a concorrer se mostram importantes. Elas acreditam que, no geral, mulheres buscam a carreira política porque têm causas e bandeiras, e não para conquistarem poder ou prestígio, já que sabem que dificilmente vão obtê-los.
"A mulher, quando entra na política, entra por causas, incômodos, não é pelo poder. E ela vai com garra, com vontade genuína de mudar a realidade. Ela tem uma percepção e uma sensibilidade de conseguir enxergar, de forma ampla, aquilo que falta para as pessoas, para a cidade"
Jaqueline Moraes (PSB) - Vice-governadora e ex-vereadora de Cariacica
Para Dayane Santos, a visão da mulher traz o debate da diversidade para o Legislativo e essa diversidade é fundamental para representar o que temos na sociedade. "A sub-representação feminina é um indicativo de uma cidadania que as mulheres não estão vivendo de forma plena", ressalta.
Confira abaixo todas as mulheres eleitas vereadoras nos últimos 48 anos nas principais Câmaras municipais da Grande Vitória.

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