A sessão da Câmara de Santa Maria de Jetibá, na região Serrana do Espírito Santo, segue o mesmo rito de outros legislativos municipais. Mas o discurso do vereador Teida Hammer (PSD) indica que há algo diferente: "Gunachdt!", diz o parlamentar logo no início.
É muito provável que uma pessoa de fora da cidade não saiba o que "Gunachdt" significa, nem sequer compreenda o pronunciamento do vereador, todo feito na língua pomerana. Mas para 90% dos cerca de 40 mil moradores de Santa Maria de Jetibá, que são bilíngues – alguns aprenderam a falar o pomerano antes mesmo do português –, o "Boa Noite" de Teida, na sessão da Câmara, é uma das formas de valorizar a cultura local.
"Praticamente todos os moradores da cidade falam pomerano, é uma forma de preservar a língua que é mais utilizada. Eu sou o representante da terceira idade na Câmara que, assim como eu, só teve contato com o português na escola", afirma o vereador, que está no primeiro mandato.
A entrevista de Teida para a reportagem de A Gazeta foi feita com a ajuda do assessor Jean Pierre Buss, já que o parlamentar tem dificuldade para entender alguns termos em português, apesar de ler e escrever na língua. Assim como a maioria dos moradores de Santa Maria de Jetibá, Teida se sente mais à vontade falando em pomerano.
"Ele entende o português, mas o pomerano é a língua que dá mais segurança a ele para se comunicar. É diferente de mim, que sou de uma outra geração e falo português dentro de casa. Então, acabo ajudando ele nessas questões mais técnicas e ele faz esse diálogo com a população", conta Jean.
O pomerano é uma variante do alemão e foi trazido para o Brasil na segunda metade do século XIX por imigrantes da região da Pomerânia. O território, que pertencia à Prússia, foi extinto logo após a Segunda Guerra Mundial.
Na Europa, a língua já não existe mais, diferentemente do Brasil, onde ela é preservada até hoje em alguns municípios. Há comunidades pomeranas em cidades capixabas como Pancas, Laranja da Terra, Vila Pavão e também em outros Estados, como Santa Catarina.
Mas é de Santa Maria de Jetibá o título de cidade mais pomerana do país, onde, desde 2009, o pomerano é considerado o idioma cooficial do município, ou seja, com o português, compartilha o status de oficialidade.
Pesquisas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) mostram que 85% das pessoas que moram em Santa Maria de Jetibá têm mais facilidade para falar o pomerano. Na zona rural, esse número é ainda maior e chega a quase 100%, segundo o professor da área de Linguística e Educação Erineu Foerste.
"É uma questão que está bastante relacionada à organização da vida da população, 90% são descendentes de pomeranos", afirma.
"A língua pomerana faz parte do cotidiano dos moradores, é a que eles falam no comércio, na igreja, dentro de casa. Para quem mora no campo, o contato com o português é ainda mais raro"
POMERANO É PERMITIDO NAS SESSÕES, MAS COM TRADUÇÃO
Teida não é o único vereador a levar a língua para o Legislativo municipal, apesar de ser considerado pelos colegas como um "pomerano nato". A classificação, nesse caso, não é feita ao pé da letra, já que não há mais no Espírito Santo pomeranos natos vivos, vindos da região da Pomerânia. Mas como Teida prefere se comunicar com os outros parlamentares em pomerano, foi dado esse "título" a ele.
Dos 13 vereadores que compõem a atual legislatura da Câmara de Santa Maria de Jetibá, apenas um não fala pomerano, apesar de compreender. Além disso, 90% dos servidores da Casa falam a língua e, entre os 13 assessores parlamentares, somente dois não falam, nem entendem nada do idioma.
O uso do pomerano, no entanto, só é permitido na fase das comunicações. Os projetos de lei têm que ser escritos e discutidos em português, como manda o Regimento Interno da Câmara.
"Não há problema nenhum em falar pomerano, pelo contrário, a gente fica muito feliz quando um vereador faz isso. O que a gente sempre pede é que, ao falar na língua, o vereador traduza para o português, porque pode ter pessoas assistindo à transmissão que não vão entender", explica o presidente da Câmara, Mazinho Thom (PSC).
A vereadora Selene Jastrow (PSB), uma das mais antigas da Casa, costuma usar os dois idiomas – português e pomerano – para fazer pronunciamentos na tribuna desde o primeiro mandato, em 2013. Ela acredita que é uma forma de representar e alcançar toda a população da cidade.
"As nossas sessões são transmitidas na rádio, que é muito ouvida pelo público mais idoso. São pessoas que ou só falam em pomerano, ou o mantêm como língua principal. Então, quando a gente fala em pomerano na Câmara, essas pessoas entendem, se identificam e ficam orgulhosas, porque é a nossa história."
Assim como Selene, o vereador Ilimar Vesper (Patriota) também usa as duas línguas na tribuna. Geralmente, ele começa falando em português, avisa que vai falar em pomerano e repete o discurso. Segundo Ilimar, ele prioriza comunicados relacionados à Covid-19, que julga mais importantes.
"É nossa missão passar a informação da forma que as pessoas entendam mais fácil, principalmente neste momento que precisamos orientá-las sobre isolamento, medidas de higiene como uso de máscara e álcool gel e protocolos sanitários em relação à pandemia de Covid-19", afirma.
PRESERVAÇÃO DA CULTURA
Na avaliação do professor Erineu Foerste, o pomerano está diretamente associado à autoestima das pessoas que vivem na cidade e buscam preservar a cultura e a tradição de onde vieram. Diversos projetos têm sido feitos com esse objetivo, como o ensino da língua nas escolas, já que há riscos de o idioma se perder.
"Hoje, a língua pomerana é a primeira língua dos moradores de Santa Maria de Jetibá, mas as pesquisas já mostram que há riscos de que isso se perca com as próximas gerações. Por isso, é muito importante que o pomerano seja usado na elaboração de políticas públicas", destaca.
"A Câmara Municipal é um espaço de poder para representar a população. Quando você leva a língua pomerana para dentro dela, você mostra que os moradores de Santa Maria de Jetibá, em toda sua totalidade, estão representados ali", finaliza.