Oásis de arrecadação de recursos provenientes do petróleo, a prefeitura de Presidente Kennedy, no Sul do Espírito Santo, faz a vida da população girar em torno da administração municipal.
Além dos benefícios que a fortuna do petróleo permite oferecer, como o Gazeta Online mostrou, o Poder Executivo local é algo que sempre está no imaginário dos moradores em busca de uma vaga de trabalho.
Com pouco mais de 11 mil habitantes, a administração tem 1,3 mil pessoas em sua folha de pagamento, segundo o Portal da Transparência de Kennedy. Desses, também de acordo com o portal, apenas 161 são comissionados, os cargos de livre escolha e nomeação.
Os espaços limitados contrastam com um fato confirmado em entrevista pelo próprio prefeito interino, Dorlei Fontão (PSD): a romaria diária de munícipes à prefeitura é, sobretudo, em busca de empregos.
Se não há vagas para todos, é de se pensar sobre como o poder público os contempla. Questionado se a prefeitura influencia as empresas prestadores de serviços ao município para que contratem essas pessoas, Dorlei não negou.
"Eu não posso afirmar. Nunca participei dessas reuniões com empresários. Até hoje tem vários empresários que trabalham na cidade que eu não conheço ainda. Outro dia teve um me procurando aqui, mas eu falei que lugar de conversar é na obra", disse.
Mas será que era assim antes de ele assumir? "Não sei se foi sempre assim, porque eu não estava no dia a dia com eles (da cúpula da prefeitura. Às vezes ficava 40 dias, até 60 dias sem ver a prefeita", respondeu.
Vice-prefeito, Dorlei assumiu a cidade após a prefeita Amanda Quinta (PSDB) ser presa e afastada do cargo na Operação Rubi no dia 8 de maio. Ela é acusada pelo Ministério Público Estadual (MPES) de participação em esquema de fraudes em contratos e recebimento de propinas. O companheiro dela, José Augusto de Paiva, é apontado como líder do esquema.
NAS RUAS
Para entender como a operação repercutiu na cidade, a reportagem foi a Presidente Kennedy na semana passada.
Populares ofereceram uma série de indícios de que ter bom trânsito na prefeitura é importante para conseguir emprego formal no município, junto a empresas de alguma forma ligadas à administração.
A dona de casa Marta dos Santos, 53, considera ótima a gestão de Amanda Quinta, para ela também "um grande ser humano". O marido de Marta trabalha em empresa responsável pela limpeza pública de Kennedy.
"Amanda é uma boa prefeita. Se não fosse ela, não sei o que seria da gente. Ela dá muito serviço", disse, antes de ser questionada se o marido dela também havia sido "ajudado" pela prefeitura: "Ela deu uma força para ele, sim".
Creuzineia de Matos, 30, tem uma visão um pouco diferente sobre o desempenho da prefeitura. "Foi uma sacanagem o que fizeram com o nosso município. Achei um absurdo. O vice-prefeito tem que tentar consertar alguns erros", disse.
Ela é funcionária com contrato temporário com a prefeitura. Por isso sente-se um pouco mais à vontade para manifestar opinião. Confirmou que, se comissionada fosse, evitaria falar à reportagem.
Outros indícios da influência da prefeitura sobre o cotidiano estavam no sem-número de negativas de entrevista colhidas pela reportagem. Bastava apresentar o assunto aos abordados que a gentileza da recepção se dissipava. Era como se houvesse ao menos uma lei do silêncio informal, algo que ninguém aprovou, mas que é melhor seguir, por via das dúvidas.
E a "pressão" não foi constatada apenas sobre os servidores comissionados. Um técnico da prefeitura, com contrato temporário, até manifestou sua insatisfação por ter que se submeter diariamente à poeira de obras centrais paradas. Contudo, o ex-morador da Grande Vitória e há pouco tempo na cidade, temia ser identificado. "Por favor, não coloque meu nome aí de jeito nenhum. Se colocar, no outro dia posso ser mandado embora", disse.
Na praça central da cidade, uma funcionária de empresa que presta serviço de limpeza nos equipamentos de saúde desfiou um rosário de críticas à gestão. Saiu-se com esta ao negar-se a formalizar a entrevista: "Quem falar pode perder o emprego. Você vai me dar outro depois? Aqui, eles dão algumas coisas para te tirar alguns direitos".
Outra funcionária de empresa prestadora de serviço à prefeitura garantiu que na família dela gente já perdeu o emprego por ter cumprimentado o ex-prefeito Reginaldo Quinta (DEM), tio e adversário de Amanda, na campanha de 2016.
JOVENS NÃO VEEM FUTURO NA CIDADE
Não é fácil ser jovem em Presidente Kennedy. O ginásio com portas fechadas e o lazer precário são os menores dos problemas. Há uma grande preocupação com o futuro, com as oportunidades que possivelmente não terão.
Os que não pretendem trabalhar no campo têm chances restritas. A prefeitura é sempre uma opção a ser levada em conta. Para além disso, não sobra muita coisa. Não há uma gama de empresas de referência ou algo que faça brilhar os olhos dos que ainda vão buscar o mercado de trabalho.
A prefeitura ataca o problema da mão de obra sem especialização enviando alunos para faculdades de Cachoeiro de Itapemirim e de Campos, no Rio de Janeiro.
Todos os dias, no fim da tarde, uma leva de ônibus parte para essas cidades com os estudantes. As mensalidades e o deslocamento também são gratuitos. Tudo é custeado pela prefeitura, graças aos royalties do petróleo.
Para ter direito ao benefício, é preciso, entre outras coisas, morar há pelo menos oito anos em Kennedy.
Natan Reis, 19, está no primeiro período de Odontologia. Não paga nada para estudar em Cachoeiro. "Não teria como fazer, se não fosse o serviço. Depois, para conseguir trabalho, talvez tenha que ir para fora", disse.
Gabriel Viana tem 21 anos, estuda Biologia em Cachoeiro e usa um dos 19 ônibus que saem diariamente com destino à cidade vizinha. Diz que, não fosse o serviço, ele e vários outros jovens não teriam a chance de cursar uma faculdade.
Ele pretendia estudar Medicina. No entanto, mesmo com a prefeitura custeando os estudos, cada um deve pagar do próprio bolso o vestibular. Seria uma despesa de R$ 600, algo impraticável para ele.
"A população é subdesenvolvida, com muitos semianalfabetos. O serviço ajuda muito. Se não fosse isso, não teria como (estudar). Já que a prefeitura tem royalties, consegue fazer", contou.
No quinto período de Biologia, a preocupação já é com o mercado de trabalho. "Quando me formar, posso trabalhar com educação. Quando puder, quero trabalhar na área. Isso aqui tem que crescer, não pode ficar assim", ponderou.
Como os horários do Transkennedy, o "Transcol gratuito" da cidade, são restritos, os moradores permanecem bastante tempo na praça da rodoviária esperando o tempo passar.
Vez ou outra surge um trabalho na roça durante essas esperas. É o que conta Paulo César Rodrigues, 30, que ainda não está há oito anos na cidade para pedir um curso gratuito.
"A questão aqui é falta de emprego. Não tem shopping, não tem firmas. Às vezes, estamos aqui e passa alguém procurando uma pessoa para algum serviço. Eu me ofereço", contou.
Marcos Júnior, 22, também reclama da falta de oportunidades. "Faz um ano que moro aqui. Para mim, só tem oportunidade de trabalhar na roça", explicou.
Para fomentar negócios na cidade, a prefeitura aportou R$ 50 milhões no Fundesul, o fundo de desenvolvimento da região Sul. Para Euller Mota, 19, era uma oportunidade.
Ele buscou um empréstimo de R$ 30 mil para investir em sua lanchonete. Por um ano, pagará somente os juros. Com ele, trabalham uma tia e um entregador. "O ramo de alimentação está em alta. Acho que vou conseguir pagar o empréstimo, sim", frisou.
O principal incentivador do Fundesul foi José Augusto de Paiva, ex-secretário de Desenvolvimento. Ele está preso, acusado pelo Ministério Público Estadual (MPES) de comandar esquema de fraude e propinas no município.