Entre março e abril de 2021, no pico da segunda onda da pandemia de Covid-19, quando o Espírito Santo ficou 35 dias seguidos com mais de 90% dos leitos de UTI para Covid ocupados, hospitais filantrópicos, privados e de organizações sociais ficaram muito perto de zerar o estoque de medicamentos para intubar pacientes.
Documentos encaminhados pela Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) à CPI da Covid, no Senado, mostram que em um intervalo de 23 dias o Estado trocou ofícios com o Ministério da Saúde para coordenar a reposição dos medicamentos para os leitos contratatos nessas redes pelo SUS. Com os pedidos recusados, o governo estadual recorreu até mesmo ao mercado internacional para comprar os remédios e reabastecer hospitais.
Foram três ofícios enviados, entre os dias 23 de março e 15 de abril. No último deles, assinado pelo secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, a Sesa alertou que 414 leitos de cinco unidades das redes filantrópica e privada ou geridas por organizações sociais correram o risco de ficar sem medicamentos para intubar pacientes. Na ocasião, 94% dos leitos de UTI estavam ocupados e havia medicamentos suficientes apenas para as 48 horas seguintes.
De acordo com a Sesa, a escassez era dos remédios fentanil, midazolam, propofol e roncurônio. São compostos que têm efeito sedativo e analgésico e servem para relaxar a musculatura e a caixa torácica, permitindo que os pacientes suportem a ventilação mecânica, considerada dolorosa e invasiva.
Sem eles, há o risco de os intubados acordarem e, em um gesto instintivo, tentarem retirar o tubo da garganta com as próprias mãos, o que pode causar sérios danos à saúde. Em alguns lugares pelo país, médicos chegaram a amarrar os pacientes para evitar que se machucassem, na falta dos medicamentos.
No Espírito Santo, os hospitais com níveis críticos de desabastecimento eram o João dos Santos Neves, em Baixo Guandu; a Santa Casa de Misericórdia e o Evangélico de Cachoeiro de Itapemirim; o Menino Jesus, em Itapemirim; a Santa Casa de Misericórdia de Colatina; o Materno Infantil Francisco de Assis, em Guarapari; e o Vila Velha Hospital. Os leitos que correram o risco de ficar desabastecidos eram contratados pelo governo estadual e fazem parte do SUS.
À CPI, o secretário escreveu que "o apoio da União era indispensável, a fim de evitar a inviabilização do atendimento dos 414 leitos". Em nota à reportagem, a Secretaria de Saúde culpou a "falta de planejamento e coordenação nacional junto à indústria farmacêutica" pela pane no abastecimento dos medicamentos em todo o país. As dificuldades foram enfrentadas em todos os Estados.
Apesar de chegar perto do limite de abastecimento, a Sesa informou à reportagem que nenhuma vaga de UTI dedicada à Covid precisou ser suspensa por falta de medicamento, tanto nos hospitais públicos, quanto nos filantrópicos, privados e geridos por OS. "A Sesa realizou empréstimos para unidades filantrópicas, privadas e Organizações Sociais, de compras que foram feitas no mercado nacional e uma grande compra internacional foi efetivada para superar o grave momento vivido", diz a nota.
A resposta do Ministério da Saúde aos ofícios foi, segundo a secretaria estadual, "de indeferimento", ou seja, não atendeu aos pedidos feitos.
"INCOERÊNCIA": FALTA DE ALGUNS MEDICAMENTOS E EXCESSO DE OUTROS
Em um dos ofícios, do dia 8 de abril, Nésio Fernandes apontou “incoerência” na distribuição dos medicamentos. Algumas substâncias solicitadas não foram enviadas, enquanto outras que não estavam em falta eram remetidas. "Para nosso Estado, observamos incoerência, sendo que recebemos alguns itens nos quais o Estado possui consumo baixo ou inexistentes com estoque considerável (exemplo: atracúrio, ampola de 5mL) e outros itens com consumo alto e estoque baixo (exemplo: midazolam) que não foram entregues ou em quantidade irrisória", escreveu.
O atracúrio, enviado em excesso ao Espírito Santo, foi um dos medicamentos que fez falta em outros Estados. Ele atua no bloqueio neuromuscular dos pacientes. Já o midazolam, remetidos em quantidade insuficente, é considerado um dos remédios de maior consumo nas UTIs para Covid-19. A média para cada leito é de 34 doses por dia.
Os documentos enviados pelo Estado à CPI da Covid atendem a um requerimento do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), encaminhado a todos os Estados brasileiros. A comissão tem como objetivo investigar ações e omissões do governo federal no combate à pademia, bem como a aplicação dos recursos da União enviados a Estados e municípios.
OUTRO LADO
O Ministério da Saúde foi procurado para se manifestar sobre os ofícios enviados pela Secretaria da Saúde do Espírito Santo, mas, até a publicação desta reportagem, não respondeu os questionamentos.