A baixa representatividade de mulheres no Legislativo pode ser percebida desde as Câmaras Municipais até o Congresso Nacional, passando pelas Assembleias Legislativas. Nos últimos 48 anos, dos 771 vereadores eleitos nas cidades de Vitória, Serra, Vila Velha e Cariacica, apenas 29 foram mulheres, conforme mostrou levantamento realizado por A Gazeta. Nesse mesmo período, somente 13 mulheres foram eleitas deputadas estaduais no Espírito Santo e nove chegaram a Brasília.
Rose de Freitas (Podemos) é uma das poucas mulheres que ocuparam cadeiras no Legislativo estadual e no Congresso. Ela foi a primeira – e única – representante capixaba feminina eleita ao Senado. A cadeira foi conquistada há apenas seis anos, em 2014. A diferença em relação aos homens é enorme, já que eles ocupam esse espaço desde 1945.
"Exercer a carreira política foi algo bem difícil para mim, porque logo no início do meu mandato, eu engravidei. E eu era uma mulher no meio de 29 homens na Assembleia. Eles não entendiam as demandas das mulheres", lembra.
Quatro anos depois, Rose foi para Brasília. Ela conta que teve ajuda da família para que pudesse exercer o mandato como deputada federal ao mesmo tempo que criava os filhos. No Congresso Nacional, também encontrou uma bancada feminina muito pequena, o que, segundo ela, refletia os desafios que as mulheres encontram para exercer uma carreira política.
"Sempre tivemos que lidar com acúmulo de funções, preconceito, sobrecarga, diversas tarefas. A sociedade nunca tornou fácil para que a gente tivesse uma atividade política"
Myrthes Bevilacqua, primeira mulher eleita deputada federal pelo Estado, também se recorda dos desafios que enfrentou ao chegar em Brasília. Ela conta que não teve preparo do partido para exercer o cargo, o que dificultou ainda mais o exercício do mandato.
"Eu era sindicalista, não era política. Entrei na Câmara sem saber como funcionava. Foi um mandato muito difícil, eu era baixo clero, sem experiência. Mas tinha também muito preconceito por eu ser mulher. Os homens do meu partido se reuniam dentro do banheiro para decidir os projetos que iam entrar em votação. Eles só traziam as decisões e falavam como era para votar", diz.
"Cheguei a exercer vários cargos em comissões, mas sempre como vice-presidente, nunca me deixaram chegar na presidência lá dentro, nem mesmo naqueles assuntos da área trabalhista, que eu detinha conhecimento"
Além de Rose e Myrthes, outras sete mulheres chegaram a Brasília como deputadas federais. Dessas, a maioria com um capital político valioso para quem quer trilhar a carreira política, independentemente do gênero: o familiar. São mulheres que carregam no próprio sobrenome a influência política de maridos ou parentes que encabeçaram a carreira resultando em um cenário mais favorável para cônjuges e descendentes.
Danusa Marques ressalta, no entanto, que isso não significa que elas não tenham enfrentado dificuldades, mas que esse capital político familiar, comum para homens e mulheres, acaba sendo mais decisivo na hora de se eleger, o que resulta em uma representatividade que não espelha a diversidade.
"Essas mulheres continuam na lateral das altas rodas, mas em lugares que possibilitam o vislumbre de uma carreira política, o que mulheres negras, indígenas e de fora dos ciclos políticos não têm", pondera. O ambiente familiar faz com que tenham mais facilidade por saber o que é política e contar com apoio conquistado, anteriormente, por homens.
A baixa diversidade, contudo, não tira a importância desses poucos lugares ocupados, esclarece a professora. "Acredito que tem mulheres que partem da experiência enquanto mulher para construir uma visão política, mesmo que elas sejam de uma família política como marido ou pai. Não tira o mérito. Independentemente da família, é um fato marcante ser mulher na política."
Confira abaixo todas as mulheres eleitas para o Legislativo municipal, estadual e federal em quase 50 anos. Para visualizar, arraste para o lado:
