Iniciado há 11 dias, o novo governo de Renato Casagrande (PSB) no Espírito Santo, o seu terceiro à frente do Palácio Anchieta, começou com um mote de continuidade e poucas mudanças. Prova disso é a manutenção de 18 dos 26 secretários estaduais da gestão encerrada no último sábado (31). Além disso, o time do primeiro escalão tem de volta nomes que já atuaram em pastas do governo, sobretudo em gestões anteriores do socialista.
Entre os que ficam e os que voltam, a nova equipe que está no comando das ações no Espírito Santo acabou tendo na formação novos velhos nomes, bem conhecidos de quem acompanha a política capixaba. Para especialistas, essa composição sinaliza um governo de continuação, mas com alguns gestos de Casagrande ao eleitorado, sobretudo de direita.
Após uma eleição polarizada, com a decisão do comando do Palácio Anchieta indo para o segundo turno no Espírito Santo pelo primeira vez após 28 anos, e uma vitória com margem apertada – Casagrande conquistou 53,6% dos votos no segundo turno –, a figura do vice-governador Ricardo Ferraço (PSDB) e a sua ascensão ao posto de supersecretário acabou sendo uma das principais mudanças da gestão e um aceno aos mais conservadores.
Esses acenos começaram antes, já na disputa eleitoral do segundo turno, de olho na conquista de votos em um Estado de maioria bolsonarista. Casagrande adotou uma estratégia de buscar apoio de figuras políticas com posições antagônicas a princípio, recebendo apoios de figuras que nacionalmente eram eleitores do agora ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Além de Ferraço, que já foi secretário de Estado no governo de Paulo Hartung (sem partido), voltaram ao primeiro escalão do Executivo estadual no governo Casagrande 3 os nomes de Enio Bergolli (Agricultura), André Garcia (Justiça) e Alexandre Ramalho (Segurança).
Entre as novidades no secretariado, há mais figurinhas repetidas. Jacqueline Moraes (PSB), que foi vice-governadora na gestão anterior de Casagrande, foi contemplada na nova gestão e nomeada para chefiar a recém-criada Secretaria de Políticas para as Mulheres. Outro aceno de Casagrande ao eleitorado que ajudou a pavimentar o caminho até a vitória nas urnas.
Na avaliação do cientista político João Gualberto, a equipe montada por Casagrande é majoritariamente a repetição do mandato anterior com um ponto de inflexão em direção às classes produtoras e ao eleitorado evangélico. Ele analisa que o vice-governador Ricardo Ferraço saiu maior após o segundo turno, em que era preciso conquistar votos da direita, e também na montagem do secretariado.
Ao analisar a formação da equipe, o cientista político considerou que ficou um vazio na articulação, que seria um aceno ao eleitorado evangélico. "O Espírito Santo e a Região Metropolitana de Vitória estão entre os mais evangélicos. E a narrativa evangélica e o sentimento conservador eu não vi expresso nessa mudança de governo", disse.
Outros políticos conhecidos dos capixabas também ganharam cargos. Felipe Rigoni (União Brasil), deputado federal derrotado na disputa à reeleição, foi para a pasta do Meio Ambiente. Os ex-deputados estaduais José Carlos Nunes (PT) e Bruno Lamas (PSB) ganharam as secretarias de Esportes e Lazer e de Ciência e Tecnologia, respectivamente.
Fora do meio político, a novidade foi o novo secretário de Estado da Saúde, Miguel Paulo Duarte Neto, que assume a pasta deixada por Nésio Fernandes, agora secretário de Atenção Primária à Saúde no governo Lula.
Renovação de equipe
O próprio Casagrande já tinha se manifestado sobre a renovação de um terço do governo, avaliando que a equipe "vai acumular o que a gente fez de bom, mas também dar um passo adiante". Ele disse considerar natural que, numa reeleição, a base do governo permaneça a mesma.
“Mesmo quem continua, tem que entrar com energia nova. Vou entrar como se estivesse entrando no primeiro dia do meu primeiro governo em 2011. Com vontade de trabalhar, inovar, energia para fazer as mudanças, aumentar a eficiência e aumentar a prestação de serviço. Estamos mudando 40% da equipe de primeiro escalão”, disse, em entrevista à CBN Vitória ainda antes da posse.
O cientista político João Gualberto lembra que a votação de Vila Velha mostra que as alianças feitas por Casagrande com os setores conservadores produziram resultados. No primeiro turno, Casagrande venceu com diferença apertada de pouco mais de 3 mil votos, enquanto no segundo turno aumentou a vantagem, com 10.095 eleitores de diferença.
“O que me parece é que essa construção do governo do Renato tem diferença fundamental do governo anterior: a presença do Ricardo Ferraço nesse novo secretariado. O Ricardo é o homem do Desenvolvimento Econômico tendo também responsabilidade nas secretarias de Agricultura e Meio Ambiente, sendo responsável por uma por uma inflexão mais conservadora do governo”, diz.