Diante do desafio que é planejar e gerir as medidas de enfrentamento ao novo coronavírus em uma situação ainda pouco conhecida mesmo após um ano de pandemia, prefeituras do Espírito Santo estão se conectando para trocar informações sobre as ações de combate à Covid-19, dividir experiências bem ou malsucedidas e fazer empréstimos de medicamentos ou outros insumos importantes para o tratamento da doença. O diálogo entre secretários municipais de Saúde ocorre de uma forma muito mais comum do que se imagina e que, inclusive, a maioria das pessoas também é adepta: por meio dos aplicativos de mensagens.
Organizados de maneira informal, os grupos no WhatsApp e no Telegram são usados diariamente. Entre os secretários de Saúde, há mais de um grupo – um geral, em que todos dialogam, e outros regionais. Mas não só os chefes das pastas utilizam esses espaços de cooperação. Existem também grupos entre servidores de setores ligados à área da saúde, como laboratórios e farmácias.
A reportagem de A Gazeta conversou com secretários municipais e servidores de todas as partes do Espírito Santo para entender o funcionamento desses grupos. Todos são unânimes em dizer que os espaços são fundamentais para o entendimento mais rápido do comportamento da doença no Estado e para a resolução de situações que já foram enfrentadas antes por outras cidades.
Os grupos, relataram, são espaços dedicados exclusivamente ao diálogo sobre a pandemia de Covid-19 e são apartidários – mesmo cidades com prefeitos de partidos e grupos políticos diferentes colaboram entre si. "É uma crise sanitária sem precedentes e que afeta todos os municípios. Neste momento, não há espaço para brigas políticas", relatou Elisa Barreto Daroz, secretária de Saúde de Itapemirim.
No grupo de WhatsApp composto pela maioria dos secretários de Saúde das cidades do Espírito Santo, os debates e as trocas de ideias são mais voltados para ações que envolvem e atingem todos os municípios.
Existem ainda espaços mais regionalizados, tanto no WhatsApp quanto no Telegram. Neles, os representantes de municípios vizinhos conseguem discutir sobre assuntos mais específicos e dialogar sobre questões que estão afetando a região naquele momento. Além disso, são nesses espaços regionais que ocorrem empréstimos e trocas de insumos e medicamentos.
De acordo com secretários e servidores, não existe uma organização definida para esses grupos regionais. Alguns contemplam municípios que fazem parte das regionais de saúde definidas pela estrutura da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), enquanto outros se organizam por meio das divisões já existentes dos Consórcios Intermunicipais de Saúde, instituídos com essa finalidade de colaboração antes da pandemia de Covid-19.
Um mesmo representante da cidade costuma fazer parte de vários grupos. Também não é raro o contato direto entre dois municípios. Em todos os diálogos, o tom das conversas é de cooperação e de buscas rápidas por soluções.
SECRETÁRIOS EXALTAM IMPORTÂNCIA DO MODELO
Entusiasta dessa organização entre os municípios, Elisa Barreto Daroz, secretária de Saúde de Itapemirim, no Sul do Estado, afirmou que os grupos são espaços muito valiosos para troca de ideias e experiências entre as cidades. A secretária contou que representa o município em mais de um desses grupos, que costumam ser movimentados e com participação ativa da maioria dos membros.
De acordo com a secretária, no caso de Itapemirim, o grupo que concentra a maioria dos debates é o que reúne representantes dos municípios vizinhos do Sul do Estado. "Somos muito parceiros aqui na nossa região, e isso está sendo fundamental para esse momento. Além da troca de informações, já tivemos caso de uma cidade precisar de algum insumo por alguns dias e conseguir com algum vizinho", contou.
As colaborações feitas nesse grupo já foram importantes para um município que precisava de luvas hospitalares. A secretária lembra que aguardando a chegada de um estoque dos suprimento, a cidade contou com o apoio de um município vizinho para não ficar sem o material.
A experiência do Sul capixaba também ocorre nos municípios do Norte e Noroeste do Espírito Santo. O secretário de Saúde de Nova Venécia, Juliano Bettin, explicou que os grupos nos aplicativos de mensagem com participantes das prefeituras da região Noroeste também funcionam como espaços de troca de informações e debates sobre o combate ao novo coronavírus.
O secretário afirmou que o modelo organização que existe entre os secretários municipais é replicado para outros servidores, como responsáveis por farmácias e laboratórios municipais.
"Se um dos municípios já comprou o teste de Covid-19 de um determinado fabricante, por exemplo, os profissionais relatam como é a experiência com esse material e ajudam as outras cidades no momento de escolher o produto", relatou o secretário, para exemplificar uma colaboração recorrente entre as cidades.
A troca de informações entre cidades também foi ativa em um dos momentos mais delicados desde o início da pandemia no Espírito Santo. No mês de março, o município de Barra de São Francisco foi apontado como um dos epicentros da variante mais letal do coronavírus no Estado. Na ocasião, a cidade registrou uma explosão no número de casos e óbitos por Covid-19. O aumento dos indicadores também foi visto em municípios vizinhos.
Para tentar conter a crise, Barra de São Francisco decretou lockdown, com paralisação total das atividades e toque de recolher. Nos dias seguintes, cidades da região acompanharam as medidas mais restritivas. Vice-prefeito e secretário municipal de Saúde de Barra de São Francisco, Gustavo Lacerda relatou que a ocasião foi de intercâmbio de informações com os municípios vizinhos, para tentar minimizar o agravamento da situação.
Na Grande Vitória, prefeituras também afirmaram que trabalham em parceria com outros municípios. As administrações municipais de Serra e Cariacica relataram que a prática é recorrente durante o enfrentamento da Covid-19, sem detalhar como ocorre a cooperação. Procurados pela reportagem de A Gazeta, Viana, Vitória e Vila Velha não se manifestaram sobre o tema.
ESPECIALISTAS APONTAM QUE PARCERIA PRECISA DEIXAR LEGADO
Para o especialista em Gestão Pública e professor da Fucape Business School João Eudes Bezerra Filho, esse tipo de organização entre os municípios é fundamental para enfrentar a crise imposta pela pandemia do novo coronavírus. As articulações, explica, otimizam o trabalho e garantem para as cidades uma economia de tempo, que pode salvar vidas em uma situação de crise sanitária.
"Na pandemia, não se pode perder tempo. Esse tipo de articulação é um mecanismo muito valioso para que as estratégias de combate ao vírus ganhem mais agilidade. Uma cidade pode usar a experiência de outra e superar desafios que seriam mais duradouros. É um ganho importante", avaliou João Eudes.
O professor destaca ainda que, quando a pandemia estiver totalmente controlada, a articulação entre municípios pode representar uma mudança importante na maneira como as cidades conduzem a gestão da saúde. João Eudes aposta que o intercâmbio de informações vai deixar um legado para que esse trabalho possa ser conduzido de forma mais conjunta, dividindo as dificuldades e compartilhando as soluções.
A opinião é compartilhada por Gabriela Lotta, professora de Administração Pública da FGV-SP, que espera que essa organização em formato de parceria possa representar um legado para o pós-pandemia. Gabriela pondera, contudo, que a situação precisa ser institucionalizada para causar esse efeito positivo.
"É muito bom que em um momento de dificuldade os municípios encontrem soluções para enfrentar a crise. Mas para isso ter efeito duradouro, é importante que não fique só nos grupos de redes sociais. Isso precisa gerar memória para as próximas gestões", apontou.
A especialista ainda destacou que essa organização dos municípios é muito positiva, mas só surgiu dessa forma em função da atuação do governo federal no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. Para a professora, a falta de uma ação conjunta da Presidência da República com Estados e municípios forçou as cidades a buscarem soluções para problemas que poderiam ter uma ação definida de maneira mais coordenada.
"Essa união dos munícipios é um mecanismo positivo para a gestão da Saúde, mas seria um modelo ainda mais exitoso se houvesse uma coordenação do governo federal incentivando e fortalecendo esse tipo de movimento", relatou.
AMUNES DIZ QUE NÃO HÁ AÇÃO INSTITUCIONALIZADA
A Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes) – que representa os 78 municípios capixabas – afirmou que oficialmente não foi desenvolvida nenhuma ação específica nesse sentido de parceiras, pois até o presente momento nenhum município solicitou essa pauta. Apesar disso, a entidade destacou que segue dialogando com o governo do Estado sobre as dificuldades enfrentadas pelos municípios em meio à pandemia.