O senador bolsonarista Marcos Rogério (DEM-RO), que faz parte da CPI da Covid, protocolou um requerimento para convocar o professor da Ufes Francisco Guilherme Emmerich a prestar depoimento na comissão, na condição de especialista.
Emmerich é físico e defensor do “tratamento precoce” para Covid-19. Ele é também autor de um artigo que associa a queda de mortes pela doença no Pará ao uso de ivermectina, hidroxicloroquina e azitromicina, medicamentos que não têm eficácia comprovada cientificamente contra o novo coronavírus.
O requerimento ainda não foi apreciado pela comissão. Caso ele seja aprovado, o professor pode optar por não depor. Atualmente, Emmerich está aposentado, mas atua como professor voluntário no Departamento de Física da universidade.
PEDIDO DE CONVOCAÇÃO
O pedido de convocação foi protocolado no dia 28 de abril. No documento, o senador Marcos Rogério reafirma o papel da CPI em “esclarecer os fatos no tocante ao colapso da saúde no Estado do Amazonas” e menciona que “pesquisas científicas vêm sendo construídas “em cima de casos, dados e estatísticas” para entender a doença e buscar protocolos para o atendimento de infectados.
O parlamentar não deixa claro o motivo pelo qual Emmerich está sendo convidado a depor, apenas diz que é uma pessoa com conhecimento e que “tem muito a colaborar”.
Marcos Rogério cita o professor como pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Espírito Santo, cargo que ele não exerce mais, desde 2012.
O professor Francisco Emmerich é formado em Física e Engenharia Elétrica pela Ufes e tem Doutorado em Física pela Unicamp. Durante oito anos (2004-2012) atuou como Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade do Espírito Santo.
Segundo o portal da Ufes, ele tem experiência na área de Ciência e Engenharia de Materiais, com ênfase em Materiais Não-Metálicos.
Em março deste ano, Emmerich publicou um artigo na Revista International Journal of Environmental Research and Public Health comparando a evolução das mortes pela Covid-19 no Amazonas e no Pará durante a segunda onda da pandemia.
O professor aponta para “um possível papel” exercido pelo uso de ivermectina, azitromicina e hidroxicloroquina na diferença dos resultados nos Estados. Em maio do ano passado, o governo do Pará anunciou a distribuição desses medicamentos para a população.
Em vídeos publicados nas redes sociais, Emmerich também afirma que o tratamento precoce contra da Covid-19 salva vidas. Apesar da afirmação, não há comprovação científica da eficácia dos medicamentos para combater a doença.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda o chamado tratamento precoce e autoridades de saúde têm alertado para efeitos colaterais graves. Mesmo assim, o governo Bolsonaro faz propaganda dos medicamentos desde o início da pandemia.
Procurado pela reportagem, o professor Francisco Emmerich informou, por meio da assessoria de imprensa da Ufes, que prefere não conceder entrevista antes de o pedido de convocação para depor na CPI ser aprovado pelo colegiado.
"Tendo em vista a minha indicação para depor na CPI, que poderá ser aprovada ou não, não acho apropriado eu fazer depoimentos sobre o meu trabalho à imprensa neste momento. Reitero que, com satisfação, poderei dar uma entrevista no futuro", registrou em nota.
ALA GOVERNISTA
Marcos Rogério é vice-líder do governo Bolsonaro no Senado. Ele é um dos quatro integrantes da CPI da Covid que faz parte da ala governista. Embora sejam minoria – 4 entre 11 – os parlamentares alinhados ao Palácio do Planalto têm tentado desviar o foco da comissão solicitando informações a Estados e municípios referentes à aplicação de recursos federais no combate à Covid-19.
Em alinhamento com a estratégia do Planalto, Marcos Rogério já pediu oitivas com três governadores: Wilson Lima, do Amazonas; Rui Costa, da Bahia; e Helder Barbalho, do Pará.
A CPI foi criada para investigar ações e omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia no país e na crise sanitária no Amazonas. Mas, após pressão de parlamentares governistas, o escopo foi ampliado.
O senador Marcos Rogério foi procurado pela reportagem, via assessoria de imprensa, para explicar os motivos do pedido de convocação do professor Francisco Emmerich para depor na CPI da Covid. Até a publicação deste texto, ele não havia se manifestado.