Desde as primeiras horas desta quinta-feira (2) o senador pelo Espírito Santo Marcos do Val (Podemos) tem protagonizado o noticiário nacional após acusar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) de organizarem uma reunião, em dezembro, para propor o envolvimento do senador em um plano golpista para impedir a posse do presidente Lula (PT) e manter Bolsonaro no poder.
O senador começou falando sobre a conversa ainda na madrugada, em live em suas redes sociais, onde anunciou que deixaria a política. Eleito em 2018, ele tem mandato até 2026. Mas no início da tarde, ele recuou e afirmou que “não deixará o mandato".
Em entrevista à revista Veja, ele detalhou que foi convidado para uma reunião com o ex-presidente Jair Bolsonaro e com o ex-deputado Daniel Silveira, na qual foi apresentado um plano para gravar uma conversa com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, e tentar usá-la para anular o resultado das eleições.
De acordo com Do Val, o plano era tentar captar um diálogo comprometedor com o ministro para prendê-lo e impedir a posse de Lula. Para a revista Veja, ele relatou ter sido coagido por Bolsonaro a participar. Depois, voltou atrás e disse que a trama e o convite partiram de Daniel Silveira, preso nesta quinta-feira (2),
Ao longo do dia, Marcos do Val mudou a versão e os relatos acabaram em contradições em alguns momentos. Uma delas é sobre o encontro com Alexandre de Moraes.
Inicialmente ele teria falado com o ministro do Supremo apenas depois da reunião com Bolsonaro, mas no final da manhã, mudou a versão dizendo que teria se reunido com Moraes antes para que ele pudesse dar mais detalhes de como ele poderia agir.
Entenda a cronologia do plano golpista e as contradições
O convite para a reunião com Bolsonaro
O senador disse em entrevista à Veja que foi procurado por Daniel Silveira durante uma sessão do Congresso, no dia 7 de dezembro, dois dias antes da reunião no Alvorada. A Do Val, o deputado disse que Bolsonaro tinha um assunto importante e urgente para falar com ele.
De acordo com o relatado pelo senador, Daniel teria ligado para o presidente e passado o telefone a Do Val. Na conversa, Bolsonaro teria comentado que tinha uma questão que precisava ser resolvida de imediato e perguntou se o senador não podia “dar um pulinho” no palácio.
A preparação para o encontro
O senador Marcos do Val detalhou para a Veja que a preparação para a reunião teve cuidados incomuns, como se referir ao encontro por códigos, por sugestão de Silveira.
No dia marcado, 9 de dezembro, o senador relatou à Veja que teria recebido uma mensagem de áudio do ex-deputado para instruí-lo sobre como chegar ao destino, de maneira discreta, sem serem vistos.
“Vou te mandar a minha localização, mas tu não entra não, no Alvorada. E nem chega perto da entrada. Tu não vai aparecer. Tu vai parar o carro no estacionamento que eu vou te mandar a localização. Eu vou estar ali. O carro vai vir buscar a gente”, dizia a mensagem de Silveira.
Marcos Do Val afirmou que seguiu com seu motorista até a localização enviada pelo deputado por GPS – uma via que dá acesso ao Palácio do Alvorada, próxima ao Palácio do Jaburu, a residência oficial do vice-presidente.
Foi nesse ponto afastado que dois embarcaram num carro da segurança do presidente da República até o Alvorada, distante alguns metros à frente, onde teriam entrado sem deixar qualquer registro na portaria.
Houve contradição na fala no senador sobre o lugar da reunião. À Veja falou que foi no Palácio da Alvorada, depois, à GloboNews, indicou que teria sido na Granja do Torto. À tarde, mudou novamente à versão, voltando a afirmar que teria sido no Palácio da Alvorada.
A reunião entre Do Val, Bolsonaro e Silveira
Segundo Marcos do Val, a reunião com Jair Bolsonaro e Daniel Silveira ocorreu no fim da tarde do dia 9 de dezembro do ano passado, logo depois do primeiro – e breve – pronunciamento feito pelo ex-presidente após a derrota nas urnas.
Na primeira versão, para a revista Veja, Do Val falou que o então presidente teria pedido para que ele gravasse conversas de Alexandre de Moraes com o intuito de flagrá-lo em alguma inconfidência ou indiscrição e usar o material para anular a vitória de Lula.
Em entrevista à Veja, ele disse que acreditava que foi chamado para a reunião porque muita gente sabe que ele tem uma ligação com o ministro Alexandre de Moraes.
Ele detalhou que quando ele foi secretário de Segurança de São Paulo e Geraldo Alckmin (PSB) era governador, foi contratado para dar treinamento para a polícia paulista. "Não somos íntimos, mas temos um excelente relacionamento", disse à revista.
As diferentes versões sobre a conversa
Segundo Do Val detalhou à Veja, a reunião com o então presidente durou cerca de 40 minutos. Entre os temas da conversa estavam desde acampamento de manifestantes em frente aos quartéis até as supostas fraudes no processo eleitoral.
Ao chegar nesse assunto, Silveira teria pedido ao presidente que apresentasse ao senador a ideia que “salvaria do Brasil”, que era gravar uma conversa com Moraes que sugerisse interferência no processo eleitoral.
A ideia apresentava era que Do Val tentasse obter de Moraes, através de uma gravação clandestina, alguma fala dele dizendo ter extrapolado a Constituição.
O que eles pretendiam com isso era criar uma crise que desse bases para prender o ministro, impedir a posse de Lula e anular as eleições para que Bolsonaro continuasse no poder.
Nesse ponto também houve mudança de versão. Em nenhum momento Do Val nega a reunião, mas a cada nova declaração tem buscado aliviar o papel de Bolsonaro no suposto plano.
Primeiro, em uma live de madrugada em suas redes sociais, disse que Bolsonaro tentou coagi-lo a dar um golpe para seguir no Palácio do Planalto e impedir a posse do então presidente eleito Lula.
"Eu ficava puto quando me chamavam de bolsonarista. Vocês me esperem que vou soltar uma bomba. Sexta-feira vai sair na Veja a tentativa de Bolsonaro de me coagir para que eu pudesse dar um golpe de estado junto com ele, só para vocês terem ideia. E é logico que eu denunciei", disse o senador na live.
Horas depois, em entrevista à Folha de S.Paulo, o senador recuou na acusação direta e disse que Bolsonaro "só ouviu" o plano do ex-deputado federal Daniel Silveira e afirmou que iria pensar a respeito.
"[Bolsonaro] só ouviu junto comigo, aí eu fiz os questionamentos. A questão da legalidade, e por quê. Aí, na hora de ir embora, a única coisa que o presidente falou foi o seguinte: 'Vamos pensar'."
Mais tarde, para a GloboNews, disse: “Bolsonaro [só] ouviu tudo e ficou calado”, acrescentando, porém, que ele não rejeitou as ideias de Silveira.
Apesar disso, Do Val contouque se encontrou com os dois porque recebeu uma ligação do próprio ex-presidente da República e que entrou no local da reunião em um carro da Presidência.
Participação do GSI e da Abin
Para a execução do plano estaria prevista a participação do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), órgão responsável pela segurança do presidente e que tem a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sob seu organograma. O órgão daria o suporte técnico à operação, fornecendo os equipamentos de espionagem necessários, segundo o senador disse para a revista Veja
Em entrevista à GloboNews, pela tarde, Do Val retirou a declaração. “A gente pode tirar o GSI. [...] Daniel não verbalizou isso, não”, afirmou. Segundo ele, a participação do GSI no plano teria sido inferido por ele próprio após o encontro.
As cobranças por respostas
No dia seguinte ao encontro, Silveira cobrou do senador uma resposta sobre o convite para participar da trama, segundo mensagens reveladas pela Veja.
Havia uma pressão para que a operação fosse feita rapidamente, uma vez que os dias passavam e o mandato de Bolsonaro estava próximo do fim.
A revista narrou uma hesitação de Do Val em aceitar a trama, o que fez com que Silveira continuasse insistindo. Não houve resposta do senador.
O aviso a Moraes
Marcos do Val teria procurado Alexandre de Moraes por mensagem de texto, três dias depois do encontro, no dia 12 de dezembro, pedindo para falar pessoalmente com o magistrado.
O encontro com Moraes teria ocorrido dois dias depois, no dia 14 de dezembro, durante o intervalo da sessão que julgava o Orçamento Secreto.
Segundo Do Val, a conversa foi breve e ele narrou detalhes do encontro que teve com o presidente, da proposta que recebeu e os objetivos do plano. A única resposta de Moraes foi: "não acredito".
Depois do encontro, o senador teria respondido a Silveira que não iria participar do plano. "Irmão, vou declinar da missão", escreveu. O deputado aceitou: "Entendo, obrigado".