Não faz um mês que a Câmara Municipal da Serra se viu no meio de um turbilhão com a denúncia do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) contra quatro vereadores por suspeita de corrupção. Agora, o Legislativo da cidade está no centro de uma nova polêmica: o pedido de um parlamentar para a retirada de quadros históricos que retratam o período de escravidão instalados na sede do órgão.
A solicitação foi feita pelo vereador Antônio Carlos C&A (Republicanos), que gravou vídeo para as redes sociais e se manifestou na tribuna da Câmara sobre o assunto. Para ele, as obras — dos artistas Antônio Tackla e Walter Assis — entristecem as pessoas diante da barbaridade retratada, sobretudo os negros que carregam na própria trajetória os resquícios da escravidão. O vereador, que é preto, quer que os quadros sejam levados para um museu.
No entanto, os quadros apenas mudaram de andar, após a manifestação de outros dois vereadores, Paulinho do Churrasquinho (PDT) e Professor Renato (PDT). Durante sessão na Câmara, Paulinho ressaltou a necessidade de preservação da história, enquanto seu colega de bancada destacou que obras de arte servem para fazer as pessoas refletirem. Ambos solicitaram que os quadros fossem levados para o corredor de seus gabinetes. Agora, estão no segundo andar do prédio.
Em entrevista para A Gazeta, Antônio Carlos disse que se sentia bastante desconfortável ao se deparar, todos os dias, com os quadros na porta do seu gabinete. Além disso, ouviu relatos de funcionários da Câmara que, segundo ele, também se queixavam da exposição das imagens.
"Eu dei voz a essas pessoas, só isso. Não quero apagar a história, só não queria os quadros na minha porta. Isso me entristece muito. Sou neto de escravos; meu avô chegou ao Espírito Santo em um navio negreiro. É uma dor pessoal", ressaltou o vereador, com voz embargada, enquanto relatava episódios da vida da família e preconceitos sofridos por ele.
A medida causou indignação de entidades ligadas à cultura e ao movimento negro da cidade. O Conselho Municipal de Cultura vai se reunir no próximo dia 17 com representantes de outros conselhos para definir como devem agir. A ideia é dialogar com a Câmara para reverter a situação.
Presidente da entidade, Maria Marta Tomé destaca a importância artística do trabalho de Tackla e Assis, acrescentando que as obras em debate não são sobre o período escravagista no país, mas na Serra, retratando a história do município. "Não é, portanto, um tema aleatório", pontua.
"Quero crer que esse pedido para a retirada das obras seja um fato isolado, motivado por desconhecimento", afirma Maria Marta, que salienta ainda que os bens culturais, como os quadros da Câmara, são patrimônios de um povo.
Presidente do Conselho Municipal de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, Ivo Lopes também acredita que houve a falta de conhecimento do vereador Antônio Carlos no pedido de retirada dos quadros. "Existe também um racismo estrutural e institucional e o próprio vereador é vítima disso", diz. "Certas imagens não são para afronta, mas para nos fazer refletir."
Lopes acrescenta que é preciso conhecer o passado, para aprender com eles. "Por mais dolorida e sangrenta que seja a formação social e política do país, baseada no sangue do povo preto, é preciso olhar para essa história até para entender o presente, o nosso dia a dia, e não deixar que fatos como esses se repitam."
Precisamos olhar a história como ela é. Isso vai nos causar revolta, sim, mas é essa situação que vai nos fazer refletir e pensar em políticas públicas
O que diz a Câmara
A Câmara Municipal da Serra, em nota, reforça que o quadro permanece em exposição no prédio da Casa, em razão de seu reconhecido valor histórico e cultural. O Legislativo afirma que a obra retrata parte da memória do município e integra o patrimônio artístico da Câmara, sem qualquer intenção de ofensa.
"Todavia, atendendo à solicitação de um vereador, que manifestou desconforto em manter a obra em frente ao seu gabinete por lhe trazer sentimentos negativos, a administração promoveu a realocação do quadro para outro espaço interno da Câmara, que garante a mesma visibilidade pública e preserva sua importância. Dessa forma, a decisão conciliou a preservação do valor histórico e cultural da obra com o respeito à manifestação do parlamentar."
Atualização
04/09/2025 - 7:23
Após a publicação da reportagem, o vereador Professor Renato entrou em contato para informar que ele também solicitou a transferência das obras para o seu andar. O texto foi atualizado.