O "voto impresso", "auditável" ou auditoria cruzada
- Tem gente que acha que vai pegar o papelzinho e levar para casa. Isso não confere, não tem nada a ver com a proposta.
- Não é um debate novo e não é exclusivamente brasileiro.
- Lembra quando nossa vida começou a ficar digital? A gente era cismado com extratos bancários, ou com o caixa eletrônico. Muita gente preferia ir ao caixa no interior da agência a usar o caixa eletrônico.
- No entanto, ainda que o debate seja legítimo, toma um contorno que não lhe é próprio.
- A proposta da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), endossada por Bolsonaro, prevê que cada vez que o eleitor votar na urna eletrônica o voto seja impresso e, automaticamente, vá para uma outra urna.
- Depois, os mesários de cada seção eleitoral contariam, manualmente e em público, os votos impressos para conferir se o resultado é igual ao da urna eletrônica. Em caso de divergência, prevaleceria o voto impresso.
- Ocorre que ao colocar a interferência humana na contagem aumenta-se o risco de fraudes ou mesmo de erros não intencionais, além dos problemas práticos envolvidos na operação, considerando que o Brasil tem quase 148 milhões de eleitores aptos a votar, de acordo com dados de 2020 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
- Além disso, não haveria tempo e, em tese, dinheiro, dada a crise instalada no país, para implementar a medida para as eleições de 2022.
- É bem provável que a PEC não alcance os votos necessários e não haja voto impresso, auditável ou auditoria cruzada (escolha o nome que preferir) em 2022.
- O voto, hoje, é auditável. E já é impresso um boletim de urna, disponível aos fiscais dos partidos e aos eleitores em todas as seções eleitorais.
- Ainda assim, o questionamento à credibilidade do sistema eleitoral brasileiro foi posto, o que é um risco à democracia. Ano que vem é provável que haja ainda mais desinformação em circulação para justamente desestabilizar as eleições, com desfecho imprevisível.
- Na Índia, há urnas eletrônicas e também a impressão do voto, uma mudança recente. Ainda assim, isso não reduz os questionamentos quanto à legitimidade dos resultados da conturbada democracia do país asiático. Ana Cláudia Santano, que foi lá, ouviu que sempre houve e sempre há questionamentos. Com base em quê, ela questionou: "Com base na derrota", ouviu como resposta.
- No Peru, recentemente, também houve questionamentos da candidata derrotada à presidência, Keiko Fujimori. Ela alega que houve fraude. Lá, o voto é feito exclusivamente em papel.