Cerca de 3,2 mil pessoas se reuniram no Maanaim de Domingos Martins, no sábado (20/09), para o Seminário de Acessibilidade. O evento, com o tema “Acolhimento e Acessibilidade”, foi transmitido para todos os canais da Igreja Cristã Maranata (ICM), como YouTube e TV Maanaim, alcançando mais de 50 mil pessoas.
O objetivo central, segundo o pastor Josias Junior, gerente de comunicação da ICM, foi capacitar membros da igreja para receber e incluir pessoas com deficiência, garantindo que elas não fiquem afastadas de Deus por falta de suporte.
“Seguimos a orientação de Jesus, que é ‘ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura’. Por isso, damos tanta importância à acessibilidade, pois sabemos que a mensagem do nosso Senhor Jesus não pode ter barreiras para chegar a todas as pessoas, principalmente às mais necessitadas. A importância da comunicação está exatamente no contexto de ampliar esses horizontes, de chegar mais longe, de falar com todas as pessoas, não importa em que condições elas estão”, complementa.
O seminário destacou que a acessibilidade na Igreja Cristã Maranata vai muito além da eliminação de barreiras físicas. É um trabalho que envolve quebra de paradigmas, acolhimento familiar e, principalmente, a tradução do mundo espiritual para diferentes realidades sensoriais e cognitivas, conforme explica o pastor Luiz Eugênio, secretário geral da ICM.
“Quando acolhemos uma criança com autismo, uma pessoa com deficiência ou uma pessoa idosa, por exemplo, estamos acolhendo a família toda. Nosso objetivo é amparar essas famílias que precisam de ajuda. Além disso, o seminário também treina os membros da igreja para receber essas pessoas”, explica.
O cuidado com as pessoas idosas também foi um ponto de atenção, segundo o pastor, uma vez que a população idosa tem crescido no país. “Essa sensibilização é necessária, pois convivemos cada vez mais com o aumento dessa camada da sociedade. Esse é um foco que temos, pois é uma população que, muitas vezes, sente-se desamparada e a igreja precisa estar preparada para acolhê-los”, complementa.
Segundo Leonice Monteiro Dias Rocha, responsável pela organização do seminário, tudo foi planejado pela comissão de acessibilidade e professores especialistas. O seminário é preparado com antecedência, pensando não somente em quem participa das aulas, mas também nos membros da igreja que tenham algum tipo de deficiência.
“A importância do seminário está na conscientização. Fala-se muito de acessibilidade, mas ela vai além do físico, como a criação de uma rampa. A acessibilidade precisa estar em toda a igreja. Nossa preocupação é possibilitar que todos possam participar. O principal objetivo é o entendimento da palavra do Senhor para a salvação dessas vidas”, diz.
Quebra de barreiras
O pastor Luiz Fernando Pitta, membro do Conselho Presbiteral e representante do projeto de acessibilidade, deu uma aula sobre o assunto durante o seminário e destacou a importância de toda a igreja estar envolvida no acolhimento de todos os membros, principalmente aqueles que têm alguma deficiência. Ele atua como uma ponte entre o presbitério e os especialistas, organizando e distribuindo de forma igualitária esse atendimento.
“Temos mais de 5 mil igrejas em todo o Brasil, divididas por Estados e municípios. Analisamos a estrutura que cada igreja tem ou se existem pessoas dentro dessas regiões ou coordenações que façam o trabalho de facilitadores para membros que tenham algum tipo de deficiência e organizamos de forma que esse auxílio possa chegar a todos”, explica.
Com isso, ele afirma, é possível levar a palavra de Deus a todos e promover uma mudança positiva na vida dessas pessoas. “Muitas famílias que não têm acesso a esse tipo de ajuda começam a se comunicar melhor com seus familiares e também a entender os direitos da pessoa com deficiência. O objetivo principal é levar a palavra de Deus, mas o resultado é algo especial para todos”, complementa.
Segundo o pastor Lucimar Bízio, doutor em Lingística e especialista em Educação, o maior obstáculo à inclusão não está na deficiência e sim no olhar de quem não a tem. “Esse olhar precisa ser desconstruído, senão, será vista apenas a deficiência do outro. As barreiras do preconceito, de não aceitar a diferença, de não aceitar a condição da pessoa precisam ser desconstruídas. Se forem vencidas, o acolhimento com amor, o respeito e o auxílio estarão presentes”, explica.
Especial
Outra barreira que ele cita é a da comunicação. Pessoas que não escutam, entendem por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras), mas deficientes surdos-cegos, por exemplo, precisam de uma comunicação alternativa. “Essa barreira da comunicação precisa ser vencida e desconstruída. São pessoas que precisam de um material mais tátil. Tudo vai depender da condição de cada um”, diz.
Um exemplo dessa quebra de barreiras foi com Raquel Cristine Martins Silva. “No passado, quando fiquei surdo-cega, ninguém sabia se comunicar comigo. Perdi a visão e a audição de uma vez só. Quando comecei a ir para a igreja, ninguém sabia Libras e eu me sentia sozinha, mesmo rodeada de pessoas”, conta.
No entanto, quando ela passou a ser assistida pelos especialistas do grupo de acessibilidade da ICM, voltou a se sentir participante. “Sinto-me viva hoje. A palavra de Deus traz a mensagem do Espírito Santo de Deus, que está sempre guiando a nossa vida. A palavra de Deus enche o nosso coração”, acrescenta, com o auxílio de uma tradutora de Libras tátil.
Grupo de acessibilidade
A possibilidade de comunicação de Raquel acontece por meio dos integrantes do grupo de acessibilidade do Maanaim de Domingos Martins e também do programa Libras Sinais de Vida. “Esse programa ensina a língua de sinais para intérpretes que estão começando a aprender e querem ajudar, e também apresenta estratégias de comunicação assertivas para intérpretes que já dominam Libras”, explica.
Para Amabile de Araújo, que integra a equipe de Libras do Maanaim, a assistência dela e de outros intérpretes é essencial para que os membros que não escutam ou não enxergam possam interpretar os cultos e reuniões. O trabalho é voluntário.
“As famílias de muitos deles não conseguem se comunicar porque não sabem a língua de sinais, mas quando começam a frequentar a igreja e veem que são acolhidos, seus parentes também se interessam. Muitos chegam aqui pedindo para ensinarmos Libras para que possam se comunicar com o marido, a esposa, o filho… E muitos participam de nossas oficinas. Isso faz com que o membro da igreja que é surdo se sinta ainda mais amado por sua família”, conta.
E esse auxílio vai além dos cultos e reuniões, conta Claudete Abelo, que também integra a equipe de Libras do Maanaim, pois, muitas vezes, acompanham em uma consulta médica, no banco... “É um trabalho social e viramos parte da família desses membros. A língua de sinais é a salvação do surdo, pois ele pode participar da mesma comunhão e sente o Espírito Santo falar da mesma forma. Ele se sente parte da igreja”, acrescenta.
Laerte Carlini Dossi, que é surdo, esteve no Maanaim pela primeira vez, acompanhando o seminário. Laerte contou que se batizou recentemente e estava emocionado por poder participar dos cultos. “Não falto a nenhum, estou presente todos os dias”, diz.
Ele foi auxiliado por Warlen Carlos, que é professor e policial em Viana e faz parte da equipe de Libras do Maanaim. “Usamos os sinais sempre no contexto religioso”, explica.
Ampliando o olhar
O seminário também abordou a inclusão de outros públicos. Juliana Muniz, pedagoga e doutoranda em Diversidade e Inclusão, falou sobre a importância de sensibilizar a igreja para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
“É importante que a igreja tenha esse conhecimento para perceber a importância de como a mente de uma criança ou adolescente com TEA ou TDAH funciona e consigam se inserir. Esse é um público que também necessita de acolhimento, de acesso à palavra de Deus. E precisamos também sensibilizar a igreja para lidar com esse público”, explica.
A psiquiatra Ana Peixoto reforçou que o trabalho realizado pela ICM não é assistencialista, mas sim de possibilitar o acesso à palavra de Deus. “Isso envolve um preparo, pois, muitas vezes, as pessoas têm um pensamento estereotipado do que é a deficiência, que cria rótulos e discriminações. Para acessar a pessoa com deficiência, é preciso ter quebra de paradigmas”, analisa.
Entre os temas abordados durante a sua aula, ela falou sobre a saúde mental das famílias em que há pessoas com algum tipo de deficiência. “Que olhar devemos ter para melhorar a nossa sensibilidade sobre essa população? É aceitar a diferença, amar a pessoa do jeito que ela é. Quantas deficiências físicas e mentais Jesus curou… Não é uma coisa de agora, mas é o nosso tempo de despertarmos para essas pessoas”, afirma.