O Estado Democrático de Direito foi oficialmente executado nesta quarta-feira, 14, no Centro do Rio de Janeiro, cidade das mais importantes deste país em constante guerra civil. Vivendo sob alardeada intervenção federal na segurança, o carioca vê sangrar seus filhos e não vislumbra em autoridade alguma as mínimas condições de reação. Não há certeza se, nos dias atuais, pode-se chamar de Estado, com “E” maiúsculo, o Rio de Janeiro.
Marielle Franco e Anderson Gomes foram cruelmente executados. Tiros na cabeça. Vários para garantir o serviço. Vereadora eleita e com atuação crítica à ação da Polícia Militar em comunidades, Marielle era um problema para muitos. Uma “questão”, como se banalizou no linguajar político, que foi resolvida quarta-feira à noite.
A jovem democracia brasileira sofre de doença terminal. Com apenas 30 anos, vê definhar seus pilares, agoniza e caminha para um final trágico. Por ano, são assinadas 61 mil pessoas no Brasil e quase 90% desses casos não tem solução. São vítimas das mais diversas formas de violência, desde a disputa por regiões no tráfico de drogas, latrocínios e até crimes passionais, de gênero ou raça.
Contudo, os crimes de ódio são os mais graves. Escrevi para este jornal em abril de 2017 sobre a estupidez e a intolerância. Manifestei preocupação com o grau de tensionamento por qual passava a sociedade brasileira. Bem, o cabo que estava muito esticado estourou e, infelizmente, caímos todos juntos com Marielle e Anderson.
Dia após a tragédia, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, afirmou que a intervenção no Rio de Janeiro não será afetada pelo crime que tomou proporções nacionais. A intenção do ministro, como ficou claro, foi passar segurança e garantir que o Estado não perdeu o controle e que as ações até então desempenhadas estão corretas.
No entanto, o que a imprensa nacional já veiculou por diversas vezes é que regiões da cidade, em especial a Zona Oeste, são dominadas por milícias. As comunidades estão novamente controladas pelo tráfico de drogas, não há recursos para a saúde e, na educação, os professores não recebem salário, crianças não são educadas e preparadas para um futuro diferente do presente. Onde está o Estado do Rio de Janeiro?