Não chega a 5 mil o número de igrejas - católicas e evangélicas - regularizadas no Estado, segundo dados da Receita Federal. Quantidade que pode não representar a realidade do que se vê nas cidades capixabas. Boa parte delas acompanham o crescimento do número de pastores, que sem formação teológica fundam novas unidades sem a preocupação com a sua regularização.
O diretor geral da Faculdade Unida de Vitória, professor de História do Cristianismo e doutor em Teologia na PUC-RJ, Wanderley Pereira da Rosa, observa que não existe uma instituição centralizada que reúna as informações sobre todas as igrejas. Sem contar a facilidade que existe para a abertura de uma organização religiosa no país. “Qualquer pessoa pode abrir uma igreja, se autoproclamar pastor, apóstolo, bispo, sem nenhum registro”, afirma.
A situação fica ainda mais complicada porque além da igreja (matriz), que até pode estar regularizada, há ainda congregações e pontos de pregação. Este último o primeiro passo para criar uma igreja e pode surgir até em casa, em uma garagem. “A Assembleia de Deus, por exemplo, tem os chamados ministérios. O pastor preside ministério com dezenas de igrejas conectadas a ele, girando como satélites”, explica.
O VAIVÉM DAS IGREJAS
O número de igrejas registradas no Estado está bem distante da realidade das ruas, principalmente em relação às unidades evangélicas. Fato reforçado pelo número de pastores, que é 45 vezes superior ao de padres. Dentre as que estão regularizadas na Receita Federal, a cidade com maior taxa de igrejas (número de unidades a cada mil habitantes) é Presidente Kennedy (2,41). Confira as demais.
Abrir uma igreja leva, em média, 30 dias. O registro em cartório é obtido ao apresentar lista de membros, ata da fundação e o estatuto da instituição, além de aproximadamente R$ 400 em taxas. Depois é necessário requerer na Receita Federal o CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) para, em seguida, conseguir licenças municipais, como alvará de funcionamento.
“Muitas igrejas ficam irregulares. No entanto, por serem instituições sem fins lucrativos, estão livres de impostos e não pagam IPTU, Imposto de Renda sobre as doações e IPVA”, diz o contador da Associação dos Contabilistas de Vila Velha, Admilson Nobre.
Oficialmente, segundo a Receita Federal, existem 4.926 igrejas no Estado, entre evangélicas e católicas. Mas o número pode ser muito maior, já que a pulverização de ministérios evangélicos é tamanha que não é possível chegar a um dado confiável. Mesmo usando o número de 4.936 igrejas, se formos considerar a população de cada município, pode-se chegar a uma taxa significativa, calculada para cada mil habitantes.
Presidente Kennedy, proporcionalmente a sua população, é a cidade com mais igrejas - 2,41 a cada mil habitantes. Ao comparar os dados da Receita com as informações da Igreja Católica, é possível verificar que três dioceses - Cachoeiro, São Mateus e Colatina - reúnem quase a metade das igrejas, com 2.480. A Arquidiocese de Vitória não informou o número de unidades na Grande Vitória.
O que sobra são 2.446 igrejas, que seriam as evangélicas. Somente na Rodovia Serafim Derenzi, em Vitória, existem 49 igrejas, sendo 47 templos evangélicos. A quantidade, levantada por A Gazeta em 2018, surpreende pela via ter 10 quilômetros de extensão. O pastor Augusto Sampaio Souza, 80, e a esposa Zelia Braga Sampaio, 75, também pastora, fundaram a Igreja Assembleia de Deus há 25 anos na Serafim Derenzi.
A construção foi feita pelo próprio pastor, que foi pedreiro por 35 anos. Hoje ela é mantida com o dízimo dos fiéis, com arrecadação em torno de R$ 600 por mês. Ela é “filial” da Assembleia de Deus de Soteco, Vila Velha que, no entanto, não foi regularizada juridicamente. “Realizei um curso de Teologia e, nos dias de culto, prego para cinco, seis, oito pessoas, mas sempre com a mesma garra”, afirmou.
FUNÇÃO SOCIAL
Wanderley Rosa observa que pelo menos 90% dessas igrejas evangélicas são pentecostais. E mesmo com todas as limitações realizam um trabalho de resistência e resgate social em suas comunidades. “Estudos apontam a presença de igrejas evangélicas nas favelas, em locais onde o Estado não está presente. E o sofrimento destas comunidades seria ainda maior sem elas. O aspecto social não pode ser desconsiderado.”
Ouro ponto, lembra Rosa, é que os líderes das pequenas unidades conhecem todos os membros, o que gera mais vínculo. Oferecem algum tipo de esperança, alívio e conforto. “Muitos exercem profissões consideradas invisíveis, mas na comunidade são pastores respeitados. Usam terno, mesmo que simples. Pode-se olhar de maneira crítica para a pregação, mas existe o aspecto positivo”, pondera.