Insatisfeito no Partido dos Trabalhadores (PT), o deputado federal Givaldo Vieira admite que pode sair da sigla. Ele tem um convite muito forte para se filiar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), do ex-governador Renato Casagrande.
"Olha, estou muito insatisfeito com tudo que aconteceu com o PT do Espírito Santo. Essa insatisfação não afasta nenhuma hipótese. Mas, para alguém que tem uma longa história no partido como eu, essa é uma decisão muito difícil”, afirma Givaldo, rompido com o presidente estadual do PT, João Coser, desde o início do ano passado.
De acordo com o calendário eleitoral, Givaldo poderá trocar de partido na janela para transferências partidárias a ser aberta em março, sem correr o risco de perder o mandato na Câmara. "Como te disse, eu tenho uma insatisfação grande com o partido. Vamos ver. Se as coisas não mudarem até lá, pode ser que eu faça essa avaliação. Mas no momento, não", pondera o deputado.

Em maio de 2017, Givaldo enfrentou Coser na disputa pela presidência estadual do partido, durante o processo eleitoral interno do PT, encabeçando uma chapa de oposição interna ao grupo do ex-prefeito de Vitória. Na convenção estadual, a chapa encabeçada por Givaldo obteve mais votos que a de Coser para a formação do diretório regional do PT. Mas depois, na segunda etapa da eleição, Coser conseguiu mais votos que Givaldo e se elegeu presidente estadual da sigla. A votação final foi marcada por acusações sobre possíveis traições e compras de votos. Givaldo recorreu à direção estadual do PT, mas o comando continuou com Coser.
Desde então, Givaldo e Coser, que foram grandes aliados no PT até 2015, afastaram-se completamente. Isolado no partido, Givaldo tem tido participação quase nula nas atividades partidárias: mesmo tendo direito, preferiu não indicar o próprio nome para compor a Comissão Executiva Estadual, órgão diretivo máximo do PT no Estado. Também não tem comparecido aos atos convocados pelo PT, exceto pelo comício de Lula no Estado, no dia 4 de dezembro.
Disputa doméstica para a Câmara
Também pesa contra a permanência de Givaldo no PT o fato de que o próprio Coser é pré-candidato a deputado federal. O outro membro da bancada do PT pelo Espírito Santo, Helder Salomão, também vai tentar a reeleição. Assim, Givaldo pode antever certa dificuldade em seu caminho para se reeleger.
O destino mais provável de Givaldo é o PSB. Ele tem ótimo relacionamento político com Renato Casagrande e foi seu vice-governador de 2011 a 2014.

Vice-presidente do PSB no Espírito Santo, o também deputado federal Paulo Foletto confirma que Givaldo foi convidado pessoalmente por Casagrande, em meados de setembro. Depois, em dezembro, ele próprio reforçou o convite, mesmo também querendo concorrer à reeleição.
"Convidamos, sim. Renato (Casagrande) falou com ele na minha frente, para saber se eu teria alguma objeção. Respondi que estendo o tapete vermelho para Givaldo e ainda varro o tapete para ele. Depois, voltei a conversar com ele e disse a ele que a minha fala era sincera. Nessa segunda conversa, ele me falou que está fazendo uma análise com toda a equipe dele e com a base petista dele", relata Foletto.
"Passou-lhe a perna"
O socialista confirma que a principal motivação de Givaldo para eventualmente sair do PT é o atrito com João Coser. "O problema dele é com Coser, que passou a perna nele na convenção do PT. Givaldo ganhou a eleição e não levou. Ele sabe que, no PT, vai ter pouca ajuda para se reeleger. Se o Coser já passou a perna nele na eleição do PT, imagine agora, com a máquina do PT na mão. Givaldo vê poucas chances para ele… Com o Coser na presidência do partido, ele acha que vai ficar em posição desfavorável e que não vai ser um processo leal."
João Coser: "Empenho para que fique" 

Segundo Coser, no entanto, todo empenho do partido e seu empenho pessoal é para que Givaldo permaneça no PT.
"A vontade dele de sair é de conhecimento da Executiva. Ele não informou formalmente a Executiva, mas já comunicou ao deputado Padre Honório (muito próximo a Givaldo) e a mais algumas lideranças do PT que me ligaram, dizendo da decisão dele de deixar o partido. Pelo que percebemos, ele tem evitado as conversas. Naturalmente, o nosso empenho é para que nenhum companheiro deixe o partido", afirma Coser.
De acordo com o presidente do PT-ES, as razões para que Givaldo saia do partido não existem. "As disputas internas no PT sempre aconteceram. Um ganha, outro perde. Isso não é razão para deixar o partido. Já tivemos outras disputas no passado, com Ana Rita etc. Nem por isso eles deixaram de ser petistas nem deixaram de ser companheiros. Mas Givaldo já vem trabalhando isso, provavelmente mais em função das opiniões dele."
Autoisolamento
Ainda segundo João Coser, Givaldo tem se isolado e se afastado até de aliados que estiveram com ele na convenção do PT, como a ex-deputada federal Iriny Lopes. "Todos os outros grupos, fora o de Givaldo, estão trabalhando com afinco. A corrente da Iriny, Articulação de Esquerda, é a que mais está colaborando internamente hoje. Helder também está colaborando muito. Padre Honório, ao modo dele. Realmente, o Givaldo foi a única pessoa que se afastou. Há menos de 15 dias, marquei uma reunião com os deputados do partido. Ele deu uma desculpa e não apareceu."
Alertado por Padre Honório de que a iminente saída de Givaldo não é boato, Coser fez uma primeira tentativa de contato diretamente com o deputado federal, primeiro por telefone, depois por mensagem de texto. Givaldo limitou-se a dizer que era boato. Coser então fez uma segunda tentativa de conversar com Givaldo, por intermédio de Iriny. Novamente, sem sucesso.
Givaldo Vieira pode até acabar decidindo permanecer no PT. Hoje, todos os sinais dão conta de que ele está com um pé e meio fora do partido.