Durante muitos anos, o barulho das panelas e a correria de trabalhar na noite eram a marca registrada do dia a dia de Gustavo Correa. Chef premiado, ele se destacava por sua liberdade criativa na cozinha profissional e pelo talento em misturar sabores. Mas por trás do sucesso nos eventos e nas cozinhas sofisticadas, um turbilhão silencioso crescia na sua vida pessoal.
Trabalhar com eventos é estressante. Qualquer detalhe pode comprometer todo um projeto. Fui me tornando ansioso, impaciente, agressivo. Explodia por coisas banais
A virada em sua vida começou em 2015, quando o filho mais velho, João Paulo, teve sua primeira crise epiléptica. O que até então eram apenas suspeitas neurológicas, se transformou em uma dura realidade: epilepsia refratária, um tipo de epilepsia resistente a medicamentos.
Foi em uma consulta médica que Gustavo ouviu, entre lágrimas, a notícia de que o único caminho possível seria uma cirurgia no cérebro, sem garantias de sucesso. “Naquele momento eu desabei. Mas também decidi que faria tudo que estivesse ao meu alcance”, diz.
Enquanto João Paulo passava por crises intensas e chegou a ser internado na UTI, Gustavo encontrou uma nova missão. “Durante uma oração, tive uma espécie de revelação: Deus me soprou que eu deveria juntar meus conhecimentos de cozinha com os desafios do meu filho”, conta, emocionado.
A partir dali, começou uma jornada de estudos e descobertas. Gustavo voltou à universidade para cursar Nutrição, abriu mão do trabalho como cozinheiro, mergulhou nos estudos em Neuronutrição, fez pós-graduação em Neurociências e iniciou um mestrado em Nutrição e Saúde.
Muitos especialistas de grandes hospitais diziam que não havia controle possível para o caso do meu filho. Mas eu fui atrás, sofri, estudei, me aprofundei. Hoje, ele não tem uma crise há anos.
Essa transformação pessoal se tornou também um novo propósito profissional. Gustavo passou a atender pacientes, unindo ciência, escuta e afeto. “Uso ferramentas da nutrição, manejo intestinal e neuro-suplementação, mas, principalmente, me dedico a ouvir e entender cada história. Às vezes sofro junto. Mas sigo buscando as perguntas certas, porque são elas que nos levam às respostas.”
O amor em um livro
Enquanto isso, João Paulo, hoje com 29 anos, também encontrou sua forma de expressão. Diagnosticado com dislexia ainda na infância, sempre estudou em escolas inclusivas e foi na faculdade de Publicidade e Propaganda, aos 18 anos, que teve a primeira grande crise epiléptica.
Para ele, a comunicação sempre foi um desafio, mas a fotografia surgiu como uma ponte. “Eu fiz um curso na adolescência e comecei a usar a câmera para me expressar. Fotografava arames, correntes, cordas... objetos que nem sempre são vistos como belos, mas que, na época, representavam a dor que eu sentia”, conta João Paulo. Uma dessas imagens, inclusive, lhe rendeu um prêmio.
Em um gesto de afeto e admiração, Gustavo decidiu transformar esse olhar em livro. O pai, que sempre gostou de escrever poesias e crônicas, juntou seus textos com as fotos do filho, e assim nasceu o projeto “Olhares”, uma obra que reúne o amor entre eles.
Pai e filho empreendedores
A vida seguiu, e a pandemia trouxe mais uma oportunidade de conexão entre os dois. João, com dificuldades de se inserir no mercado formal de trabalho, sugeriu ao pai que começassem a produzir algo para vender. Gustavo topou na hora.
A dupla então passou a cozinhar unida por uma nova paixão: alimentos orgânicos. “Começamos de forma simples, em casa mesmo. Hoje, temos uma loja virtual e o João é quem toca quase tudo sozinho”, conta Gustavo, orgulhoso. O cardápio, que no início contava apenas com molho pesto e conserva de tomate, hoje inclui variedades como bolinhos saudáveis, pão sem glúten e muffin de chocolate.
Mais do que vencer a epilepsia, Gustavo e João reinventaram a forma de viver, com acolhimento, afeto e colaboração. Uma história que mostra que o amor de um pai é capaz de salvar a vida do filho.