No último dia do 32º Festival de Cinema de Vitória, que aconteceu na última quinta-feira (24), foi Ney Matogrosso quem transformou o encerramento em um verdadeiro espetáculo de emoção, memória e reverência. Homenageado nacional desta edição, o artista subiu ao palco do Teatro Glória aplaudido de pé, mas surpreendeu o público ao se mostrar tímido ao receber o Troféu Vitória e outras honrarias. Visivelmente comovido, encerrando uma noite que foi marcada por afeto e gratidão, disse:
Fico meio envergonhado, meio travado. Mas aceito sim, muito obrigado
Antes, na coletiva de imprensa realizada no Salão Penedo do Hotel Senac Ilha do Boi, Ney já havia cativado jornalistas, fãs, autoridades e estudantes com sua lucidez, humor e franqueza.
“A gente tem que viver com a nossa verdade, não é isso? Não podemos viver submetidos à vontade de ninguém. Somos cada um, um universo, e temos que manifestar isso”, declarou, ao comentar o impacto da cinebiografia Homem com H na vida do público e que recebe muitos relatos de pessoas que dizem ter encontrado coragem para assumir suas próprias verdades após assistir ao filme.
Durante a coletiva de imprensa, Ney Matogrosso relembrou um episódio curioso do passado: ainda jovem, quando vendia artesanato e mal imaginava o futuro que o aguardava, consultou uma vidente ao lado do amigo Paulo Mendonça, com quem compôs "Sangue Latino". A cartomante previu que ele teria uma trajetória parecida com a de Carmen Miranda, disse que ele alcançaria fama internacional, viveria cercado de trabalho e seguiria requisitado mesmo na velhice.
"Na época eu não acreditei muito, mas parece que ela estava certa, não é mesmo?", disse. Décadas depois, o sucesso de Homem com H parece ter confirmado que ele não teria descanso nem na velhice. “Se eu trabalhava 10, agora estou trabalhando 30. É uma coisa que até me confunde”, brincou Ney, entre risos. O filme reacendeu o interesse do público e trouxe uma nova onda de convites e novos trabalhos.
Cerimônia de encerramento
Com apresentação de Sarah Oliveira e Simone Zuccolotto, a cerimônia de encerramento também contou com o lançamento do Caderno do Homenageado, uma publicação especial que traça a trajetória do artista nas artes brasileiras, além de uma joia simbólica entregue ao cantor.
O Festival ainda exibiu o longa Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, dirigido por Helena Ignez e Ícaro C. Martins, em que Ney é protagonista. A diretora subiu ao palco para celebrar a parceria com o artista: “É um gênio, essa figura generosa, lindíssima. Uma pessoa altamente verdadeira”, disse Helena.
Um dos momentos mais marcantes da homenagem veio quando o público, em um gesto coletivo, colocou máscaras que remetem à maquiagem marcante de Ney nos tempos do Secos & Molhados, cena que arrancou sorrisos tímidos e um brilho emocionado dos olhos do cantor.
A noite encerrou uma edição memorável do festival, que reafirmou Vitória como promissora capital do cinema brasileiro. E foi com um Ney Matogrosso camaleônico e, ao mesmo tempo, incrivelmente humano, que o público saiu com a certeza de que o cinema têm, sim, o poder de transformar, libertar e emocionar.