Tímido, calado, observador. Assim ele se definia nos anos de escola. Escrevia para si, sem imaginar que aquelas linhas poderiam se transformar em rima e voz de uma geração. Foi apenas em 2014, ao assistir a uma batalha de MCs naem uma praça no Centro da capital capixaba que César entendeu: o que escrevia já era rap, mesmo sem saber.
As batalhas e a descoberta da voz
A primeira vitória em uma batalha veio rápido, assim como a primeira derrota. Do impacto de perder surgiu a certeza de que precisava voltar, aprender e se reinventar. Vieram então as participações no Rap de Quinta e no Boca a Boca, projetos que fortalecem o freestyle e o hip-hop local.
O talento, antes guardado, começou a ganhar visibilidade. Em 2016, César disputou a seletiva capixaba e chegou ao Duelo Nacional de MCs, em Belo Horizonte, alcançando as quartas de final. No ano seguinte, voltaria mais maduro, conquistando a edição nacional e se tornando o primeiro campeão capixaba do torneio. O título foi um divisor de águas, abrindo caminho para parcerias, gravações e novas plateias.
Das ruas para o estúdio
Logo César passou a colaborar com a Pineapple StormTV, coletivo que impulsiona nomes do rap contemporâneo. Vieram singles como Canção Infantil e Minha Última Letra, que alcançaram milhões de visualizações e colocaram o artista em outro patamar. Também participou de projetos coletivos, como Poetas no Topo e Poesia Acústica, aproximando-se de diferentes públicos.
Em 2023, lançou seu primeiro álbum, “Dai a César o que é de César”, trabalho autoral que mistura confissão, crítica social e poesia. O disco trouxe colaborações de artistas como Djonga e Emicida e foi eleito Melhor Álbum do Ano no Prêmio da Música Capixaba.
A influência da escola e da periferia
Apesar de ter iniciado a graduação em Matemática na Ufes, abandonou o curso para se dedicar integralmente à música. O caminho escolhido foi também resultado da base que recebeu ainda criança, nos corredores da Escola Neusa Nunes Gonçalves, em Nova Palestina, bairro periférico de Vitória, onde sua mãe lecionava.
“Foi o primeiro lugar onde entendi o mundo de forma mais ampla. A educação dá perspectiva, abre possibilidades. Sempre digo que é a maior medida de segurança pública que existe”, disse.
Ele contou que sempre gostou de compartilhar conhecimento e que, por isso, sonhou durante muito tempo em ser professor. “Mas eu percebi que não é só na sala de aula que podemos ensinar e ser inspiração. Por meio da música também posso fazer isso. Foi aí que decidi sair da graduação e me profissionalizar no rap”, afirmou.
Arte como resistência
A realidade do Morro do Quadro, marcada por desigualdades e violência, atravessa suas composições. O rap, para César, é ferramenta de resistência, espaço de denúncia, mas também de esperança. Suas letras se equilibram entre a dureza da vida nas periferias e a delicadeza de imagens poéticas, revelando um artista que transforma a dor em palavra e a palavra em música.
“Tento sempre ser muito responsável nas minhas letras e na minha vida, pois sei que muitos crianças e adolescentes se inspiram em mim, da mesma forma que eu me inspiro em pessoas que vieram antes e transformaram a minha vida por meio da arte”, disse.
Hoje, seguido por milhões de pessoas nas redes sociais, César MC é um dos principais nomes do rap nacional em ascensão. Mais que números ou prêmios, carrega a responsabilidade de inspirar jovens que, assim como ele, escrevem em cadernos, muros ou folhas soltas, sem imaginar que ali pode estar a semente de uma vida inteira.