Considerado por décadas um dos símbolos da política manicomial no Espírito Santo, o antigo Hospital Adauto Botelho teve sua trajetória marcada por histórias de abandono, confinamento e violações de direitos humanos. Agora, essa memória ganha as telas no documentário “Adauto”, lançado na última segunda-feira (22), buscando preservar relatos do passado e mostrar a transformação da unidade ao longo dos anos.
A produção, dirigida pela pesquisadora e professora Elda Bussinguer, apresenta a história do hospital desde os períodos em que funcionava como instituição psiquiátrica até sua mudança para o atual Hospital Estadual de Atenção Clínica (HEAC). O documentário reúne depoimentos de pessoas que viveram diferentes momentos da unidade, entre ex-servidores, gestores, pesquisadores e pessoas ligadas à luta antimanicomial.
Segundo Elda, a ideia de produzir o documentário era antiga. Pesquisadora da área de direitos humanos, ela acompanhava há anos os debates sobre saúde mental e a reforma psiquiátrica brasileira. O projeto ganhou força após um convite do governo estadual para desenvolver a obra.
Eu já tinha interesse neste documentário há muito tempo. Sempre foi um assunto que me preocupava. Quando recebi o convite, aceitei imediatamente porque coincidentemente era algo que já fazia parte das minhas inquietações como pesquisadora
Elda Bussinguer diretora do documentário
O trabalho exigiu uma extensa pesquisa histórica e documental antes mesmo do início das gravações. De acordo com a diretora, o levantamento incluiu documentos antigos, registros oficiais e dezenas de entrevistas que ajudaram a reconstruir a trajetória da instituição.
"Foi uma história construída tanto pela documentação quanto pela oralidade. Eu entrevistava uma pessoa e ela me levava a outra. Com o tempo, as pessoas começaram a me procurar, trazendo documentos, fotografias e relatos que ajudaram a compor essa memória", explicou.
Ao longo do processo, Elda afirma ter se deparado com histórias ainda mais impactantes do que imaginava. Para ela, o documentário cumpre também o papel de denúncia sobre práticas que marcaram o período dos manicômios no Brasil.
Cada depoimento reforçava a importância de produzir um documentário que denunciasse as violações de direitos humanos daquele momento, mas que também mostrasse a possibilidade de esperança e de transformação
Elda Bussinguer diretora do documentário
Depósito de pessoas indesejadas
Durante a pesquisa, um dos aspectos que mais chamou a atenção da diretora foi a diversidade de pessoas que passaram pelo hospital sem necessariamente apresentarem transtornos mentais.
Segundo ela, o Adauto Botelho recebeu ao longo de sua história mulheres internadas por familiares interessados em suas heranças, pessoas perseguidas durante a ditadura militar, crianças abandonadas e indivíduos que sofriam preconceito por sua orientação sexual.
Muitas pessoas estiveram ali não porque tinham doenças mentais. O hospital acabou funcionando como um depósito de pessoas indesejadas pela sociedade e pelas próprias famílias
Elda Bussinguer diretora do documentário
Para Elda, um dos maiores desafios da produção foi justamente enfrentar os estigmas associados à loucura e às instituições psiquiátricas.
"O primeiro desafio é reconhecer que nós mesmos carregamos preconceitos. A loucura sempre foi tratada como um estigma. Era preciso ressignificar esse olhar para compreender a complexidade das histórias que passaram por aquele espaço", disse.
Recuperar a memória
A diretora destaca que a construção do documentário também teve um efeito de catarse para muitas pessoas entrevistadas. Ex-funcionários e personagens ligados ao hospital demonstraram disposição em compartilhar experiências que, em alguns casos, permaneceram guardadas por décadas
"As pessoas compreenderam a importância de recuperar essa memória. Muitas tinham necessidade de contar essa história para que ela não fosse esquecida", afirmou.
O processo de produção durou cerca de um ano entre pesquisa, desenvolvimento e execução. Para Elda, o principal objetivo da obra é impedir que experiências semelhantes se repitam.
Precisávamos trazer essa história para a memória coletiva. Não podemos permitir que situações como essas sejam esquecidas ou voltem a acontecer
Elda Bussinguer diretora do documentário
Hoje, o antigo Adauto Botelho funciona como Hospital Estadual de Atenção Clínica (HEAC). Diferentemente do modelo manicomial que marcou sua origem, a unidade atua com foco no acolhimento e no tratamento em saúde, mantendo apenas uma ala psiquiátrica e sem o caráter de confinamento permanente que existiu no passado.