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“Adauto”

Documentário resgata história de famoso hospital psiquiátrico do ES

Produção acompanha relatos e transformação do antigo Hospital Adauto Botelho, a “Casa dos Loucos” do ES
André Cypreste

Publicado em 27 de Junho de 2026 às 18:00

"Adauto", documentário sobre o Hosital Psiquiátrico Adauto Botelho
"Adauto", documentário sobre o Hosital Psiquiátrico Adauto Botelho Divulgação SECTI - Governo do Espírito Santo

Considerado por décadas um dos símbolos da política manicomial no Espírito Santo, o antigo Hospital Adauto Botelho teve sua trajetória marcada por histórias de abandono, confinamento e violações de direitos humanos. Agora, essa memória ganha as telas no documentário “Adauto”, lançado na última segunda-feira (22), buscando preservar relatos do passado e mostrar a transformação da unidade ao longo dos anos.


A produção, dirigida pela pesquisadora e professora Elda Bussinguer, apresenta a história do hospital desde os períodos em que funcionava como instituição psiquiátrica até sua mudança para o atual Hospital Estadual de Atenção Clínica (HEAC). O documentário reúne depoimentos de pessoas que viveram diferentes momentos da unidade, entre ex-servidores, gestores, pesquisadores e pessoas ligadas à luta antimanicomial.


Segundo Elda, a ideia de produzir o documentário era antiga. Pesquisadora da área de direitos humanos, ela acompanhava há anos os debates sobre saúde mental e a reforma psiquiátrica brasileira. O projeto ganhou força após um convite do governo estadual para desenvolver a obra.

Eu já tinha interesse neste documentário há muito tempo. Sempre foi um assunto que me preocupava. Quando recebi o convite, aceitei imediatamente porque coincidentemente era algo que já fazia parte das minhas inquietações como pesquisadora

Elda Bussinguer diretora do documentário

O trabalho exigiu uma extensa pesquisa histórica e documental antes mesmo do início das gravações. De acordo com a diretora, o levantamento incluiu documentos antigos, registros oficiais e dezenas de entrevistas que ajudaram a reconstruir a trajetória da instituição.


"Foi uma história construída tanto pela documentação quanto pela oralidade. Eu entrevistava uma pessoa e ela me levava a outra. Com o tempo, as pessoas começaram a me procurar, trazendo documentos, fotografias e relatos que ajudaram a compor essa memória", explicou.


Ao longo do processo, Elda afirma ter se deparado com histórias ainda mais impactantes do que imaginava. Para ela, o documentário cumpre também o papel de denúncia sobre práticas que marcaram o período dos manicômios no Brasil.

Cada depoimento reforçava a importância de produzir um documentário que denunciasse as violações de direitos humanos daquele momento, mas que também mostrasse a possibilidade de esperança e de transformação

Elda Bussinguer diretora do documentário

Hospital Colônia Adauto Botelho, atual Hospital Estadual de Atenção Clínica, que fica em Cariacica
Hospital Colônia Adauto Botelho, atual Hospital Estadual de Atenção Clínica, que fica em Cariacica Acervo Público do Estado do Espírito Santo (APEES)

Depósito de pessoas indesejadas

Durante a pesquisa, um dos aspectos que mais chamou a atenção da diretora foi a diversidade de pessoas que passaram pelo hospital sem necessariamente apresentarem transtornos mentais.


Segundo ela, o Adauto Botelho recebeu ao longo de sua história mulheres internadas por familiares interessados em suas heranças, pessoas perseguidas durante a ditadura militar, crianças abandonadas e indivíduos que sofriam preconceito por sua orientação sexual.

Muitas pessoas estiveram ali não porque tinham doenças mentais. O hospital acabou funcionando como um depósito de pessoas indesejadas pela sociedade e pelas próprias famílias

Elda Bussinguer diretora do documentário

Para Elda, um dos maiores desafios da produção foi justamente enfrentar os estigmas associados à loucura e às instituições psiquiátricas.


"O primeiro desafio é reconhecer que nós mesmos carregamos preconceitos. A loucura sempre foi tratada como um estigma. Era preciso ressignificar esse olhar para compreender a complexidade das histórias que passaram por aquele espaço", disse.

Recuperar a memória

Hospital Estadual de Atenção Clínica (HEAC). Sesa/Divulgação

A diretora destaca que a construção do documentário também teve um efeito de catarse para muitas pessoas entrevistadas. Ex-funcionários e personagens ligados ao hospital demonstraram disposição em compartilhar experiências que, em alguns casos, permaneceram guardadas por décadas


"As pessoas compreenderam a importância de recuperar essa memória. Muitas tinham necessidade de contar essa história para que ela não fosse esquecida", afirmou.


O processo de produção durou cerca de um ano entre pesquisa, desenvolvimento e execução. Para Elda, o principal objetivo da obra é impedir que experiências semelhantes se repitam.

Precisávamos trazer essa história para a memória coletiva. Não podemos permitir que situações como essas sejam esquecidas ou voltem a acontecer

Elda Bussinguer diretora do documentário

Hoje, o antigo Adauto Botelho funciona como Hospital Estadual de Atenção Clínica (HEAC). Diferentemente do modelo manicomial que marcou sua origem, a unidade atua com foco no acolhimento e no tratamento em saúde, mantendo apenas uma ala psiquiátrica e sem o caráter de confinamento permanente que existiu no passado.

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